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Nós queremos muito, queremos depressa, queremos ir longe, queremos imediatamente. Queremos motores V-8 de 345 cavalos. Dirigimos monstros de quatro rodas. Somos os únicos ao volante. Não temos limites. Temos liberdades.
Se o aumento do nível dos oceanos fizer submergir o litoral, nossos geólogos marinhos esculpirão outro e isso inspirará idéias brilhantes de filmes-catástrofe a Hollywood. Se queimarmos a pele tomando sol, nossos dermatologistas nos implantarão uma nova. Se o mundo se aquecer, ligaremos o ar condicionado (fomos nós que inventamos o ar condicionado). Correremos ainda mais rápido em nossos carros gigantes, e com ar condicionado, rumo às novas praias criadas por nossos geólogos marinhos.
Aperfeiçoaremos o sonho da energia nuclear. Depositaremos nosso lixo tóxico onde e quando decidirmos. Temos Estados inteiros que não servem senão para depósitos ancestrais dos nossos rios. O lixo poderá apodrecer ao ar livre, nessas imensas planícies, durante milênios.
Teremos os maiores e mais perversos mísseis, e os apontaremos na direção que quisermos, para as galáxias, para a eternidade, para todo o sempre.
Lançaremos quantos satélites bem entendermos ao espaço e os protegeremos com um escudo de ogivas nucleares.
Garantiremos conexões mais rápidas com a Internet. Não permitiremos que ninguém, nem o que quer que seja, impeça o acesso aos nossos computadores, aos nossos Palm Pilots e BlackBerrys, para atender a necessidades essenciais: cotações da Bolsa, resultados esportivos, preço dos imóveis, receitas de cozinha e pornografia (tudo bem, não inventamos a pornografia).
Militarizando o espaço e protegendo nossos satélites, garantiremos a vida, a liberdade e a busca da felicidade: os nossos 500 canais de televisão vindos do espaço infinito. Modificaremos os alimentos a nosso bel prazer, os exportaremos para onde bem entendermos e a preços que nós, e somente nós, estipularemos, nas quantidades que escolhermos.
Nossos braços financeiros internacionais, o Banco Mundial e o FMI, apoiarão qualquer ditadura que nos convenha.
Compraremos, carregaremos, esconderemos e usaremos qualquer arma de fogo, onde e quando quisermos, pois é um direito constitucionalmente garantido (nós inventamos a Constituição). Executaremos criminosos quando assim o decidirmos, por injeção letal ou cadeira elétrica (nós inventamos a eletricidade). Nós somos a América.
(Trad.: Denise Lotito)