Jornalismo Crítico | Equipe | Copyleft | Contato | Escreva | Edição Impressa | Assinaturas
Uma iniciativa


Já nas bancas



Desafios da economia solidária
Resenha | Comprar

Edições anteriores

Alternativas ao aquecimento global
Resenha | Comprar

Reflexões sobre o consumo responsável
Índice | Comprar

Caminhos para uma comunicação democrática
Índice | Comprar

A disputa pelo ouro azul
Índice | Comprar

abril 2002

imprima
ENSAIO

Simplicidade

Por trás da pretensa complexidade exaltada por alguns intelectuais, o mundo de hoje, na realidade, é bem mais simples: o mundo está, cada dia mais, sendo apropriado por poucos

Serge Halimi

Fusões, aquisições, concentração: um número cada vez menor de empresas controla um número cada vez maior de setores-chave

Tornou-se difícil assistir a um debate sem que um dos participantes, e nem sempre o mais competente, explique, sabiamente: “As coisas são mais complexas”. Tal apelação à complexidade sugeriria, mesmo nos dias atuais, uma indiscutível superioridade intelectual. Ainda que, nos dias de hoje, as coisas sejam, às vezes, bem mais simples do que antes...

Um exemplo: o poder econômico. As “redes” – é o que nos explicam – teriam se emaranhado, e a velha dominação do capital teria sido liquidada pelos “contra-poderes”, pelos cidadãos, pelos meios de comunicação; uma forma de não-hegemonia, apenas ligeiramente assimétrica, estaria orientando nossa existência. Devido aos méritos do “pós-fordismo”, teriam, portanto, acabado os cartéis que tudo controlavam. Será?

Fusões, aquisições, concentração: um número cada vez menor de empresas controla um número cada vez maior de setores-chave. Em algumas áreas (telecomunicações, pesquisa petrolífera, indústria farmacêutica), a enormidade de investimentos necessários como “cacife de entrada” incentiva essa evolução. Mas nem sempre: se são quatro os protagonistas que dominam o petróleo (Exxon, Shell, BP e TotalFina Elf), são apenas dois, Nike e Adidas, os que dominam os calçados, um setor a priori menos exigente em capital investido1.

Concentração espetacular

Nos Estados Unidos, a legislação destinada a concentração está em vias de voar em estilhaços, sob a pressão dos lobbies da defesa, da informática e das telecomunicações

Nos Estados Unidos, o fenômeno da concentração é ainda mais espetacular porque a legislação destinada a coibir essa prática está em vias de voar em estilhaços, sob a pressão dos diversos lobbies da defesa, da informática e das telecomunicações. Vinte anos atrás, alguns milhares de operadoras dividiam o mercado da televisão a cabo, enquanto atualmente apenas três detêm 65% do total; em 1990, três editoras controlavam 35% do faturamento de livros didáticos, enquanto hoje essas mesmas três editoras abocanham 62% do mercado; em 1993, doze grandes empresas atendiam às necessidades fundamentais do exército norte-americano, enquanto agora são cinco; em 1996, oito grandes empresas de telefonia concorriam entre si, enquanto hoje são somente quatro2.

E não se poderia esquecer o custo que significam esses oligopólios para o “consumidor”, que aliás é sempre exaltado. Tomando por base a desregulamentação da televisão a cabo e sua “consolidação”, em 1996, as tarifas pagas pelo cliente aumentaram três vezes mais rapidamente que o índice da inflação. Quanto ao livro didático, aumentou 65% em dez anos, ou seja, cinco vezes mais que o índice de preços ao consumidor. O último Relatório Econômico apresentado ao presidente Bush, no entanto, concluía que são “poucas as provas” de que a concentração ocorrida durante as duas últimas décadas tenha “prejudicado a concorrência”. Concorrência em nome da qual se destroem os serviços públicos por toda parte.

Também aí, as coisas, no fundo, são bastante simples. (Trad.: Jô Amado)

1Boletim informativo do Observatório das Transnacionais, 18 de fevereiro de 2002. Veja o site http://www.transnationale.org 2 “Oligopolies Are on the Rise, As the Urge to Merge Grows”, The Wall Street Journal, Nova York, 25 de fevereiro de 2002.




Fórum

Leia os comentários sobre este texto / Comente você também

BIBLIOTECA LMD

» por tema
» por país
» por autor

BOLETIM


digite seu endereço internet e receba nosso boletim

Leia mais sobre

» Desigualdades Internacionais
» Teorias do Fim da História e da Impotência Social
» Globalização
» Intelectuais

Caderno Brasil

» Com Licença, sim?
» Crise mundial: as garantias de direitos sociais e o capitalismo
» Movimentos sociais conectados: o MST e o Exército Zapatista
» Salários invioláveis: uma questão de liberdade
» Palavra 57
» Ciência e democracia na Amazônia
» A máquina do Estado e as desigualdades cidadãs
» Mirar Battisti, acertar a multidão
» É de baque-solto
» O estuprador e o algoz
» Deusas do cotidiano
» Plano de duas feministas
» Marchinhas para um carnaval francês
» Europa brasileira 4
» Os economistas e a crise
» E por falar em saudade
» Palavra 56
» A grande oportunidade de Obama
» Ouvir o silencio
» Carta Capital e o país de Pinocchio
Mais textos


Blog da redação

» As condições da Raposa Serra do Sol
» Nazismo ao vivo e a cores
» Os insurretos do século 21: a I Insurreição Pirata
» Crise do software proprietário e o crescimento do Pinguim
» Apenas na velocidade dos dedos

Nesta edição

» Para aprender a conviver
» Do uso adequado do Tribunal Penal Internacional
» Fundos de pensão acentuam desigualdade
» O confisco da soberania popular
» A falsa testemunha do caso Rosemberg
» Paz agora
» O mercado da saúde e o roubo de cérebros
» Qual o sentido do voto?
» A experiência dos sindicatos investidores
» Um crime social quase perfeito
» A “ciência” como álibi
» O dever do mais forte
» Por trás de Sílvio Berlusconi, os novos condottieri
» O caos das ferrovias britânicas
» Por que fui ao Salão do Livro de Havana
» O Islã ao pé da letra
» O julgamento da História iugoslava
» Fiasco em Haia
» Vinte e cinco anos de conflito
» FMI: a Etiópia como prova
» A queda-de-braços do alumínio
» Uma viagem especial
» O cerco a Mayotte

Veja também

» Outras edições