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março 2000

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DOSSIÊ KOSOVO: LIÇÕES DE UM CONFLITO

Uma informação "exemplar"?

Os jornais e emissoras de TV ficaram extremamente satisfeitos com a cobertura que deram à guerra. A OTAN e os Estados Unidos, também...

Serge Halimi, Dominique Vidal

Ao longo de todo o conflito, a mídia também avaliou seu próprio trabalho. Nesse aspecto, a guerra da Iugoslávia representa o ponto de encontro entre a lucidez, exclusivamente retrospectiva, a respeito dos "escorregões" nas crises precedentes, e a satisfação com a cobertura, considerada "exemplar," do presente episódio. Uma atitude é determinante da outra. Quanto mais implacável era a avaliação dos erros do passado (Timisoara, Guerra do Golfo), mais o juízo sobre o tratamento dado à Guerra da Iugoslávia podia ser eufórico.

Assim, em 1º de abril, menos de uma semana depois do início dos bombardeios e sem o menor distanciamento, o diretor de redação do Nouvel Observateur já se mostrava exultante: "Digamos, mesmo correndo o risco de ser acusados de solidariedade corporativa: o trabalho da mídia audiovisual neste conflito até agora é exemplar. As lições da Guerra do Golfo valeram". Por toda parte, celebrou-se o "milagre", como para apagar as culpas do passado.

Um pouco menos de dez anos atrás, um jornalista da France 2, enviado a Timisoara, comentara diante de alguns velhos cadáveres desenterrados pela propaganda do novo regime romeno: "Estas imagens estão aí para provar que 4 630 pessoas foram assassinadas pela polícia política" (22/12/1989). No ano seguinte, a Guerra do Golfo exibiu seus jornalistas em campo. Esqueceu-se que, na época, foram duas proezas "em tempo real" celebradas por inúmeras mídias.

A legítima severidade que se seguiu assustou alguns de seus bajuladores habituais. Invocando, então, a "síndrome de Timisoara", o diretor do Jounal de Dimanche advertiu os jornalistas contra... o excesso de circunspecção em face dos testemunhos dos refugiados kosovares (2/5/1999). Alguns intelectuais, particularmente comprometidos com a mídia, consideraram também necessário estigmatizar os "profissionais da dúvida, mestres em cegueira." E, eventualmente, imputar-lhes o pior: "Eles teimam em negar a evidência. Encerram-se no fantasma pueril da conspiração, na postura paranóica do dissidente (...) A desconfiança sistemática, essa falsa lucidez que é a versão sofisticada do revisionismo" (Pascal Bruckner, Libération, 21/7/1999).

Caminho preparado para os auto-elogios

A comparação valoriza um passado lamentável da mídia, a suspeita infame sobre as intenções dos analistas críticos. O terreno está assim preparado para que a auto-satisfação se desenvolva plenamente.

A televisão foi a primeira propagandista de sua própria excelência. O apresentador do jornal da France 2 se satisfaz: "Desde o início do conflito, a imprensa francesa, especialmente na France 2 escolheu a prudência e a modéstia. Há uma atitude vigilante em relação às fontes de informação. Demos um tratamento radicalmente diferente daquele da Guerra do Golfo" (L’Humanité, 5/5/1999). O diretor de informação da TF1 faz coro: "As imagens do falso ossário, na Romênia, transmitidas por todas as televisões, em 1989, provocaram uma tomada de consciência sobre o poder da mídia audiovisual. A partir de então, indicamos, sistematicamente, em que condições obtemos as imagens, num esforço permanente de rigor e informação."

O tom estava dado, cada mídia teceu seus próprios louvores: Le Point: "Evitamos os erros dos conflitos anteriores. No Kosovo, não houve nem desinformação, nem ingenuidade espetacular. A vigilância diante das informações fornecidas pela OTAN foi constante." L’Express: "Enviamos muitos repórteres ao local. Tentamos dar uma informação precisa, verificada, e desempenhar nosso papel fornecendo a análise e os pontos de vista do conflito." LCI: "Hoje sabemos nos distanciar. Duvidamos de tudo, pois não podemos provar nada". RTL: Aprendemos duas coisas: não encher lingüiça apenas para ir ao ar, sem informação, e ter um cuidado extremo com a maneira de repercutir as informações, indicando, com precisão, as fontes." Le Monde: "Mostrar, explicar, debater: apesar de algumas hesitações inevitáveis diante do gênero do acontecimento, Le Monde cumpriu inteiramente seu papel". Le Journal du dimanche: "Escaldadas pela Guerra do Golfo, as mídias francesas podem ser citadas como exemplo das que fazem - para os dois lados - a caça à desinformação." La Tribune: Nossas mídias têm razão de adotar prudência de lince diante de todas as tentativas de desinformar."

Franz-Olivier Giesbert denunciou inutilmente, em editorial, a lavagem celebral a favor da OTAN (Le Figaro Magazine, 17/4/1999) e Marianne reclamou, muitas vezes, da "otanização" da informação. O consenso que se autocelebra tornou-se a tal ponto contagioso que influenciou alguns dos poucos periódicos hostis à guerra. O semanário Politis, imprudentemente, admitiu: "Desta vez, estamos longe da unanimidade patrioteira da Guerra do Golfo e dos colegas que mantêm o microfone sob o nariz dos especialistas militares" (1º/4/99). L’Humanité completou: "Os jornalistas narram a Guerra do Kosovo de maneira muito mais precavida que na época do conflito do Iraque. (8/4/1999).

Um jornalismo que gosta de ser "bem" enganado

"Precaução". O termo é muito forte. Mas, para ser eficaz, a manipulação deve levar em conta a consciência da manipulação e empregar outros recursos, além das conhecidas maquinações do passado. Com candura quase emocionante, o correspondente da France Inter junto à OTAN em Bruxelas explicou assim: "Penso jamais ter sido manipulado ou, então, o fui tão bem que não me dei conta. (...) No final, mentir não serve para nada, pois, cedo ou tarde, tudo se sabe. (...) Apenas percebi erros [da OTAN] que, acredito, foram lealmente corrigidos. E, também, alguns escrúpulos que apenas a desfavoreciam, quer dizer, após cada ataque a um alvo diferente do desejado, o tempo necessário para o inquérito militar e técnico interno. Para dizer: ’Sim, fomos nós que destruímos tal hospital ou tal ponte no momento em que um trem passava ali’" (Press Club de France, Paris, 28/6/1999).

Nesse último caso, sabe-se agora que a OTAN acelerou o filme com imagens do trem entrando na ponte para poder ter o pretexto do "erro". E sabe-se, também, como a organização atlântica manipulava a imprensa: "Para os erros, tínhamos uma tática bastante eficaz, explica um general da OTAN. Freqüentemente, conhecíamos as causas e as conseqüências exatas deles. Mas para anestesiar as opiniões, dizíamos que fazíamos um inquérito, que as hipóteses eram muitas. Só revelávamos a verdade depois de quinze dias, quando ela já não interessava a ninguém. A opinião a gente trabalha, como as outras coisas" (Le Nouvel Observateur, 1º./7/1999).

No fim da guerra, Bruxelas, podia, portanto, declarar-se satisfeita. Shea até admitiu: "Muitos jornalistas vieram me dizer, esses dias, que apreciaram os esforços que fizemos para informá-los" (LCI,14/06/1999) . Washington também não tinha motivos de queixa. Para Richard Holbrooke, um dos arquitetos da política americana nos Balcãs: "A cobertura do New York Times, do Wasington Post, da NBC, CBS, ABC, CNN e das revistas foi extraordinária e exemplar".

Já ouvimos estes adjetivos elogiosos por ocasião da Guerra do Golfo. Em 26 de março de 91, na CNN, Marlin Fitzwater, então porta-voz da Casa Branca reconheceu: "o presidente Bush acha que a cobertura dada a este conflito pela mídia é extraordinária"...

Já havíamos escutado um desses adjetivos entusiastas quando da Guerra do Golfo. Em 26 de março de 1991, na CNN, o sr. Marlin Fitzwater, então porta-voz da Casa Branca, não reconhecera: "O presidente Bush considera que a cobertura desse conflito pela mídia é extraordinária"?

Leia também nesse dossiê:

O "genocídio": realidade ou ficção? As "nossas" atrocidades são diferentes das "deles"

Traduzido por Teresa Van Acker.




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