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dezembro 2001

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GEOPOLÍTICA DA CRISE

Limpeza étnica no atol dos Chagos

Parte do arquipélago dos Chagos, a ilha de Diego Garcia, onde fica uma base naval norte-americana, tem uma população nativa de cerca de 2 mil pessoas. Mas os EUA não querem “habitantes passíveis de serem influenciados pela propaganda comunista”

Hakim Malaisé

Inteiramente esvaziada de seus habitantes, a base militar norte-americana de Diego Garcia, isolada no meio do Oceano Índico, é um ponto de apoio muito importante e discreto para qualquer intervenção dirigida à Ásia Central e ao Golfo Pérsico. Sua pista aérea recebeu, em novembro, os pesados bombardeiros B-52 que, dia e noite, atacavam as linhas de frente do Afeganistão. A base abriga, permanentemente, depósitos de material, de armas e combustível, bem como várias dezenas de edifícios da marinha norte-americana, que, assim, encontram-se em “posição avançada”. Cerca de quatro mil militares e empregados trabalham ativamente no atol dos Chagos (onde fica a base), que serve, também, como centro de controle das comunicações e do espaço.

Na década de 60, o arquipélago esteve no centro de uma ampla reorganização do dispositivo militar anglo-norte-americano no Oceano Índico. Como o império britânico se preparava para desmobilizar todas as suas forças “a leste de Aden”, cedendo o lugar aos Estados Unidos, o Pentágono definira sua escolha: Diego Garcia, a ilha mais extensa do arquipélago (44 km2).

Uma posição irredutível

Na década de 60, quando se preparava para desmobilizar todas as suas forças “a leste de Aden”, a Grã-Bretanha cedeu Diego Garcia aos norte-americanos

Mas havia o problema do status do atol e das 64 ilhas do arquipélago: elas eram vinculadas à Ilha Maurício, território igualmente britânico, mas que caminhava para a independência. Ora, os Estados Unidos não queriam de modo algum que suas instalações militares pudessem, um dia, ser questionadas por um futuro país independente1 .

Além do que o arquipélago era habitado. Desde o século XVIII, os primeiros colonos europeus haviam trazido nativos da África e de Madagascar para trabalharem na exploração do coco: uma pequena comunidade, pacífica e protegida do mundo pelas curvas e saliências acolhedoras de atóis em águas turquesas. Mas o almirante Elmo Zumwalt, então chefe das operações da marinha norte-americana, explicou que “não queria habitantes passíveis de serem influenciados pela propaganda comunista e que pudessem nos criar problemas políticos”.

Empilhados e deportados

A Grã-Bretanha apressou-se a responder a essa dupla exigência norte-americana. Em 1965, o conjunto da região era desvinculado do território da Ilha Maurício, apesar da oposição da Organização das Nações Unidas (ONU), através da criação de uma nova colônia: o Território Britânico do Oceano Índico (BIOT) que, no ano seguinte, foi alugado aos Estados Unidos por um prazo de meio século. Foi quando os dois mil habitantes do arquipélago começaram a ser arrancados de sua terra natal: deram-lhes viagens, de lazer ou para tratamento de saúde, para Porto Luís, capital da Ilha Maurício, a uma distância de cinco dias por mar. Porém, foram impedidos de voltar e os recalcitrantes, nas ilhas, foram privados de qualquer meio de comunicação e de sobrevivência...

Em 1971, os primeiros militares norte-americanos que desembarcaram em Diego Garcia começaram, com a ajuda de buldôzeres, o trabalho de construção de suas instalações. Os habitantes do atol de Chagos tornaram-se uma população invisível: sua própria existência era negada nos encontros internacionais, assim como no Congresso norte-americano e no Parlamento britânico. Os documentos de estado civil, que atestavam a realidade de uma população autóctone há várias gerações, haviam sido destruídos ou confiscados. Boatos sabiamente destilados permitem temer o pior. Após uma intensa “guerra psicológica”, os últimos habitantes do arquipélago acabaram sendo, manu militari, empilhados às centenas nos porões de um navio, sem a possibilidade sequer de levarem seus bens, e foram espalhados entre as Ilhas Seychelles e Maurício, depois de uma odisséia de várias semanas.

Tentativa diplomática de Londres

Os últimos habitantes do arquipélago foram empilhados, manu militari, em porões de um navio, e enviados, em 1971, para as Ilhas Seychelles e Maurício

Esses “ilhéus”, assim reduzidos às mais miseráveis condições de vida, rechaçados para as favelas de Porto Luís ou de Victoria, acabaram por conseguir quebrar a conspiração do silêncio. Mais de trinta anos depois de seu exílio, em 1997, uma série de artigos espalhafatosos publicados pelo jornal Le Mauricien, fundamentados em documentos dos arquivos oficiais britânicos que acabavam de ser liberados para consulta, provava que, originários de um território até hoje dependente de Londres, os naturais do atol dos Chagos são cidadãos britânicos! Uma entidade - o Grupo dos Refugiados Chagos (GRC) - aproveitou rapidamente a brecha: a Grã-Bretanha foi acusada, no Supremo Tribunal de Londres, de haver deportado seus próprios cidadãos. No dia 3 de novembro de 2000, foi condenada a autorizar que os nascidos em Chagos voltassem para seu arquipélago natal.

Pouco após o processo de Londres, amplamente divulgado pela imprensa britânica, o governo de Anthony Blair prometeu financiar uma visita simbólica ao arquipélago e determinou estudos sobre a viabilidade da reinstalação definitiva da população. Mas os atentados de 11 de setembro, em Nova York e Washington, vieram complicar um pouco mais o destino dos naturais de Chagos. Tomando como pretexto a utilização de Diego Garcia para os bombardeios do Afeganistão, os britânicos cancelaram a viagem simbólica, prevista para novembro, e os “estudos” vêm se arrastando. Novamente, no início de novembro, os naturais de Chagos tiveram que recorrer a greves de fome e a manifestações para exigir da Grã-Bretanha a contratação imediata de cerca de mil deles para trabalharem na base de Diego Garcia, assim como o pagamento de uma pensão vitalícia para cada um dos nativos do arquipélago, como compensação por seu exílio forçado.

Não podendo processar diretamente o governo norte-americano, o GRC, que reúne a maioria dos oito mil nativos do atol dos Chagos com seus descendentes, pretende mover um processo contra as empresas que construíram a base militar, tais como a Brown & Root – um gigante mundial de obras públicas e da engenharia de petróleo, dirigida até o ano passado por Richard Cheney, atual vice-presidente norte-americano. Ex-ocupantes de altos cargos – dentre os quais os ex-secretários de Estado Robert McNamara e Henry Kissinger – serão igualmente convocados para se explicarem sobre seu papel na deportação dos naturais de Chagos. Talvez os membros do júri no Tribunal Federal de Washington, Estado majoritariamente negro e onde o processo será julgado, se sensibilizem com a história desses longínqüos “ilhéus”, jogados ao Deus dará – como outrora seus ancestrais - do outro lado do oceano…
(Trad.: Iraci D. Poleti)

1 - Ler Charles Zorgbibe, “ L’affaire Diego Garcia ”, Le Monde diplomatique, maio de 1980




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