Jornalismo Crítico | Equipe | Copyleft | Contato | Escreva | Edição Impressa | Assinaturas
Uma iniciativa


Já nas bancas



Desafios da economia solidária
Resenha | Comprar

Edições anteriores

Alternativas ao aquecimento global
Resenha | Comprar

Reflexões sobre o consumo responsável
Índice | Comprar

Caminhos para uma comunicação democrática
Índice | Comprar

A disputa pelo ouro azul
Índice | Comprar

agosto 2004

imprima
ALTERGLOBALIZAÇÃO

Elogio ao senso comum

A luta pela democracia no mundo não deveria se iniciar pela democratização dos organismos que se chamam internacionais? O que opina o senso comum? Não está previsto que opine. O senso comum não tem voto nem tem voz

Eduardo Galeano

A economia dos EUA está voltando a despontar e voltou a crescer num bom ritmo. Sem os gastos de guerra, segundo especialistas, cresceria muito menos

Nosso mundo doente de desamparo e abandono, sofre com uma outra infecção bem cruel: a falta de grandes espaços abertos ao diálogo e ao trabalho compartilhado. Onde encontrar um espaço de reunião no qual o encontro e a troca sejam ainda possíveis? Não poderíamos começar a buscá-lo no senso comum? Este bom senso cada vez mais precioso e raro?

Peguemos, por exemplo, os gastos militares. O mundo está destinando 2,2 bilhões de dólares por dia na produção de morte. Ou seja: o mundo consagra essa astronômica fortuna para promover caças onde o caçador e as presas são da mesma espécie, e onde o maior êxito é para quem mata os mais próximos. Nove dias de gastos militares seriam suficientes para dar comida, escola e remédios a todos os meninos que não têm. À primeira vista isto é uma traição para o senso comum. E na segunda versão? Esta, que é a versão oficial, justifica esta dissipação por causa da guerra contra o terrorismo. Porém o senso comum nos diz que o terrorismo é quem mais ganha. E está claro que as guerras no Afeganistão e no Iraque lhes têm presenteado com suas mais poderosas vitaminas. As guerras são atos de terrorismo de Estado e o terrorismo de Estado e o terrorismo privado se alimentam mutuamente.

Atualmente, foram divulgadas as cifras: a economia dos Estados Unidos está voltando a despontar e voltou a crescer num bom ritmo. Sem os gastos de guerra, segundo especialistas, cresceria muito menos. Ou seja: a guerra do Iraque continua sendo uma boa notícia para a economia. E para os mortos?O senso comum fala através das estatísticas econômicas? Ou se expressa pela voz desse pai sofrido, Julio Anguita, quando diz: “Maldita seja esta guerra e todas as guerras”?1

Os “desaparecidos da democracia”

Os cinco países que mais fabricam e vendem armas são os que gozam do direito de veto no Conselho de Segurança das Nações Unidas

Os cinco países que mais fabricam e vendem armas são os que gozam do direito de veto no Conselho de Segurança das Nações Unidas. Não contradiz o senso comum que os defensores da paz mundial sejam os que fazem o negócio da guerra? Na hora da verdade são esses cinco países que mandam. Também são cinco os países que mandam no Fundo Monetário Internacional. Oito tomam as decisões no Banco Mundial. Na Organização Mundial do Comércio está previsto o direito de voto porém nunca é usado. A luta pela democracia no mundo não deveria se iniciar pela democratização dos organismos que se chamam internacionais? O que opina o senso comum? Não está previsto que opine. O senso comum não tem voto nem tem voz.

Muitas das mais ferozes extorsões e dos crimes mais atrozes de que o mundo padece são levadas à prática através desses organismos que dizem ser internacionais. Suas vítimas são os “desaparecidos”: não os que se perderam na névoa de horror das ditaduras militares, e sim “os desaparecidos da democracia”. Nos últimos anos, no Uruguai, meu país e na América Latina e em outras regiões do mundo tem desaparecido os empregos, os salários, as aposentadorias, as fábricas, as terras, os rios e até nossos filhos que retrocedem ao caminho de seus avós, obrigados a emigrar em busca do que desapareceu.

O senso comum obriga a aceitar estas dores evitáveis? Aceitá-los, cruzar os braços, como se fossem as inevitáveis obras do tempo ou da morte?

O ponto de vista do domado

Também são cinco os países que mandam no Fundo Monetário Internacional. E oito tomam as decisões no Banco Mundial

Aceitação, resignação? Reconheçamos que, pouco a pouco, o mundo vai se tornando menos injusto. Para exemplificar, citemos que já não é tão abismal a diferença entre o salário masculino e o feminino. Pouco a pouco, afirmo: no ritmo atual haverá igualdade de salários entre homens e mulheres dentro de 475 anos. O que aconselha o senso comum? Esperar? Não conheço nenhuma mulher que viva tanto.

A verdadeira educação, a que tem origem no senso comum e que conduz ao senso comum , nos ensina a lutar pela recuperação de tudo que nos foi usurpado. O bispo catalão Pedro Casaldáliga2 tem muitos anos de experiência na selva brasileira. E ele diz que é verdade que é mais importante ensinar a pescar do que dar peixes de presente. Porém, adverte que não vale nada ensinar a pescar se os rios tiverem sido envenenados ou vendidos.

Para que os ursos bailem nos circos, o domador os amestra: ao ritmo da música golpeia-os nos quadris com um pau eriçado de espinhos. Se dançarem como devem, o domador para de golpeá-los e lhes dá comida. Se não, continua o tormento e a noite devolve-os às jaulas sem nada para comer. Por medo ao castigo, à fome os ursos dançam . Do ponto de vista do domador isto é puro senso comum. Mas, …e do ponto de vista do domado?

O senso dos patos

Muitas das mais ferozes extorsões e dos crimes mais atrozes de que o mundo padece são levadas à prática através desses organismos “internacionais”

Setembro de 2001, Nova Iorque. Quando o avião investiu sobre a segunda torre e a torre rangeu, as pessoas fugiram voando pelas escadas abaixo. Foi aí que os alto-falantes mandaram os empregados voltassem aos seus postos de trabalho. Quem foram os que atuaram de acordo com o senso comum? Salvaram-se os que não obedeceram ao senso comum.

Para nos salvarmos, juntemo-nos. Como os dedos da mão. Como os patos em vôo.Tecnologia do vôo compartido: o primeiro pato que levanta vôo abre passo ao segundo, que libera o caminho ao terceiro e a energia do terceiro levanta vôo ao quarto, que ajuda o quinto e o impulso do quinto empurra o sexto que dá força ao sétimo…

Quando o primeiro pato se cansa, volta à cauda do bando e deixa seu lugar para outro, que sobe ao vértice deste V invertido que os patos desenham no ar. Todos vão se alternando, atrás e na frente. Segundo meu amigo Juan Díaz Bordenave3 que não é patólogo mas conhece patos, nenhum pato se crê um superpato para voar na frente, nem subpato para marchar atrás. Os patos não perderam o senso comum.

(Trad.: Celeste Marcondes)

1 - Julio Anginita, político espanhol, dirigente histórico da Izquierda Unida, cujo filho, Julio Anguita Parrado, jornalista e correspondente do jornal madrilenho El Mundo, que acompanhava o Terceiro Batalhão norte-americano durante a invasão no Iraque, foi morto por um míssil iraquiano no sul de Bagdá no dia 7 de abril de 2003.
2 - Bispo de São Félix do Araguaia há mais de 30 anos e fundador da Comissão Pastoral da Terra (CPT). Em 1992, seu nome foi indicado para o Prêmio Nobel da Paz
3 - Ensaista paraguaio, especialista em comunicação, autor, entre outros, de Comunicacion y Sociedad, Busqueda, Buenos Aires, 1985.




Fórum

Leia os comentários sobre este texto / Comente você também

BIBLIOTECA LMD

» por tema
» por país
» por autor

BOLETIM


digite seu endereço internet e receba nosso boletim

Leia mais sobre

» Crise da Democracia Representativa
» Reforma da ONU
» Reinvenção da Democracia

Caderno Brasil

» Com Licença, sim?
» Crise mundial: as garantias de direitos sociais e o capitalismo
» Movimentos sociais conectados: o MST e o Exército Zapatista
» Salários invioláveis: uma questão de liberdade
» Palavra 57
» Ciência e democracia na Amazônia
» A máquina do Estado e as desigualdades cidadãs
» Mirar Battisti, acertar a multidão
» É de baque-solto
» O estuprador e o algoz
» Deusas do cotidiano
» Plano de duas feministas
» Marchinhas para um carnaval francês
» Europa brasileira 4
» Os economistas e a crise
» E por falar em saudade
» Palavra 56
» A grande oportunidade de Obama
» Ouvir o silencio
» Carta Capital e o país de Pinocchio
Mais textos


Blog da redação

» As condições da Raposa Serra do Sol
» Nazismo ao vivo e a cores
» Os insurretos do século 21: a I Insurreição Pirata
» Crise do software proprietário e o crescimento do Pinguim
» Apenas na velocidade dos dedos

Nesta edição

» China, a megapotência
» O que é, afinal, a democracia? 1
»
Quem tem medo do Big Brother?
» Esporte é guerra
» Os guerrilheiros da causa animal
» Os alemães se rendem à “ostalgia”
» A moda e o mercado
» Guerra contra os pobres
» Prisões da morte
» A África redescoberta
» O genocídio no tempo de Gêngis Khan
» Na terra da estepe cinzenta
» O cinema como religião
» A língua árabe, o Rolls Royce e o Volkswagen
» Crimes e redenção no Brasil de Lula

Veja também

» Outras edições