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A maioria das obras sobre a globalização discute sua dimensão econômica. No entanto, ela constitui um fato social completo, implicando cultura, idealidade e subjetividade. Três livros recentes abordam esta dimensão.
O primeiro é o de Constantin von Barloewen: Antropologia da globalização1 . Ele parte de uma constatação: a “razão físico-matemática das ciências naturais e da economia, com sua tecnologia, não coincide mais com a razão cultural, que se expressa na arte e nas ciências humanas”. Tanto que esta última é agora submetida ao poder sem limites do mercado mundial, centralizando os bens em mãos cada vez menos numerosas. Daí, um nivelamento mundial das tradições culturais e religiosas. O que é preciso conseguir, segundo Barloewen, é uma passagem do logos (racionalidade fria) ao holos (nova espiritualidade). A cultura ocidental, globalizada, é dominada por tecnologias que entram em contradição com as ciências da reflexão e que desenvolvem uma percepção monista do mundo. O messianismo que daí resulta se torna uma verdadeira empreitada religiosa. Os Estados Unidos representam seu modelo-padrão.
Já é tempo de realizar uma coexistência das culturas, uma ordem pluralista do mundo, uma diversidade reconciliada das culturas e das religiões. Respondendo à busca do metafísico no interior da qual o ser humano se define como intrinsecamente humano, as religiões permitem, assim como as filosofias, conceitualizar a estrutura subjacente da realidade e suas conseqüências sobre nossas vidas. Segundo o autor, “a cultura é o poder determinante do nosso tempo”. Sua visão põe o dedo, com bastante precisão e uma notável erudição, sobre uma dimensão essencial da globalização, mas numa perspectiva que é, às vezes, difícil de separar do culturalismo.
O segundo livro, organizado por Bernard Founou-Tchuigoua, Sams Din Sy e Amady A. Dieng, intitulado Pensamento social crítico para o século XXI2 , constitui uma homenagem à obra de Samir Amin. A principal contribuição, de Hakim Ben Hammouda, “Reencantar o desenvolvimento”, destaca a importância da crise da modernidade e da necessidade de uma nova utopia. Baseando-se no livro O Eurocentrismo, de Samir Amin, ele lembra as lições de Averróes (metafísico islâmico) e mostra que a modernidade ocidental foi um processo contínuo de redução da alteridade. A ciência se tornou uma nova divindade, que prometeu levar a humanidade à felicidade e produz, na realidade, uma modernidade desencantada. O desafio é reconciliar consciência de si e intersubjetividade, a fim de superar a visão atomista do mundo, fruto do pensamento liberal.
A terceira obra é a de Francine Mestrum, Globalização e pobreza3. A autora mostra como o discurso do Banco Mundial e do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) sobre a pobreza é uma construção ideológica que responde às necessidades políticas dos ricos. Trata-se de uma expressão típica da globalização contemporânea, que permite legitimar a economia capitalista adotando um tom de compaixão e fazendo esquecer que é a lógica do sistema que mantém e aprofunda a pobreza. Num capítulo específico, Francine Mestrum discute a dimensão cultural dos movimentos sociais, abordando, entre outros temas, a diversidade cultural na invenção do futuro, o protesto religioso e suas dimensões éticas e a contribuição das teologias da libertação4.
A entrada em cena da cultura no palco dos economistas é um fenômeno feliz, pois permite uma análise antropológica mais completa do fenômeno da globalização. Responde também às exigências da grande corrente anti-globalização. Reencontrar a utopia, definir os objetivos, motivar para a ação, redesenhar uma ética, expressar por símbolos, tudo isto está no coração das lutas sociais contra a globalização do capital, portadora de uma redução mercantil de todas as relações sociais.
(Trad.: Fabio de Castro)
1 - Edition des Syrtes, Paris, 2003, 210 páginas, 25 euros (85 reais).
2 - Editora L’Harmattan, Paris, 2003, 528 páginas, 41 euros (140 reais).
3 - Editora L’Harmattan, 2002, 386 páginas, 23 euros (80 reais).
4 - Ler Mondialisation des résistances - Etat des luttes 2002, ed. L’Harmattan, 2002.