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março 2003

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CINEMA

Percursos íntimos e políticos

Atento e simples, o documentário ’Serás comunista, meu filho!’, do francês Jean-Christophe Victor, convida as pessoas a refletirem sobre a transmissão de valores entre gerações e o combate que as pode unir

Philippe Lafosse

Às certezas dos pais, fiéis ao Partido Comunista, respondem as dúvidas dos filhos e seus atuais engajamentos, que podem até ser encarados como traição

O que é ser comunista hoje? Depois começar por acreditar, durante os primeiros minutos do documentário de Jean-Christophe Victor, que o filme estaria amarrado, como um todo, pela resposta a essa pergunta, logo se percebe que Serás comunista, meu filho!1 tem outra pretensão: entrecruzar três gerações movidas por um mesmo ideal - lutar por um futuro melhor - sem evitar a abordagem dos conflitos íntimos, quando estes explicam um encaminhamento particular, uma aproximação ou um distanciamento. Às certezas dos pais, marxistas inveterados e fiéis ao Partido Comunista desde a juventude, respondem as dúvidas dos filhos e seus atuais engajamentos - é o caso de Jean-Christophe Victor, ativista do Attac - que podem até ser encarados como traição: a filha, Nathalie, não votou recentemente em Daniel Cohn-Bendit?

Victor propõe um retrato sensível e modesto de seus pais – especialmente de seu pai – sem negligenciar sua mãe que, ainda que presente em menos cenas, ocupa, entretanto, um lugar essencial, a do elo tolerante. Algumas imagens rodadas em Super 8 durante as férias de verão da época - inevitavelmente em países ligados à União Soviética... - permite a todos confrontar-se com um tempo passado, com as esperanças, as desilusões, as cegueiras.

Resistência e dignidade

A força do filme reside no modo como o cineasta consegue contar uma história que, para além de sua especificidade, interessa e toca os espectadores

E a força desse filme reside, sem dúvida, no modo como o cineasta, consciente do elo entre política e intimidade, se aplica com pudor e sinceridade conseguindo, assim, contar uma história que, para além de sua especificidade, interessa e toca todo mundo. A tenacidade com que Jean-Chistophe Victor se opõe à palavra e ao julgamento de seu pai para vencer a tristeza da incompreensão tão disseminada entre pais e filhos é um exemplo explícito disso. Atento e simples, este documentário de cinqüenta e dois minutos – duração imbecil imposta pelas emissoras de televisão a qualquer que seja o assunto - convida as pessoas a refletirem sobre a transmissão de valores entre gerações e o combate que as pode unir. Os filhos e filhas de comunistas não são todos comunistas, mas para alguns permanece, a cada geração, o dever de resistência e uma vontade de lutar pela dignidade de todos, vontade que só é igualável ao orgulho recíproco que os mais velhos sentem pelos jovens e que, às vezes, acabam confessando. É claramente esse o caso da família Victor.

(Trad.: Teresa Van Acker)

1 - O filme foi projetado em 10 e 12 de março no Festival Cinema do real, Centro Georges Pompidou em Paris, e será transmitido pela France 3 Méditarranée e algumas semanas depois na France 3 Nationale.




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