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setembro 2001

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DOSSIÊ RIQUEZA

“Como gastar?”

Um suplemento mensal do jornal Financial Times, com o sugestivo nome de How to Spend It (Como gastar), resolveu, finalmente, um problema existencial que angustiava boa parte dos milionários: como gastar o dinheiro...

Serge Halimi

Já não é sem tempo! Há alguns anos que a liberalização da economia vem, finalmente, permitindo aos ricos serem um pouco mais ricos. Mas parece que ninguém se estava preocupando com eles. No entanto, já há bastante tempo, Marcel Dassault1 tinha relativizado as vantagens da fortuna, explicando que nem todo dia se pode comer caviar. E nada aliviava essa angústia: como gastar seu dinheiro, agora, que se tem tanto.

O problema foi finalmente resolvido graças a 72 edições sucessivas de How to Spend It (“Como gastar”), um suplemento mensal, colorido, do jornal Financial Times. Vendido com o exemplar do fim de semana, esse suplemento, à medida que vai sendo publicado, permite passar alguns momentos de relaxamento estudando formas de gastar uma fortuna tão arduamente ganha.

Cartazes por uma ninharia

Em sua última edição (agosto de 2001), How to Spend It abordava uma banalidade: os Jaguar (menos de 300 mil reais, uma pechincha)

Em sua última edição (agosto de 2001), How to Spend It abordava uma banalidade: os Jaguar. Esse carro, entretanto, já tinha sido objeto de um artigo alguns meses antes, em maio, por ocasião do lançamento de modelos tão baratos que se poderia pensar serem destinados a plebeus (750 mil francos, ou cerca de 270 mil reais). Mas plebeus apressados, já que desejosos de chegar logo a um dos haras no campo tão oportunamente divulgados na mesma edição. O carro dos sonhos também pode ser alugado em um clube destinado a amadores de modelos de exceção. Também no caso desse clube, a cota de sócio é excepcional: 20 mil francos por ano, ou pouco mais de 7 mil reais (How to Spend It, junho de 2000, pág. 15).

Com a chegada do verão (junho de 2001), os assuntos de destaque são as piscinas design e o Rio de Janeiro (“A vida à beira-mar, nessa cidade hedonista”). Se a camisa havaiana é obrigatória nesses lugares de descontração, dá para descolar uma por menos de 30 mil francos, ou cerca de 11 mil reais (How to Spend It, março de 2001, pág. 26). Seja qual for a estação do ano ou a camisa, viajar é obrigatório para quem sabe gastar: em setembro de 1998, por exemplo, a proposta era a de travar conhecimento com os amigos eslavos da “cleptocracia russa”. Como presente de boas-vindas, os leitores podiam escolher, nessa mesma edição, os cartazes originais de alguns filmes: 175 mil reais pelo do Invisible Man (1933) e pouco mais de 300 mil reais pelo de Casablanca (1942). Os cartazes de esportes de inverno destinam-se a baixos orçamentos (de 2,5 mil a 3,2 mil reais), mas, em se tratando de uma raridade, como foi o caso do cartaz dos Jogos de Inverno em St. Pierre de Chartreuse, de 1930 (How to Spend It, janeiro de 2001, pág. 31), podem chegar à casa dos 55 mil francos (20 mil reais).

Saindo da obscuridade

A camisa havaiana é obrigatória em lugares de descontração: dá para descolar uma por cerca de 11 mil reais (,i>How to Spend It, março de 2001, pág. 26)

Uma revista tem a obrigação de oferecer a seus leitores alguns retratos (dourados) da vida. Empresária mais rica da Argentina, Anita de Fortabat comprou um joguinho, o “Gulfstream V”, cujo preço gira em torno dos 80 e poucos milhões de reais (How to Spend It, junho de 1998, pág. 59). Aparentemente, esse pequeno devaneio não a arruinou, pois a sra. Fortabat investiu cinco milhões de dólares na aquisição de uma bela casa, situada às margens do lago Nahuel Huapi. Para garantir a paz, ela também comprou os terrenos vizinhos, transformando, praticamente, o lago em sua piscina. Há quem prefira comprar uma ilha: Ted Turner comprou uma nas Ilhas Carolinas; Malcolm Forbes, nas Ilhas Fiji. Nesse item, o preço do hectare na Malásia, muito caro, é de cerca de 600 mil dólares (cerca de 1,5 milhão de reais). Por um preço desses, valeria mais a pena passar suas férias no espaço: a agência Zegrahm Space Voyages oferece um lugar pela bagatela de 98 mil dólares, ou cerca de 245 mil reais (How to Spend It, abril de 1999, pág. 52)

“As loucuras dos super-ricos” também chamaram a atenção de uma edição do Figaro Magazine (19 de maio de 2001). Tiveram destaque especial François Pinault, dono do semanário Le Point e das revistas L’Histoire e La Recherche, Liliane Bettencourt, Jean-Marie Messier, Pierre Bergé, Bernard Arnault, Olivier Dassault e os cantores Michel Sardou, Jean-Jacques Goldman e Johnny Halliday. Alguns outros, menos conhecidos, mostraram-se dispostos a fazer qualquer coisa para sair da obscuridade. Por exemplo: “Jacques Garcia, decorador e esteta, transformou o palácio de Champ-de-Bataille em um palácio digno do Rei Sol”. E lá está ele, posando numa sala cheia de veludo e ouro. Sobre sua cama, tapeçarias de cores berrantes e um crucifixo cuja sobriedade não era a principal qualidade.

Preços bastante razoáveis

Luciano Benneton e Ted Turner compraram ranchos na Patagônia – invadida por ranchos hollywoodianos para multibilionários ambientalistas

Mas não há nada como a Patagônia. Preocupado com a tolerância e a justiça na terra, Luciano Benneton é dono de 900 mil hectares naquela região. Como precisava de água para os seus (alguns milhares) carneiros de raça merino, fez um pequeno desvio num rio – cujos recursos, entretanto, eram vitais para um grupo de índios que vive pouco abaixo. Também Ted Turner comprou um rancho nessa região – invadida por ranchos hollywoodianos para multibilionários ambientalistas.

Uma coisa que How to Spend It ainda não fez foi dar a Marrakech a importância devida. E, no entanto, é lá que se encontra uma boa parte da sociedade do jet-set francês, em palacetes polidos e conservados por uma mão-de-obra barata. Embora tenham duplicado nos dois últimos anos, os preços ainda são bastante razoáveis: de cento e poucos mil a 4,3 milhões de reais por “imóveis de exceção, tais como o de Bernard-Henri Lévy e Arielle Dombasle, comprado de Alain Delon3 ”. Segundo dizem, uma belíssima moradia: Jean Daniel, que passou as férias na região, confessa ter ficado estupefato4 . Ninguém sabe ao certo se foi ali que Bernard-Henri Lévy redigiu, recentemente, três crônicas para a revista Le Point, dedicadas à globalização. Crônicas em que condena, com veemência, “o ódio ao mercado, o antiamericanismo, o criptomarxismo”, mas também as “grandes instituições financeiras”, que perambulam, “com armas e bagagens, pelas regiões mais improváveis e longínquas”. O badaladíssimo ensaísta terminava, declarando-se a favor da Taxa Tobin.
(Trad.: Jô Amado)




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