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janeiro 2004

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TRIBUNA LIVRE

“Abrir uma brecha”

Dario Fo, Constantin Costa Gavras, José Luís Sampedro , José Saramago

“Onde estão hoje os Bertrand Russell que ousavam, ao lado de Einstein, lançar um apelo ao desarmamento em plena guerra fria? Os Bertrand Russell que, onze anos depois, protestavam contra os abusos norte-americanos no Vietnã, criando um Tribunal Internacional contra os crimes de guerra?

Quem ainda se lembra, de cor, das últimas palavras de seu discurso: ‘que possa este tribunal evitar o crime do silêncio’?

Onde estão hoje as mulheres que, por meio do Manifesto das 343, ousaram infringir publicamente a lei, declarando que haviam praticado o aborto como meio de exigir o livre acesso aos anticoncepcionais e a interrupção voluntária da gravidez?

Onde estão os Stephan Zweig e os Heinrich Böll contemporâneos provocando o poder alto e em bom som? Teriam secado de vez os oásis dos Ivan Illich?

Onde estão os Henri Curiel, recusando-se a sair do Egito para fazer frente ao Afrikakorps de Rommel? Os Henri Curiel anticolonialistas, detidos dezoito meses na prisão de Fresnes por apoiarem a Frente de Libertação Nacional argelina?

Onde estão os Gandhi, pagando com a própria vida para acelerar a queda do império britânico nas Índias?

Onde estão os 121 que justificaram seus atos de insubordinação e de ajuda aos insurrectos, declarando que ‘uma vez mais, fora de qualquer contexto e das palavras de ordem estabelecidas, nasceu uma resistência, através de uma tomada de consciência espontânea, procurando e inventado formas de ação e meios de luta para com uma nova situação, da qual os partidos políticos e os grandes jornais – seja por inércia ou por timidez doutrinária, seja por preconceitos nacionalistas ou morais – insistem em não reconhecer o sentido e as exigências concretas’?

Onde estão hoje os Albert Londres, perfurando com a caneta as feridas dos campos de detenção na Guiana ou os Bat’ d’Af’, denunciando, ainda na década de 1920, os equívocos da jovem URSS, conseguindo modificar a legislação referente ao asilo político e ousando se afastar, corretamente, dos meios coloniais franceses?

Onde estão os pensadores da estatura de Foucault, revolucionando radicalmente a maneira de compreender a loucura, a prisão, a sexualidade? Onde estão Os Bourdieu, regenerando a Sociologia e defendendo, simultânea e obstinadamente, o papel social do intelectual crítico? Onde estão as Hannah Arendt, os Cornelius Castoriadis, os Antonio Machado e os Federico García Lorca?

Uma redoma de malva parece ter envolvido os espíritos. A uniformização do discurso só tem de igual seu simplismo – quando compreender o mundo em sua complexidade, suas nuanças e suas contradições é a essência da emancipação humana.

Algumas mulheres e alguns homens continuam, entretanto, se entregando diariamente ao combate, lutando palmo a palmo, trabalhando de maneira incansável para abrir uma brecha no pensamento dominante. Ao fazê-lo, perpetuam, com coragem, o papel de contra-poder do intelectual crítico.

Foi para lhes trazer nosso apoio, para aumentar sua visibilidade e combater a atual apatia intelectual que a Associação dos Amigos do Monde diplomatique1 criou o Prêmio dos Amigos do Monde diplomatique – contra o pensamento único. Foi nesse espírito que nos tornamos os padrinhos.”

(Trad.: Jô Amado)

1 - A Associação dos Amigos do Monde diplomatique organiza anualmente, na França e no exterior, mais de 600 conferências-debates, preenchendo, dessa forma, um papel intelectual importante para a difusão de idéias. Fundada em 1995, a Associação tornou-se, no ano 2000, o principal acionista do Monde diplomatique depois da empresa Le Monde SA. Os profissionais da redação do jornal e a Associação detêm, atualmente, 49% do capital da sociedade.




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