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julho 2002

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FRANÇA

Um problema de “isolamento”...

Tempos atrás, o atual primeiro-ministro francês, Jean-Pierre Raffarin, deu uma lição de “socialismo” no social-democrata Lionel Jospin, que ocupava então o cargo: sua política social elitista estaria isolando seu governo das camadas populares...

Serge Halimi

Há quase três anos, Jean-Pierre Raffarin, um ilustre representante da região de Poitou-Charente e também vice-presidente de um pequeno partido ultra-liberal presidido por Alain Madelin, saiu de seu silêncio senatorial para atacar o governo de Lionel Jospin. Iria ele argumentar contra o excesso de impostos? O excesso de despesas sociais? O excesso de socialismo? Nada disso!

Precisamente o contrário: o que Raffarin pretendia infligir à esquerda – da qual é hoje o sucessor como primeiro-ministro – era uma autêntica lição de progresso: “Lionel Jospin isolou-se do povo. Para as camadas populares, os socialistas exercem o poder de forma muito gananciosa. (...) Os que se encontram hoje numa situação de pobreza não vêem qualquer esperança no discurso do governo. Os três milhões de pessoas que não pagam impostos e que vivem das migalhas sociais não se sentem representadas nas discussões fiscais. A fragilidade do governo decorre da inexistência de uma verdadeira política social. (...) Lionel Jospin tenta aproximar-se das classes médias distribuindo entre elas as sobras da arrecadação com que contavam os mais pobres1.”

Complexidades da economia...

As primeiras medidas de Raffarin consistem em aumentar o preço das consultas médicas e diminuir as alíquotas de contribuição do Imposto de Renda

E que prioridades anuncia, agora, a nova maioria para adotar essa “verdadeira política social”, para dar esperança aos “mais pobres” e parar de privilegiar as “classes médias”? A resposta é auto-explicativa: aumenta o preço das consultas médicas; o Imposto de Renda terá uma queda de 30% em cinco anos (mais de dois terços dessa redução irão beneficiar os 10% de contribuintes mais ricos), 5% dos quais entrarão em vigor a partir de setembro. As medidas se justificariam no sentido de evitar que algum craque do futebol francês, ou outros de nossos “talentos” criadores de empregos, fossem para o exterior, esmagados pela pressão fiscal.

Quanto às migalhas sociais, são atualmente consideradas excessivamente altas em relação ao salário mínimo: estariam incentivando os pobres a não procurarem trabalho. Seria, então, o caso de esperar por um aumento significativo do poder aquisitivo do salário-mínimo como forma de garantir que o trabalho compense? Isso seria muito simples; na verdade é o contrário. Salários muito altos incentivariam os empresários a não criar empregos...

E como a ciência econômica é definitivamente bastante complexa, Jean-Pierre Raffarin terá que se conformar em não atender às reivindicações das “camadas populares”.
(Trad.: Jô Amado)

1 - Libération, 3 de setembro de 1999.




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