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junho 2003

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LIVROS

O futuro incerto do comunismo

Em sucessivas eleições, o Partido Comunista Francês teve um desempenho abaixo de seus patamares históricos. Essa decadência aparentemente inexorável de seu potencial militante e de seu apelo político é questionada por três livros lançados recentemente

Jack Dion

Pesquisadores insistem nos trunfos comunistas: número de militantes sem equivalente em outras formações e uma implantação local que provoca ciúmes entre os Verdes e a extrema esquerda

Em sucessivas eleições, o Partido Comunista Francês (PCF) atingiu patamares historicamente baixos. Seu potencial militante não é mais o que era. Teria perdido toda a oportunidade de se recuperar? Ao contrário das opiniões correntes, os pesquisadores Marie-Claire Lavabre e François Platone1 insistem nos trunfos comunistas: um número de militantes certamente em baixa constante mas sem equivalente em outras formações políticas e com perfil em sintonia com a evolução do assalariado na sociedade francesa (ascensão dos funcionários e executivos, em detrimento dos operários tradicionais); uma implantação local que provoca ciúmes entre os Verdes e os da extrema esquerda. Os pesquisadores destacam igualmente a nova imagem do PCF na opinião pública depois da ruptura com o modelo soviético, desde o findar dos anos 70, que atingiu seu ponto máximo na “mutação” do último período. Resta saber se o PCF está à altura para investir em um espaço político que no momento lhe escapa.

Alguns acreditam nisso, como o historiador Roger Marteli, membro ativo do PCF, que escreve um livro com título iconoclasta: Le communisme est um bon parti, dites-lui oui2 (O comunismo é um bom partido. Diga sim, para ele.) Marteli é daqueles que refletem há muito tempo sobre o inexorável declínio do comunismo na ausência de uma renovação à altura do desafio. Aliás, ele consagra grande parte de sua obra a um enfoque histórico-político da questão, inseparável da crise do modelo tal como foi aplicado no Leste e como se expressou no cenário nacional. Ele aponta a especificidade própria do movimento operário francês, que nunca foi uma simples cópia do sistema soviético.

Um comunismo reconstruído

Martelli imagina uma revolução na revolução, passagem obrigatória para desenvolver um projeto novo para sua teoria, suas práticas, sua organização, seu simbolismo.

Esta lembrança permite ao autor ressaltar que o declínio do PCF vem de muito longe. Segundo ele, para resolver a crise estrutural seria necessário uma mudança completa para chegar ao que ele denomina “ um comunismo político da nova geração”. Martelli imagina uma revolução na revolução, passagem obrigatória para desenvolver um projeto novo para sua teoria, suas práticas, sua organização, seu simbolismo. Amplo programa, sedutor em seu enunciado, mas que necessitaria ser definido em seu conteúdo. Se ele é um daqueles que permanecem céticos sobre a atual evolução do PCF, Martelli não deixa de apostar em um “comunismo reconstruído”, definitivamente despido das ilusões do passado.

Um outro historiador, Alain Ruscio, conhecido por seus trabalhos sobre o colonialismo, confronta-se de uma forma mais pessoal à realidade do comunismo3. Ele foi membro do PCF. Não é mais, mas permanece visceralmente anti-capitalista. Ele relata sua trajetória pessoal, a de um homem que cruzou com espíritos generosos, a de um militante que se chocou com a lógica do aparelho partidário, a de um revoltado que conserva intactos suas iras da juventude. A sua maneira, original, o autor propõe um testemunho que interessará a todos aqueles que recusam ver no capitalismo o fim da História.

(Trad.: Celeste Marcondes)

1 - O que resta do PCF ? Revista Autrement, Paris, 2003, 142 páginas.
2 - O comunismo é um bom partido. Diga sim, para ele. La Dispute, Paris, 2003, 121 páginas.
3 - Nós e eu, grandeza e servidão comunista. Edição Tirésias.Paris, 2003, 300 páginas.




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