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Se “as feridas da dignidade nunca cicatrizam”, aqueles que as causam esquecem-nas muito depressa, evidentemente se as tiverem notado. Ou no caso de não se ter feito tudo para que eles as desconheçam.
Du Bougnoule1 au sauvageon [Do negro ao selvagem], de René Naba, portanto, refresca a memória de forma útil: em 150 páginas, esse ex-jornalista da Agência France Presse e da RMC Oriente Médio traça um quadro impressionante da história colonial francesa. Uma história marcada por massacres: sem falar da codificação, única na Europa, da escravidão (o Código só foi abolido em 1848), o país dos direitos humanos reprimiu compulsivamente, da maneira mais sangrenta, os povos que reivindicavam a liberdade: fornos crematórios artesanais por ocasião da conquista da Argélia (milhares de argelinos “enfumaçados” em grutas, sob o comando do general Bugeaud), 45 mil mortos em Sétif (1945), 90 mil em Madagascar (1947), 60 mil combatentes pró-independência carbonizados nos Camarões (1960).
“Se fosse possível fazer uma comparação no plano da contabilidade mórbida”, diz René Naba, “o balanço francês justificaria plenamente um comparecimento diante da justiça internacional, e na escala dos derramamentos de sangue humano, os sangradores2 franceses deixariam bem atrás de si Augusto Pinochet (Chile), Jorge Videla (Argentina) ou Slobodan Milosevic”. E Osama bin Laden...
Massacres de ontem, repressão e humilhação contínua atualmente (cf. os vôos charter da vergonha de Charles Pasqua, o ataque com escavadeira contra uma residência com 300 malineses em Vitry, as batidas da polícia nas residências da Sonacotra): tal política só é possível, por muito tempo, com a concordância – ou com a indiferença – da maioria da população. Uma população completamente anestesiada e mistificada pela ideologia produzida pela colonização, que lhe serve de justificativa.
Historiador e doutor em Letras, Alain Ruscio apresenta um quadro extremamente rico em Le Credo de l’homme blanc (O Credo do homem branco). Um credo cujo postulado foi enunciado por Jean-Jacques Rousseau: “Estou persuadido de que não conhecemos outros homens a não ser os europeus”. Os outros, portanto, não são homens, ou melhor, são sub-homens, ou quase animais: têm cérebro mais leve do que o dos “civilizados” (Broca), “nariz achatado semelhante a rabos de aves”, mentalidade “pré-lógica” (Lévy-Bruhl) e vários defeitos: preguiça, violência, antropofagia...
Até os espíritos mais lúcidos são contaminados: os muçulmanos são “fanáticos” (Zola), o islã condena-os à “ignorância” (Chateaubriand) – mas, graças à França, escreve Arthur Rimbaud, a Argélia vai se tornar “próspera” e se civilizar. Esses “selvagens”, evidentemente, são desprovidos de qualquer sentido estético – não cantam, gritam; não dançam, contorcem-se... Há relativamente pouco tempo, em 1947, o diretor do Museu de Constantina declarou que a arquitetura árabe é de inspiração européia: seria na Espanha que teria nascido – Toledo não é a grande cidade do islã medieval? – e seria por imitação que se desenvolveu no Magrebe, que nunca teve, ao que parece, grandes pensadores, poetas, filósofos, matemáticos...
Os tempos mudaram, as ex-colônias tornaram-se países independentes? Ao que tudo indica. Na própria Europa, magrebinos e africanos distinguem-se como professores universitários, artistas, estilistas, médicos, e o Larousse já não define os árabes como uma “raça batalhadora, supersticiosa e malandra” (edição de 1948)... Ao que tudo indica também. Mas o apartheid – uma espécie de apartheid light – subsiste: os descendentes dos colonizados são mantidos, por exemplo, nos bastidores da mídia (quando se verá um francês de origem africana apresentar, na televisão, o noticiário das 20 horas?), e estão ausentes dos círculos de decisão política (nenhum deputado, nenhum senador é de origem africana). Será que é preciso se surpreender com o fato de as mentalidades não terem evoluído muito? Segundo o relatório da Comissão Nacional Consultiva dos Direitos Humanos (2000), 69% dos franceses declaram-se mais ou menos racistas e 63% consideram que há árabes demais.
(Trad.: Regina Salgado Campos)
1 - N.T.: Na origem, era como os brancos do Senegal chamavam os negros (bougnoule = negro, no dialeto local). Depois, ganhou uma conotação de injúria dirigida pelos europeus da África do Norte aos norte-africanos.
2 - N.T.: Há um trocadilho que se perdeu na tradução entre saigneur (de emprego pouco freqüente, justamente por causa da homonímia), que significa “o que tira o sangue”, “sangrador”, e seigneur, que significa “senhor”.