Jornalismo Crítico | Equipe | Copyleft | Contato | Escreva | Edição Impressa | Assinaturas
Uma iniciativa


Já nas bancas



Reflexões sobre o consumo responsável
Resenha | Comprar

Edições anteriores

Alternativas ao aquecimento global
Resenha | Comprar

Caminhos para uma comunicação democrática
Índice | Comprar

A disputa pelo ouro azul
Índice | Comprar

Alca: o jogo duro do império
Índice | Comprar

março 2000

imprima
UMA RELIGIÃO QUE ATRAI OS IMIGRANTES

O islamismo na Europa

No debate sem fim sobre Islã, democracia e modernidade, a novidade é a presença dos muçulmanos na Europa como fator de transformação do pensamento islâmico. Duas obras recentes dão provas disso de maneiras diferentes. Vers un Islam européen, coletânea de artigos publicados recentemente por Olivier Roy na revista Esprit, parte da idéia de uma secularização efetiva do mundo islâmico induzida, segundo ele, por três fenômenos convergentes analisados caso a caso: o Islã político, o neofundamentalismo radical e a afirmação religiosa dos muçulmanos emigrados.

O autor sublinha o papel paradoxal do Islã político, que tende a reforçar, mais do que suprimir, a heteronomia da ordem religiosa e da ordem política. Descreve também os movimentos que colocam a "charia" [1] no centro da prática individual, bem como da reivindicação cultural e social, mas que são caracterizadas por uma indiferença em relação ao Estado e à política. Esses movimentos são sistematicamente vetores de desculturalização, como pensa Olivier Roy? Essa interpretação é discutível. Mais do que um desaparecimento das culturas nacionais sob os golpes da crítica de uma cultura islâmica homogênea, impondo em todo lugar os mesmos códigos alimentares, de vestimenta ou morais, o encontro entre o discurso islâmico normativo universal e as diversas sociedades pode também gerar novas culturas.

Visto sob este ângulo, o caso dos imigrantes muçulmanos na Europa, examinado na conclusão do livro, é de fato significativo. Não surpreendente que o discurso islâmico universalista seja atraente para um grande número de jovens muçulmanos de origem imigrante, na medida em que essa corrente faz do indivíduo o ponto de apoio da "charia". Esse apelo ao indivíduo corresponde mais às particularidades da minoria muçulmana do que às formas islâmicas mais nacionais de seus pais marroquinos, argelinos, tunisianos, asiáticos ou africanos. Assim, o recurso à norma islâmica permite a alguns desses jovens muçulmanos escapar à desestruturação cultural de seu meio familiar e social, ligado à marginalidade e à exclusão. Pela utilização do discurso islâmico universal, eles criam as condições, não para uma desculturalização, mas para a emergência de uma nova cultura islâmica européia, nascida do encontro da mensagem religiosa e do contexto francês, inglês ou alemão. De fato, como nota Olivier Roy, o discurso teológico islâmico na Europa ainda está longe de levar em conta as inovações culturais. Ao mesmo tempo, é possível constatar o início de uma renovação da reflexão teológica islâmica suscitada pela instalação do Islão na Europa.

Nem assimilação, nem separatismo

A respeito disso, o último livro de Tariq Ramadan atesta as premissas desse despertar teológico. Essa obra constitui a primeira tentativa original de pensar uma teologia da condição minoritária dos muçulmanos na Europa. Todos as fontes da tradição islâmica são aqui introduzidas contribuindo para a explicação e legitimação do novo contexto. O objetivo principal é o esclarecimento de um certo número de questões de jurisprudência demonstrando que algumas formas de coexistência são possíveis, evitando os dois extremos, o da assimilação e o do separatismo.

Distante das abordagens conservadoras que colocam o Islã como uma referência central — que Olivier Roy qualificaria de neofundamentalistas e Tariq Ramadan prefere chamar de tradicionalistas salafi — a obra dá brilhantemente provas de que é possível uma abordagem flexível e contextualizada da herança muçulmana. Para isso, o autor se inscreve na tradição dos pensadores reformistas, nascida no final do século XIX e ilustrada por Jamal Al-Din Al-Afghani, Mohamed Abduh, Rashid Ridâ et Hassan El-Banna.

A parte mais inovadora do livro é consagrada às modalidades concretas de realização desse esforço de interpretação. O autor renuncia à famosa oposição entre Dal El Harb (mundo da guerra) e Dar El Islam (mundo do Islã), que não permite avaliar a realidade muçulmana na Europa e prefere considerar que um muçulmano está sempre em casa quando tem condições de respeitar seus deveres religiosos fundamentais.

Olivier Roy, Vers un Islam Européen , Editions Esprit, Paris, 1999.

Tariq Ramadan, Etre musulman européen — Etude des sources islamiques à la lumière du contexte européen , Éditions Tawhid, Lyon, 1999.

Traduzido por Denise Lotito.



[1] Viver estritamente segundo os preceitos do Alcorão. [Nota da edição brasileira]


Fórum

Leia os comentários sobre este texto / Comente você também

BIBLIOTECA LMD

» por tema
» por país
» por autor

BOLETIM


digite seu endereço internet e receba nosso boletim

Leia mais sobre

» Fundamentalismo
» Islamismo
» Movimentos Migratórios
» União Européia
» Mundo Árabe

Caderno Brasil

» Palavra 48
» Explicando o verão francês
» Palavra 47
» O vazio
» Ignacy Sachs propõe Outra Amazônia
» Amazônia – laboratório das biocivilizações do futuro
» A nova arte da Cooperifa
» Palavra 46
» Reflexões de outubro
» A leitura na vida e na morte do Che
» Para uma retomada da razão no mundo árabe-islâmico
» Nada será como antes
» Todo mundo é natal
» Techies e gambiarras
» A força e o peso do que não está
» Sartre em si
» Palavra 45
» Para compreender a crise financeira
» Viagem com o Submarino Vermelho
» Mundo pós-americano
Mais textos


Blog da redação

» Enfim, a Carta!
» Salada Mista
» Somos um e múltiplos
» Ignacy Sachs debate a Amazônia
» Dois olhos, dois ouvidos e uma boca só: Fórum revive a função social da reportagem

Nesta edição

» Um romance sobre a revolução portuguesa
» Reformas no Irã
» O seqüestro do saber
» Rumo ao apartheid sanitário?
» A quem pertence o conhecimento?
» Palavras proibidas
» Um sistema que mata
» Vocabulário da propriedade intelectual
» Bibliografia na Internet
» A quem interessa a abertura dos mercados
» A resistível ascensão de Haider
» Entre radicalismo e respeitabilidade
» Havia outra solução
» Guerra, mídia e desinformação
» O "genocídio":
» As "nossas" atrocidades
» Uma informação "exemplar"?
» Adeus à multietnia
» Um país em erupção
» De que lado estão os militares?
» Outra chance para a esquerda americana
» Portugal erradica suas favelas
» Petróleo, terceiro choque?
» Exigência universal de pluralidade
» A revolta dos "marginalizados"
» A nova "conquista da água"
» A Comuna de Paris chega às telas
» Grito de alerta no Pantanal brasileiro
» Uma biografia à altura de De Gaulle
» Três olhares sobre a Irlanda do Norte
» A atualidade do internacionalismo

Veja também

» Outras edições