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agosto 2003

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MÍDIA

“Quatro vezes o imposto federal”

Numa matéria de 1905, que fez muito barulho, Ray Stannard Baker denuncia as práticas das companhias ferroviárias, exemplo do que foi o jornalismo “muckraking» que mudou a face dos Estados Unidos naquela época

Serge Halimi

Na América, cada cidadão paga em média sete dólares por ano para bancar as despesas do governo federal. A taxa ferroviária custa 26 dólares para cada homem, mulher e criança

As companhias ferroviárias determinam mais a sorte do povo do que o governo dos Estados Unidos. (...) Uma tarifa de frete é um imposto incidindo sobre cada bocado que comemos, sobre cada roupa que usamos, sobre cada tábua de nossa casa, sobre cada pá de carvão que queimamos. Nenhum imposto é universal a este ponto, nem tão pesado. Na América, cada cidadão paga em média sete dólares por ano para bancar as despesas do governo federal, o que cobre ao mesmo tempo o exército, a marinha, o déficit do correio, a construção do canal do Panamá e tudo o que garante o funcionamento da maquinaria administrativa: presidente, Congresso e Suprema Corte. Por sua vez, a taxa ferroviária custa 26 dólares por ano a cada homem, mulher e criança – quatro vezes o imposto federal. Os presidentes das empresas ferroviárias e os membros de seus conselhos administrativos são de fato os cobradores de impostos do povo. Pois as estradas de ferro não são, nunca foram, uma propriedade privada no mesmo sentido que uma fazenda ou uma quitanda. Elas são estradas. (...) O barão do trilho não cobra o imposto de uma maneira igualitária. Ele faz seus amigos pagarem pouco – os Rockefeller, os Armour, e outros como eles – e impõem tarifas particularmente pesadas ao camponês, ao pequeno industrial, à massa desorganizada dos produtores e consumidores. O barão do trilho utiliza então seu enorme poder para praticar a extorsão. (...) Este sistema discriminatório permitiu aos homens que dominam o truste do gado de Chicago aproveitarem descontos e favores que lhes eram consentidos para jogar na falência as pequenas empresas de embalagem de carne, antigamente prósperas, para concentrar o conjunto do setor nos grandes abatedouros urbanos insalubres. E foi remunerando mal os pequenos criadores, enquanto faziam os consumidores pagarem mais caro, que eles constituíram suas gigantescas fortunas.

(“Railroad rebates”, McClure, dezembro de 1905. In Judith and William Serrin, Muckraking: The Journalism That Changed America, New Press, Nova York, 2002).

(Trad.: Fabio de Castro)




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