Jornalismo Crítico | Equipe | Copyleft | Contato | Escreva | Edição Impressa | Assinaturas
Uma iniciativa


Já nas bancas



Desafios da economia solidária
Resenha | Comprar

Edições anteriores

Alternativas ao aquecimento global
Resenha | Comprar

Reflexões sobre o consumo responsável
Índice | Comprar

Caminhos para uma comunicação democrática
Índice | Comprar

A disputa pelo ouro azul
Índice | Comprar

novembro 2001

imprima
UM MUNDO UNIPOLAR?

Taliban, uma criação do Paquistão

No final da década de 70, em colaboração com os serviços secretos paquistaneses, a CIA e os países do Golfo levantaram bilhões de dólares e recrutaram milhares de voluntários que se juntaram aos mujahidin no Afeganistão

Vicken Cheterian

Está bastante incômoda a posição dos dirigentes sauditas, pois é o dinheiro da península arábica que financia a rede Al-Qaida e a milícia taliban. A partir da II Guerra Mundial, o reino saudita se empenhou em divulgar a sua versão do islamismo para conter a onda – então, quase irresistível – do nacionalismo árabe. É nesse contexto que, no final da década de 70, dinheiro e voluntários sauditas foram enviados em apoio ao jihad (guerra santa) no Afeganistão. Em colaboração com os serviços secretos paquistaneses (Interservices Intelligence Directorate – ISI), a CIA e os países do Golfo levantaram bilhões de dólares e recrutaram milhares de voluntários que se juntaram aos mujahidin1. Esse “sucesso” iria permitir a explosão dos movimentos fundamentalistas islâmicos que, após a guerra do Golfo, se voltariam contra a política saudita.

A esperança que os taliban alimentavam de grandes negócios petrolíferos foram por água abaixo em 1997, quando os EUA intensificaram suas críticas

Os fundos vinham de Washington e do Golfo, mas eram administrados pelo ISI. Através do fornecimento de armas e dinheiro, o regime paquistanês pretendia garantir o controle sobre o Afeganistão – controle que permitiria criar uma barreira estratégica contra a Índia. Por outro lado, abria-se caminho para uma Ásia central transbordando de energia. Era esse o sentido do “grande jogo”, ao mesmo tempo que a Unlocal2 já preparava seus planos de construir oleodutos e gasodutos do Mar Cáspio até o porto de Karachi. E por fim, os campos militares existentes no Afeganistão permitiriam fazer o treinamento dos partidários do Jamaat-e Ulema-i Islami3 e do Harakat ul-Ansar4 que já participavam de operações militares na Caxemira.

O isolamento dos taliban

A partir de sua vitória contra os comunistas, em 1992, os mujahidin racharam. O Paquistão voltou-se então para a milícia taliban, que parecia disposta a restabelecer a ordem no Afeganistão. Os taliban instalaram-se em Cabul em setembro de 1996 e “libertaram” o país, com exceção da região Norte, onde os homens de Ahmed Shah Massoud persistiram na resistência ao novo regime, aproveitando-se do apoio da Rússia, do Irã e da Índia, que lhes davam acesso às bases vizinhas no Tadjiquistão.

A esperança que os taliban alimentavam de fazer grandes negócios petrolíferos foram por água abaixo em 1997, quando o governo norte-americano intensificou as críticas com relação a eles. O regime de Cabul também não conseguiu um lugar nas Nações Unidas, nem um reconhecimento internacional. As raras relações diplomáticas que conseguiram estabelecer – com a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos – foram rompidas a partir de 11 de setembro de 2001. O Paquistão é o único país a mantê-las, argumentando que elas o vinculam a um Estado, e não a um governo. Antes mesmo dos atentados, praticamente reivindicados por Osama bin Laden, a destruição dos budas de Bamyan já provava que os taliban, à frente de um país em ruínas e devastado por guerras permanentes, não esperavam ser aceitos pela comunidade internacional.

A partir de 11 de setembro, o Paquistão luta para continuar mantendo sua influência sobre o Afeganistão pós-guerra e para evitar que a Aliança do Norte venha a dirigir o futuro governo.
(Trad.: Jô Amado)

1 - Existem várias estimativas quanto ao número de árabes afegãos. Segundo a edição de 6 de maio de 1996 do jornal Al-Wasa’, publicado em Londres, 6.170 árabes teriam atravessado a fronteira do Paquistão para o Afeganistão. Já a edição de 12 de outubro de 2001 do International Herald Tribune afirma que o contingente de tropas árabes em Cabul seria entre 4 e 6 mil homens.
2 - Companhia petrolífera norte-americana, sócia da Total, que opera na Ásia.
3 - Partido religioso, fundado na Índia, em 1941, pelo teólogo muçulmano Mawdoudi. Seu objetivo era a conquista do poder político e a criação de um Estado Islâmico.
4 - “Movimento dos guerrilheiros”, partido islâmico paquistanês, adepto do uso da violência, fundado em 1993.




Fórum

Leia os comentários sobre este texto / Comente você também

BIBLIOTECA LMD

» por tema
» por país
» por autor

BOLETIM


digite seu endereço internet e receba nosso boletim

Leia mais sobre

» CIA
» Paquistão
» Poder Imperial dos EUA
» Mundo Árabe
» Geopolítica do Golfo Pérsico
» Nacionalismo

Caderno Brasil

» Com Licença, sim?
» Crise mundial: as garantias de direitos sociais e o capitalismo
» Movimentos sociais conectados: o MST e o Exército Zapatista
» Salários invioláveis: uma questão de liberdade
» Palavra 57
» Ciência e democracia na Amazônia
» A máquina do Estado e as desigualdades cidadãs
» Mirar Battisti, acertar a multidão
» É de baque-solto
» O estuprador e o algoz
» Deusas do cotidiano
» Plano de duas feministas
» Marchinhas para um carnaval francês
» Europa brasileira 4
» Os economistas e a crise
» E por falar em saudade
» Palavra 56
» A grande oportunidade de Obama
» Ouvir o silencio
» Carta Capital e o país de Pinocchio
Mais textos


Blog da redação

» As condições da Raposa Serra do Sol
» Nazismo ao vivo e a cores
» Os insurretos do século 21: a I Insurreição Pirata
» Crise do software proprietário e o crescimento do Pinguim
» Apenas na velocidade dos dedos

Nesta edição

» Os alvos da guerra
» Islamofobia
» A ameaça da guerra bacteriológica
» O novo “grande jogo”
» Uzbequistão, um país-chave
» Do Golfo à China: conflitos de alto risco
» Uma guerra de religiões?
» As controvérsias de Washington
» A aposta política de Vladimir Putin
» Uma onda macartista nos EUA
» Os danos da guerra financeira
» Um freio à especulação
» A vida pregressa de Ariel Sharon
» A capitulação da ONU
» A cultura como fator da realpolitik
» Os esforços justificam os meios
» A esquizofrenia das Nações Unidas
» A história secreta da NSA
» A rede da Europa Oriental
» Regulamentaristas e abolicionistas
» Os números da indústria do sexo
» Rumo ao “capitalismo total”?
» Uma memória de luto
» Um panfleto contra a guerra
» Horrores da barbárie
» Lições e desvios da moral
» A ira de Georges Clemenceau
» Um olhar sobre o Afeganistão
» Van der Keuken, cineasta solidário

Veja também

» Outras edições