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fevereiro 2003

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LIVROS

Diante da barbárie: um sopro evangélico

O livro de um padre francês (Charles Antoine) recentemente falecido faz um impressionante levantamento do saldo da repressão na América Central durante as décadas de 60 à de 90: só na Guatemala, 200 mil mortos e um milhão de refugiados

Maurice Lemoine

Alguns dos depoimentos são insuportáveis. “Qualificar isso de bestial seria uma afronta aos animais”, resume, laconicamente, um salvadorenho

No início da década de 80, os camponeses e camponesas responsáveis pelas comunidades cristãs de suas aldeias passaram a enterrar suas bíblias. Se elas fossem encontradas em suas mãos, suas famílias corriam o risco de serem exterminadas. Não foi em país comunista algum que ocorreram essas cenas, mas na Guatemala. Na realidade, na América Central das décadas de 60 à de 90, foi no âmbito de um conflito travado em nome da “defesa da civilização ocidental e cristã” que tombaram muitos mártires, cristãos e não-cristãos. Seus carrascos: especialistas na luta anti-guerrilha formados nos campos de treinamento norte-americanos no Panamá ou esquadrões da morte surgidos de um elaborado sistema de colaboração clandestina entre militares e civis. O testemunho dos sobreviventes dessa repressão inimaginável é o cerne do último livro de Charles Antoine1, que faleceu, de repente, no dia 4 de agosto do ano passado.

Padre na diocese de Belfort após cinco anos que passou no Brasil, Charles Antoine fundou com José de Brouker, em 1967, a rádio Diffusion de l’information sur l’Amérique latine (Dial) que, ao longo do tempo, passou a ser conhecida como “a voz dos sem-voz” do subcontinente. Deve-se a ele um imenso trabalho sobre a situação da América Latina durante a guerra fria e o papel da Igreja – de seus representantes mais conservadores aos sedentos por justiça social que se reuniam em torno da “teologia da libertação”.

Uma “terapia da memória”

Alguns dos depoimentos que ele cita neste livro são insuportáveis. “Qualificar isso de bestial seria uma afronta aos animais”, resume, laconicamente, um salvadorenho. A título de exemplo, basta fazer um cálculo: o balanço da guerra civil na Guatemala resultou em 200 mil mortos e um milhão de refugiados (como o autor faz questão de fazer, para que se possa ter uma dimensão da tragédia, isso corresponderia, em termos proporcionais, a um milhão de mortos e cinco milhões de refugiados na França).

Dirigindo-se diretamente aos militares, o arcebispo Oscar Romero, de San Salvador, disse: “Em nome de Deus, eu lhes ordeno que parem de matar!”

Na perspectiva cristã, que é a sua, Antoine explica como o contexto histórico e cultural em que se inserem os conflitos por terra é idêntico àquele que existia quando da elaboração dos Salmos. “Quando trata da opressão, a palavra do profeta não reflete necessariamente a palavra do oprimido propriamente dito. Nos Salmos, entretanto, é realmente o oprimido que fala.” E é aí que intervêm os Salmos da vingança, “tão estranhos e difíceis de compreender que, às vezes, só falta censurar seus versículos mais agressivos”. Na verdade, eles constituem o último recurso do crente oprimido, esmagado, aniquilado por uma sociedade selvagem.

Por isso, é justamente de compaixão e de um sopro evangélico que este livro é composto, à imagem da última homilia (p. 60) pronunciada por monsenhor Oscar Romero, arcebispo de San Salvador, assassinado no dia 24 de março de 1980. Dirigindo-se diretamente aos militares, disse: “Em nome de Deus, eu lhes ordeno que parem de matar!” Recolher os depoimentos de sobreviventes faz(ia) parte, para Charles Antoine, de uma “terapia da memória” Ele nos deixou. Este livro lhe era particularmente gratificante. Pode ser simbolicamente considerado como seu testamento.

(Trad.: Jô Amado)

Referência La bête et la tourterelle. Martyrs du XXe siècle (“A besta e a rolinha. Mártires do século XX”), de Charles Antoine, ed. Cerf, Paris, 2002, 204 p., 22 euros (85 reais).

1 - La bête et la tourterelle. Martyrs du XX siècle (“A besta e a rolinha. Mártires do século XX”), de Charles Antoine, ed. Cerf, Paris, 2002, 204 p., 22 euros (85 reais).




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