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fevereiro 2002

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EDITORIAL

Berlusconi

A queda de Bettino Craxi e Giulio Andreotti balançou com todo o sistema político que, em poucos meses, viu serem envolvidos em escândalos, perseguidos pela justiça, centenas de deputados, senadores e ex-ministros, expostos à execração pública...

Ignacio Ramonet

“De todas as formas de “persuasão clandestina”, a mais implacável é a que se faz exercer simplesmente pela ordem das coisas.”
Pierre Bourdieu

A partir de 1992, uma avalanche de negócios escusos foi revelada pela operação Mani pulite (Mãos limpas) e pelo juiz Antonio di Pietro

Na Itália, a ordem das coisas persuadiu, de forma invisível, uma maioria dos eleitores de que acabou o tempo dos partidos tradicionais. Essa convicção enraizou-se numa constatação: desde a década de 80, o sistema político vem passando por uma decadência acelerada. Há quem fale em “gangrena” e “putrefação”. A corrupção generalizou-se assumindo proporções alucinantes. O sistema de propinas custou ao país mais de 75 bilhões de euros (cerca de 160 bilhões de reais)... O financiamento oculto dos partidos propiciou o enriquecimento fabuloso de seus principais dirigentes, em especial socialistas e democrata-cristãos. “Quem tiver olhos para ver”, afirmou Indro Montanelli, “compreenderá o enorme contraste entre o nível de vida dos dirigentes políticos e suas declarações de renda1 .”

A partir de 1992, uma avalanche de negócios escusos foi revelada pela operação Mani pulite (Mãos limpas) e pelo juiz Antonio di Pietro. Acusado de enriquecimento ilícito, Bettino Craxi, ex-presidente do Conselho e líder dos socialistas, renunciaria ruidosamente, vaiado por uma multidão irada que chegou a tentar linchá-lo... Giulio Andreotti, outro ex-presidente do Conselho e principal dirigente da Democracia Cristã, também seria, por sua vez, denunciado, arrastado na lama, acusado de “conivência com a máfia” e de “cumplicidade em assassinato”...

O vazio e o pânico

A queda desses dois gigantes balançou com todo o sistema político que, em apenas alguns meses, viu serem envolvidos em escândalos, perseguidos pela justiça e esculachados pelos meios de comunicação centenas de deputados, senadores e ex-ministros, expostos à execração pública... Acusada de todo tipo de corrupção, a classe política no poder viu-se decapitada, desacreditada pela opinião pública, afundando no descrédito total. “O vazio é tão grande e o pânico tão intenso”, escreve Eric Joszef, “que se receia abertamente um golpe de Estado2 .”

Acusada de todo tipo de corrupção, a classe política no poder viu-se decapitada, desacreditada pela opinião pública, afundando no descrédito total

Foi em meio a esse grande naufrágio – e não por meio de um golpe de Estado, mas de uma espécie de hipnose coletiva pela televisão – que Silvio Berlusconi, já aliado aos pós-fascistas da Aliança Nacional e aos xenófobos da Liga do Norte, venceu as eleições pela primeira vez, tornando-se presidente do Conselho de maio a dezembro de 1994. Essa experiência de poder foi um fracasso. Mas não desanimou Berlusconi – ele próprio, acusado de negociatas, de transações suspeitas e tráfico de influência – que, para se tornar chefe do governo em maio de 2001, contou com seus inúmeros trunfos.

O poder político, compra-se

Que trunfos? Em primeiro lugar, os que lhe garante sua imensa fortuna, a décima quarta do mundo e a maior da Itália3 . Uma fortuna construída a partir de nada, graças à proteção, no início, de seu amigo socialista Bettino Craxi. Às custas de falcatruas, primeiro conseguiu sucesso no setor imobiliário, depois na distribuição atacadista e nos supermercados, depois na área de seguros e publicidade e, finalmente, no cinema e na televisão. Juntamente com os grupos Bertelsmann, Rupert Murdoch, Léo Kirsch e Jean-Marie Messier, se tornaria um dos imperadores dos meios de comunicação na Europa.

Demagogo e populista, Berlusconi não tem escrúpulos: não hesitou em fazer um pacto com o ex-fascista Gianfranco Fini e o racista Umberto Bossi

Silvio Berlusconi colocaria a seu proveito a fabulosa riqueza e o formidável poder que lhe conferem, em termos de violência simbólica4 , seus canais de televisão, para demonstrar, numa época de globalização, uma equação simples: quando se detém o poder econômico e o poder da mídia, compra-se o poder político quase automaticamente5 . E até de uma forma triunfal, já que seu partido, Forza Italia, obteve cerca de 30% dos votos nas eleições legislativas de 13 de maio, tornando-se o principal partido político da Itália...

Surge o “novo fascismo”

Demagogo e populista, Silvio Berlusconi não se preocupa com escrúpulos. Em matéria de aliados, não hesitou em fazer um pacto de conivência com o ex-fascista Gianfranco Fini e o racista Umberto Bossi. Os três constituem o triunvirato mais grotesco e mais repugnante da Europa. A ponto de um semanário britânico, antes das eleições, lembrar as acusações pendentes na justiça italiana contra Berlusconi, avaliando que esse tipo de dirigente não era “digno de governar a Itália”, pois constituía “um perigo para a democracia” e uma “ameaça ao Estado de direito6 ”.

Essas sombrias previsões revelaram-se corretas. Após o deplorável colapso dos partidos tradicionais, a sociedade italiana, tão culta, assiste impassível (com a exceção do mundo do cinema, que passou a resistir) à atual degradação do sistema político, cada vez mais confuso, extravagante, ridículo e perigoso. Com a insolência de um charlatão de feira, e graças ao seu monopólio da televisão, Silvio Berlusconi concretiza o que Dario Fo qualifica de “novo fascismo”. A questão está em saber até que ponto esse modelo italiano, tão inquietante, poderá, amanhã, estender-se a outros países da Europa...
(Trad.: Jô Amado)

1 - Citado por Eric Joszef no livro Main basse sur l’Italie. La résistible ascension de Silvio Berlusconi, ed. Grasset, Paris, 2001, p. 37.
2 - Main basse sur l’Italie. La résistible ascension de Silvio Berlusconi, ed. Grasset, Paris, 2001, p. 41.
3 - A revista norte-americana Forbes avalia em 14,5 bilhões de euros (mais de 30 bilhões de reais) a fortuna de Silvio Berlusconi.
4 - “A violência simbólica é a que se exerce sobre um agente social com a sua cumplicidade.” Ler, de Pierre Bourdieu (com Loïc Wacquant), Réponses, ed. Seuil, Paris, 1992, p. 142.
5 - Essa demonstração também foi feita por Michael Bloomberg, bilionário norte-americano, dono da rede mundial de informações econômicas contínuas Bloomberg TV, que gastou mais de 77,5 milhões de euros em sua campanha eleitoral (mais de 160 milhões de reais), realizando o sonho de se tornar, em 1º de dezembro de 2001, prefeito de Nova York...
6 - The Economist, Londres, 28 de abril de 2001.




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