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É possível que a palavra Esquipulas não tenha mais significado algum para a maioria dos que se interessam pelo presente ou pelo futuro da América Latina. Aldeia guatemalteca quase desconhecida, Esquipulas deu seu nome a um acordo regional que, assinado em 7 de agosto de 1987, é considerado, muitas vezes, como “o ponto de partida da democratização e da construção da paz na América Central”. Ao longo das páginas do livro que Maurice Lemoine1 acaba de publicar - Amérique Central. Les naufragés d’Esquipulas -, o leitor descobrirá que esse acordo, na prática, destinava-se apenas a pôr a Nicarágua na linha.
Nesses países do mundo pejorativamente chamados de “Repúblicas das Bananas” – mas, principalmente, vítimas de intermináveis ditaduras – a década de 80 foi, na realidade, marcada pela revolução sandinista na Nicarágua, pelo avanço impetuoso da Frente Farabundo Marti de Libertação Nacional (FMLN) em El Salvador e, em menor escala, pela União Revolucionária Nacional Guatemalteca (URNG), na Guatemala. O outro lado da moeda foi a intervenção direta dos Estados Unidos em seu “quintal”, uma contra-ofensiva estratégica à altura do desafio que enfrentavam. Por meio de uma crônica histórica e humana minuciosa, Maurice Lemoine mergulha o leitor no contexto real desse confronto, apresenta seus protagonistas e permite compreender tanto o papel de cada um deles quanto sua evolução posterior.
A evocação dos fatos evidencia a responsabilidade dos Estados Unidos, de seu exército mercenário incrustado em Honduras (os contra) e dos golpes mal-intencionados da CIA, não poupando (entre outros) nem o Vaticano nem a social-democracia. “Depois de uma fase de entusiasmo pela revolução sandinista”, lembra o autor, “a Internacional Socialista se distancia, usando como argumentos a radicalização do regime e a presença um tanto quanto ostensiva de seu aliado cubano. A guinada coincide com a mudança ideológica que leva [...] os socialistas europeus e latino-americanos ao compromisso com o pensamento neoliberal.”
Retomando os bastidores do “caso Noriega”, o livro fornece os dados-chave sobre a invasão do Panamá pelos Estados Unidos em 1989, conta a impressionante ofensiva dos rebeldes sobre San Salvador no mesmo ano, a trágica epopéia indígena das Comunidades de Populações em Resistência na Guatemala e muitos outros episódios dessa época conturbada. Passando da guerra ao pós-guerra (a parte trabalhada de modo mais detalhado), dos grandes dilemas teóricos e políticos à descrição da vida cotidiana, leva-nos a ex-combatentes (soldados e guerrilheiros) no campo, nos bairros populares e até no inferno das fábricas de sub-contratação (as maquiladoras). Permite também acompanhar a desastrosa evolução econômica e social do istmo centro-americano, assim como os passos em ziguezague dos dirigentes das antigas guerrilhas convertidas em partidos políticos. A história completa contada sem anestesia.
Enquanto se desenvolve uma nova etapa nas relações entre Washington e os países situados ao sul do rio Bravo – recente golpe de Estado fracassado contra o presidente Hugo Chávez na Venezuela, ingerência norte-americana cada vez mais evidente no conflito colombiano, desmoronamento da Argentina, espetacular aparição do dirigente camponês Evo Morales durante as últimas eleições na Bolívia etc. – seria particularmente oportuno voltar a esses momentos cruciais da história recente. Eles iluminam o presente com uma luz às vezes surpreendente.
(Trad.: Denise Lotito)
* Jornalista, Buenos Aires.
1 - Maurice Lemoine é editor-assistente de Le Monde diplomatique.
Referência Amérique centrale. Les naufragés d’Esquipulas, de Maurice Lemoine, ed. L’Atalante, Nantes, 2002, 810 páginas, 26 euros (80 reais).