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junho 2003

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CINEMA

Olhares argentinos

Contemporânea à excelente safra de filmes de ficção argentinos, mostra de documentários revela o país espoliado pela crise e pelo modelo neoliberal que levou cerca de 50% de sua população, antes predominantemente de classe média, a viver abaixo da linha da pobreza

Carlos Pardo

As promessas eleitorais do futuro presidente Fernando de la Rúa não seriam cumpridas. Ao contrário, a repressão do exército faria várias vítimas antes de provocarem sua queda

Há cerca de dois anos, os filmes de ficção argentinos suscitam novamente o interesse dos curadores de festivais internacionais, das distribuidoras e do público de vários países. Apresentada na programação de Visões do Real1, uma série de documentários mostrou o retrato de um país espoliado pela crise, dividido entre o trabalho de memória e o "dever de modernidade". Um aspecto certamente menos palpável nas ficções, ademais notáveis.

El Puente (A Ponte) de Myriam Angueira, dá a palavra aos homens e mulheres da região de Corrientes, no norte do país, cuja revolta, no fim de 1999, esteve na origem das grandes manifestações nacionais. Salários não pagos, falta de cobertura social, agricultores desempregados... assim que os professores primários entraram em greve, um caso de consciência lhes era imposto: a escola estando fechada, as crianças pobres perdiam a única refeição garantida do dia. As promessas eleitorais do futuro presidente Fernando de la Rúa não seriam cumpridas. Ao contrário, a repressão do exército faria várias vítimas antes de provocarem sua queda e a repulsa de todo um povo por seus dirigentes.

A Argentina é um país em que cerca de 50% da população vive atualmente sob a linha de pobreza. Na região do Chaco, Alejandro Fernandez Moujan encontrou os antigos operários da companhia açucareira de las Palmas, filmados 10 anos antes do fechamento da fábrica. Alguns deles, de origem ameríndia, vivem no local há gerações. Las Palmas, Chaco descreve magnificamente a desolação que hoje reina por lá. Uma vez por mês, estas famílias recebem uma humilhante ajuda alimentar do Estado. E a cada mês, a lista "apaga" alguns nomes. Perdendo seu trabalho – e seu estado de servidão – estes homens não são hoje mais do que sombras que os novos proprietários das terras tentam caçar por todos os meios. O engajamento do cineasta faz deste filme um formidável ato de resistência às devastações de um "modelo" à deriva.

A militância alegre dos H.I.J.O.S

O filme HIJOS, el alma en dos se concentra sobre a impunidade generalizada da classe política e lembra que não se pode construir um país apagando a parte obscura de sua História

Os homens e mulheres filmados por Carlos Alejandro Echevarría em Los Chicos y la calle recusam-se a abdicar. Empregados pela associação Caina, eles trabalham junto às crianças de rua de Buenos Aires, cada vez mais numerosas. Pequenos seres humanos cuja própria identidade, para alguns deles, não é mais conhecida, por estarem separados de suas famílias há tempo demais, com o espírito apodrecido pela absorção de todo tipo de drogas. Consciente de seus limites, a associação pretende efetuar um tipo de acompanhamento paliativo, alternativo à repressão policial, mas que em nenhum caso poderia substituir uma política governamental inexistente.

H.I.J.O.S. é a sigla de uma outra associação, fundada pelos filhos das vítimas da ditadura militar dos anos 70. Carmen Guarini e Marcelo Cespedes lhe consagram HIJOS, el alma en dos. Entre ativismo radical e confissões íntimas, estes jovens contam suas infâncias, os desaparecimentos, as crianças roubadas pelos torturadores, o exílio, o retorno ao país e a recusa em perdoar e esquecer. Sua militância alegre parece encontrar um eco no conjunto da população. Ela se concentra sobre a impunidade generalizada da classe política e lembra que não se pode construir um país apagando a parte obscura de sua História.

(Trad.: Fabio de Castro)

1 - Visões do Real aconteceu em Nyon (Suisse) de 28 de abril a 4 de maio de 2003.




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