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novembro 2002

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LIVROS

Um homem contra

’O Contexto’ suscitou uma polêmica implacável quando foi publicado, pois Sciascia critica, em última instância, o realismo frio dos dirigentes do Partido Comunista Italiano, prontos para um “compromisso histórico” que exala o cheiro fétido do conchavo

Sergio Carrozzo

Quando, em novembro de 1989, a doença o obrigou a colocar um ponto final em sua obra, Leonardo Sciascia não podia imaginar a amplitude do sismo político que se preparava na Itália. Admirador de Manzoni e de Pirandello, de Voltaire e de Diderot – aliás, morou diversas vezes em Paris –, espírito esclarecido e livre, escritor erudito e universal, certamente não acreditava na existência de algum tipo de justiça perdurável que justificasse a posteriori o fim da Democracia Cristã (DC), partido que nunca se cansaria de atacar com veemência – assim como os conluios entre a Igreja e o Estado – quando encarnava o poder em toda sua perversão, aquele que corrompe e aliena.

A começar pela sua Sicília natal, aquela “metáfora da Itália” onde o professor – que se tornaria homem de letras – investe contra uma planta maléfica que, sorrateiramente, estende suas raízes sob a sociedade para melhor a contaminar. Na verdade, ainda muito cedo ele empreenderia uma corrida contra a morte, contra a Máfia. Porque quando encurralada, ela mata. Impunemente, além do mais.

Segredos do conhecimento de todos

O escritor nunca se cansou de criticar a Democracia Cristã quando esta encarnava o poder em toda sua perversão – aquele que corrompe e aliena

O professor Laurana conta a trágica experiência em A chacun son dû

Para desenvolver sua narrativa, Sciascia utiliza a intriga policial: uma “proteção” recorrente em seus escritos, reflexo de uma inteligência refinada – que revela também um suculento senso de ironia – permite-lhe aproximar-se melhor e desmascarar o inimigo: “O que chama principalmente a atenção é a maneira (...) elíptica pela qual ele conduz sua narrativa: as alusões, os incidentes e o não-dito dão a impressão de uma série de duelos de faz-de-conta, mas o fato é que conduzem (...) de maneira inexorável à condenação à morte de alguém, sob o pretexto de intervir em conflitos de interesse mantidos ocultos, ainda que conhecidos de todos (...). É, principalmente nas entrelinhas, que é diretamente questionado o poder político mantido e gerado por uma Democracia Cristã então dominante (...)”, lembra Mario Fusco que traduziu as Oeuvres complètes (Obras completas) de Sciascia.

A morte “na hora certa”

Ainda muito cedo, ele empreenderia uma corrida contra a morte, contra a Máfia. Porque quando encurralada, ela mata. Impunemente, além do mais

Um tema quase obsessivo atravessa as últimas linhas que o leitor encontra em Le contexte (O contexto): uma narrativa angustiante, sombria, premonitória, onde o inspetor Rogas investiga os assassinatos de magistrados – provavelmente imputáveis à Onorata società, mas não somente a ela. Representando uma citação apenas levemente dissimulada desse “governo da sombra”, inatingível – em que se cruzam agentes dos serviços secretos italianos e estrangeiros, assassinos da Cosa Nostra, membros de lojas maçônicas mutantes e dirigentes políticos delinqüentes –, que tenta fragmentar o sistema democrático, esse romance suscitou uma polêmica implacável quando foi publicado, pois nele o autor critica, em última instância, o realismo frio dos dirigentes do Partido Comunista Italiano (PCI), prontos para um “compromisso histórico” que exala o cheiro fétido do conchavo.

A questão da justificativa desta estratégia é retomada com o seqüestro de Aldo Moro pelas Brigadas Vermelhas (BR), em 1978. Sciascia critica acidamente a atitude da DC e do PCI. Por que aquela recusa de ambos em negociar com as BR, uma intransigência que sela o destino do líder democrata-cristão? A resposta se desenha no L’affaire Moro (O caso Moro), que se inicia com uma citação de Elias Canetti: “A frase mais monstruosa de todas; alguém morreu ‘na hora certa’.” As Obras Completas propõem, pela primeira vez em francês, o Rapport minoritaire (Relatório da minoria), apresentado pelo intelectual engajado após os trabalhos da Comissão de Investigação Parlamentar de que participou como deputado do Partido Radical.

Romancista, ensaísta, novelista, Sciascia também interveio nos problemas da sociedade através de artigos, inúmeros, que publicou nos principais jornais do país. Reunidos em seu livro póstumo En future mémoire (Memória futura), escreve, já cansado da luta: “Não sou infalível, mas acredito que tenha dito algumas verdades irrefutáveis (...). Tenho muitas coisas a me censurar e a lamentar, mas nada do lado da má fé, da vaidade ou de interesses pessoais.” Objetivos que, na Itália da “Forza Italia” e de Silvio Berlusconi não perderam nada de sua atualidade.

(Trad.: Celeste Marcondes)

Referência Oeuvres complètes, de Leonardo Sciascia, com prefácio e anotações de Mario Fusco, ed. Fayard, Paris, 2002, três volumes, 4.123 páginas, 177,50 euros (670 reais).




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