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novembro 2001

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GUERRA DE 14-18

Horrores da barbárie

Carta de Eugène-Emmanuel Lemercier a sua mãe, 22 de fevereiro de 1915

“A senhora não pode imaginar, minha querida mãe, o que o homem pode fazer contra o homem. Há cinco dias que meus sapatos estão engordurados de cérebros humanos, que piso em tórax, que encontro tripas. Os homens comem o pouco que têm, encostados em cadáveres. O regimento foi heróico: não temos mais oficiais.” (Lettres d’un soldat, p. 135, ed. Chapelot, 1916)

Carta de Henri Barbusse a sua mulher, 21 de junho de 1915

“Na própria trincheira, havia cadáveres que não podem ser retirados, nem enterrados (até agora não tivemos tempo de o fazer), e que são pisoteados quando se passa. Um deles, que tem uma máscara de lama e dois buracos nos olhos, deixa cair uma mão, esbagaçada e quase destruída pelos soldados que se precipitam, em fila, ao longo da trincheira. Dá para ver, pois a trincheira fica aberta nesse lugar e nós o iluminamos, por um instante. Você não acha macabro, esses mortos usados pelo destino como pobres coisas?” (Lettres de Henri Barbusse à sa femme, 1914-1917, p. 151, ed. Ernest Flammarion, 1937)

Carta de Maurice Genevoix, 1915

“Esta guerra é ignóbil: fiquei imundo, durante quatro dias, de terra, de sangue e de miolos. Jogaram na minha cara um monte de tripas, e na minha mão uma língua com uma parte da garganta pendurada [...]. Sinto-me enojado, embriagado de horror.” (Citado em Les Eparges (1923) e Ceux de 14 (1949), ed. Flammarion, 1990)

Carta de Fernand Léger a Louis Poughon, 30 de outubro de 1916

“Detritos humanos começam a aparecer assim que se deixa a zona onde ainda existe uma trilha. Vi coisas excessivamente curiosas. Cabeças humanas, quase mumificadas, surgindo da lama. Bem pequenininhas. Poderia pensar-se que eram de crianças. As mãos, principalmente, são extraordinárias. Há mãos de que eu gostaria de ter tirado uma fotografia perfeita. É o que há de mais expressivo. Muitos corpos têm os dedos dentro da boca, os dedos cortados pelos dentes. Já tinha visto isso no dia 13 de julho, em Argonne, um camarada que sofrera demais e havia comido as mãos. Fiquei olhando durante quase uma hora, com a devida atenção, o tempo todo, para não me afogar (se você não sabe disso, muitos feridos acabam morrendo afogados nos buracos abertos pelos 380, que têm três metros de profundidade e ficam cheios de água). [...] Essas coisas têm que ser ditas.” (Fernand Léger, une correspondance de guerre, p. 66, ed. Les Cahiers du Musée national d’art moderne, Hors série/archives, 1997)

Carta de um desconhecido

Palavras pronunciadas por um aluno da Assistência Pública, alguns segundos antes de sua morte, em 22 de maio de 1916:

“Escreva ao sr. Mesureur comunicando que G. morreu em Verdun, que ele se perdeu em meio a uma grande campo de batalha, da mesma maneira que ele um dia foi encontrado na rua.” (La dernière lettre écrite par des soldats français tombés au champ d’honneur, 1914-1918, p. 129, ed. Flammarion, 1921)
(Trad.: Jô Amado)




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