Jornalismo Crítico | Equipe | Copyleft | Contato | Escreva | Edição Impressa | Assinaturas
Uma iniciativa


Já nas bancas



Desafios da economia solidária
Resenha | Comprar

Edições anteriores

Alternativas ao aquecimento global
Resenha | Comprar

Reflexões sobre o consumo responsável
Índice | Comprar

Caminhos para uma comunicação democrática
Índice | Comprar

A disputa pelo ouro azul
Índice | Comprar

agosto 2002

imprima
ÁFRICA

O artesão do futuro

Alfabetizado em música clássica por padres belgas em sua cidade de Kinshasa, Ray Lema ganhou o mundo: tocou nos Estados Unidos, França, Bulgária, Suécia... E voltou à África, onde, como explica, a música “é a arte de viver”

Chistian de Brie

Nomeado, em 1974, diretor musical do Balé Nacional do Zaire, percorreu o imenso país durante dois anos em busca da música tradicional – disseminada em mais de duzentas etnias

“A minha religião é a música.” Ainda muito novo, Ray Lema recebeu formação musical em canto gregoriano, órgão e piano no seminário belga de Kinshasa, no Zaire. Politeísta praticante, aprendeu a tocar Bach, Mozart, Haendel e Beethoven antes de deixar os padres e passar a freqüentar, com o violão a tiracolo, os bares e as boates da cidade, ouvindo músicos de toda a África. Jimmy Hendrix logo seria sua fonte de inspiração.

Nomeado, em 1974, diretor musical do Balé Nacional do Zaire, percorreu o imenso país durante dois anos em busca da música tradicional – disseminada em mais de duzentas etnias. Tratava-se de um novo olhar sobre a cultura e sua imensa riqueza, uma tentativa de reunir num mesmo espetáculo músicos de horizontes distintos. Sem muito espaço, Ray Lema aceitou um convite dos Estados Unidos, onde ficou por três anos. Descobriu o sintetizador e tocou em workshops com grupos de jazz, em Nova Orleans, Nova York e Washington.

... como um artesão do futuro

Seus temores são os de que o capitalismo triunfante imponha seus valores mercantis, a cultura padronizada, a música rentável e o sistema de estrelato

Na Europa desde 1983 – primeiro, chegou à Bélgica e depois à França, onde vive até hoje – Ray Lema multiplicou as experiências musicais. Enriquecidas por viagens: na Bulgária, com os balés nacionais; na Suécia, onde compôs e tocou “O Sonho da Gazela” com a orquestra de câmara de Sundvall; e na África, onde o encontramos, em Burkina Faso, durante uma tournée com os Tyour Gnaouas, de Essaouira, no Marrocos.

“Na África, a música não é uma arte paralela à vida; é a arte de viver. É de uma importância vital para quem não tem nada, mas não hesita em gastar os poucos trocados que ainda tem – não para comer, mas pela música, alimento principal.” Alto, com o corpo ágil, gestos amplos e olhos sorridentes, ou maliciosos, Ray Lema fala tranqüilamente de seus sonhos e de seus temores. Temores de que o capitalismo triunfante – prepotente e arrogante, considerando os africanos irracionais – imponha seu sistema de valores mercantis, sua cultura padronizada, seus artistas-objetos-de-luxo, sua música rentável e o sistema de estrelato (star system). E os sonhos são os de que um dia o progresso se conjugue mais com o verbo ser do que com o verbo ter: “O verbo ter não tem ritmo.”

Enquanto espera, Ray Lema planeja dedicar-se à imensa diversidade das músicas africanas, tradicionais e vivas – um potencial de riquezas ameaçadas – e tentar fazer uma síntese, avançando pouco a pouco, tateando, como um engenhoso artesão do futuro.
(Trad.: Jô Amado)




Fórum

Leia os comentários sobre este texto / Comente você também

BIBLIOTECA LMD

» por tema
» por país
» por autor

BOLETIM


digite seu endereço internet e receba nosso boletim

Leia mais sobre

» Quênia
» África
» Música

Caderno Brasil

» Com Licença, sim?
» Crise mundial: as garantias de direitos sociais e o capitalismo
» Movimentos sociais conectados: o MST e o Exército Zapatista
» Salários invioláveis: uma questão de liberdade
» Palavra 57
» Ciência e democracia na Amazônia
» A máquina do Estado e as desigualdades cidadãs
» Mirar Battisti, acertar a multidão
» É de baque-solto
» O estuprador e o algoz
» Deusas do cotidiano
» Plano de duas feministas
» Marchinhas para um carnaval francês
» Europa brasileira 4
» Os economistas e a crise
» E por falar em saudade
» Palavra 56
» A grande oportunidade de Obama
» Ouvir o silencio
» Carta Capital e o país de Pinocchio
Mais textos


Blog da redação

» As condições da Raposa Serra do Sol
» Nazismo ao vivo e a cores
» Os insurretos do século 21: a I Insurreição Pirata
» Crise do software proprietário e o crescimento do Pinguim
» Apenas na velocidade dos dedos

Nesta edição

» Salvar o planeta
» Em favor de Bové
» Salvemos os elefantes
» Como preservar as florestas?
» Economia louca e “matadores loucos”
» Um contra-poder à espreita?
» Em nome da pátria e do poder
» Delinqüência e mistificação
» A luta contra o apartheid sanitário
» Uma Constituição da vontade
» Prevenção e marketing
» Ser livre nas estradas da África
» A revolução pelo direito
» Por uma democracia absoluta!
» O que transmitir aos filhos?
» Em busca de identidade
» Os laboratórios da mentira
» Golpes Sem Fronteiras?
» Os corredores de desenvolvimento
» O que dizem os dinossauros?
» As atribulações de um camponês
» O fantástico boom indiano
» A miséria das velhas glórias
» A radicalidade de Pierre Bourdieu

Veja também

» Outras edições