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novembro 2001

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HISTÓRIA

A ira de Georges Clemenceau

Discurso pronunciado pelo deputado Georges Clemenceau (esquerda radical) na Câmara dos Deputados, a 31 de julho de 1885, em resposta ao então ministro das Relações Exteriores, Jules Ferry (republicano, positivista), que em seguida renunciaria

“Raças superiores! Raças inferiores! Isso já foi dito! De minha parte, rebato de forma veemente, desde que vi sábios alemães demonstrarem cientificamente que a França deveria ser vencida na guerra franco-prussiana porque os franceses são de uma raça inferior à dos alemães. Desde então, confesso, penso duas vezes antes de voltar-me para um homem ou para uma civilização e pronunciar: homem ou civilização inferiores. Raça inferior, os hindus! Com aquela imensa civilização requintada, que se perde na noite dos tempos! Com aquela fantástica religião budista, que foi da Índia para a China, com aquele desabrochar de arte cujos vestígios magníficos ainda são visíveis! Raça inferior, os chineses! Com uma civilização cujas origens são desconhecidas e que parece ter se desenvolvido a limites extremos. Inferior, Confúcio!

Recuso-me a julgar em profundidade esta tese aqui apresentada, que não passa da proclamação do primado da força sobre o direito; a história da França, desde a Revolução, é um protesto vivo contra essa pretensão iníqua. (…)

Veja a história da conquista desses povos, que o senhor considera bárbaros, e encontrará a violência, crimes desencadeados, a opressão, rios de sangue escorrendo, e o fraco, o oprimido, tiranizado pelo vencedor. Eis a história de nossa civilização. Procure-a onde e quando quiser: no México, sob Cortez ou Pizarro, nas Índias. (…) Nada direi sobre os vícios que o europeu leva consigo: o álcool, o ópio – que espalha por toda parte, e que impõe, se assim o desejar. E é esse o sistema que o senhor tenta justificar na França, como dizia Jules Maigne, na pátria dos direitos humanos? (…)

Não! Não existe qualquer direito de nações consideradas superiores contra nações inferiores: o que existe é a luta pela vida, uma necessidade fatal, que na medida que nos tornamos mais civilizados tentamos limitar aos limites da justiça e do direito; mas não tentemos disfarçar a violência sob o nome hipócrita de civilização; não falemos de direito, de dever!”
(Trad.: Teresa Van Acker)




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