Jornalismo Crítico | Equipe | Copyleft | Contato | Escreva | Edição Impressa | Assinaturas
Uma iniciativa


Já nas bancas



Desafios da economia solidária
Resenha | Comprar

Edições anteriores

Alternativas ao aquecimento global
Resenha | Comprar

Reflexões sobre o consumo responsável
Índice | Comprar

Caminhos para uma comunicação democrática
Índice | Comprar

A disputa pelo ouro azul
Índice | Comprar

maio 2002

imprima
LIVROS

Edward Said, arqueólogo de si mesmo

Em ’Out of Place’, autor mostra por que é, além de um grande erudito, rebelde e estrangeiro em qualquer parte

Gilles Perrault

Ninguém arriscaria prever que esse respeitado intelectual tentaria um dia nos seduzir com as lembranças de sua tia-avó Mélia e de sua avó Munira

Ele nasceu em Jerusalém em 1935. Chamaram-no Edward porque o príncipe de Gales, naquele ano, era a coqueluche das mulheres. Sobrenome: Said. Nunca ninguém lhe pôde explicar de onde vinha esse nome, que não era o de nenhum de seus avós. Nacionalidade? Norte-americana, já que seu pai, também nascido em Jerusalém, emigrou para os Estados Unidos em 1911, alistou-se em 1917 e voltou para a Palestina com passaporte norte-americano. Some-se a essas particularidades o fato de sua família pertencer de longa data à religião protestante. A família vivia no Cairo, onde o pai, gênio dos negócios, acumulou uma bela fortuna, de maneira que o jovem Edward (ele odeia seu nome), vestido com um uniforme de estudante inglês, freqüenta instituições inglesas em que professores ingleses, na atmosfera lúgubre do desmantelamento do Império, oferecem um ensino desprezível aos rebentos da burguesia egípcia cosmopolita, os quais também não se sentem parecidos em nada com a massa nativa.

Com 17 anos, com o futuro escolar já comprometido devido a uma atitude sistematicamente rebelde, Edward Said viajou para os Estados Unidos, onde faria um brilhante curso universitário em Princeton e em Harvard, e onde se instalaria definitivamente. Depois de 40 anos de vida em Nova York, ele escreve: "Continuo me sentindo longe de casa". Que fique claro que ele não se sente em casa em parte alguma: o estrangeiro absoluto.

Um "romance de formação"

Ele é um dos grandes espíritos do nosso tempo. Professor de Literatura Comparada na Universidade de Columbia, musicólogo renomado, ensaísta fecundo, seu pensamento e suas posições suscitam entusiasmo e escândalo. Ninguém arriscaria prever que esse respeitado intelectual tentaria um dia nos seduzir com as lembranças de sua tia-avó Mélia e de sua avó Munira. Para isso, foi necessária a revelação fulminante, em 1991, aos 56 anos, de que tinha uma leucemia linfática crônica, um câncer incurável. Fuga para o passado ou retomada das origens para melhor lutar contra a doença? Said decide desenterrar sua infância e juventude, sem nenhuma nostalgia, com a paixão de um arqueólogo atento, desvendando o passado. O título francês de seu livro - A contre-voie - descaracteriza um pouco o título original Out of place (embora a tradução seja excelente) 1 . Trata-se da história de uma pessoa que, sempre e em toda parte, se sentiu deslocada, fora das normas, um estrangeiro. Como não pensar, lendo-o, e apesar das evidentes diferenças entre o teórico e o prático, em um Henri Curiel, outro natural do Cairo que também foi, até sua morte, um estrangeiro?

Inesperado, o livro é tão apaixonante quanto tocante. Insere-se na tradição clássica do "romance de formação", dominado pelo relacionamento difícil com um pai, que no fundo, não era má pessoa, embora um pouco bruto, e o relacionamento apaixonado com uma mãe, carinhosa e manipuladora, sobre quem o autor escreve: "Ela foi certamente a amiga mais próxima e a mais íntima dos primeiros 25 anos da minha vida".

A tragédia vista por uma criança

Apaixonante e tocante, o livro insere-se na tradição do "romance de formação", dominado pelo relacionamento difícil, com o pai, e apaixonado, com a mãe

Said gastou muito tempo e força para se livrar da fôrma em que seus pais, e depois seus professores, o moldaram, e cujo símbolo, a seus olhos, era o seu detestável nome. Escrito com um humor tipicamente britânico (obrigado, Edward!), o livro dá, deliberadamente, as costas à política, já que o jovem Said não se interessava por ela. No entanto, ele a recupera por vias sutis. O drama palestino, por exemplo, que causava estranha indiferença aos pais de Edward, é evocado apenas pela tia Nahira, personagem extraordinária que, também residente no Cairo, desenvolveu, depois de 1948, a atividade sobre-humana de socorrer os refugiados palestinos abandonados numa miséria total. Percebida pela sensibilidade de uma criança que ignorava as causas e as conseqüências, a tragédia ganha mais força ainda.

Na busca de sua identidade profunda, Edward Said não procura atingir uma unidade fictícia, pois suas raízes geográficas e emocionais formam um emaranhado inextricável. Retomando, com ele, um percurso quase retilíneo, compreende-se melhor por que seu pensamento é muitas vezes considerado herético. Para alguns, a inteligência consiste em simplificar uma realidade espessa e espinhosa. Para Edward Said, ela consiste em lhe acrescentar sempre mais complexidade. Assim é esse livro, no qual sua personagem multiforme nos ajuda a tomar uma medida mais justa do complicado Oriente.
(Trad.: Denise Lotito)

1 - A Contre-voie, de Edward Said, ed. Serpent à plumes, Paris, 2002, 500 p., 21 euros (45 reais).




Fórum

Leia os comentários sobre este texto / Comente você também

BIBLIOTECA LMD

» por tema
» por país
» por autor

BOLETIM


digite seu endereço internet e receba nosso boletim

Leia mais sobre

» Literatura
» Intelectuais

Caderno Brasil

» Com Licença, sim?
» Crise mundial: as garantias de direitos sociais e o capitalismo
» Movimentos sociais conectados: o MST e o Exército Zapatista
» Salários invioláveis: uma questão de liberdade
» Palavra 57
» Ciência e democracia na Amazônia
» A máquina do Estado e as desigualdades cidadãs
» Mirar Battisti, acertar a multidão
» É de baque-solto
» O estuprador e o algoz
» Deusas do cotidiano
» Plano de duas feministas
» Marchinhas para um carnaval francês
» Europa brasileira 4
» Os economistas e a crise
» E por falar em saudade
» Palavra 56
» A grande oportunidade de Obama
» Ouvir o silencio
» Carta Capital e o país de Pinocchio
Mais textos


Blog da redação

» As condições da Raposa Serra do Sol
» Nazismo ao vivo e a cores
» Os insurretos do século 21: a I Insurreição Pirata
» Crise do software proprietário e o crescimento do Pinguim
» Apenas na velocidade dos dedos

Nesta edição

» A “sociedade civil” contra o povo
» A peste
» Metamorfoses políticas na Europa
» Contrastes do destino belga
» Avanço neofascista em Flandres
» A ofensiva de Washington em favor dos transgênicos
» Progressos bolivarianos
» As primeiras reações
» Jenin: um crime de guerra
» A erradicação do território
» Os preconceitos da Casa Branca
» Povos árabes em ebulição
» A luta pela terra
» Cresce a raiva contra os EUA
» América de tiranos e déspotas
» Um romancista excepcional
» Nos porões
» Balanço de um pontificado
» Os senhores das redes
» Informar, vender e controlar
» Um patrão à imagem de Deus
» E a água foi privatizada...
» A ascensão de Jean-Marie Messier
» Se você não tem nada a oferecer...
» O trabalho na “família” Vivendi
» Os dois "canais Plus"

Veja também

» Outras edições