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dezembro 2004

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IDEOLOGIA

E Deus criou a globalização

Recusar o mundo tal como ele é demanda, antes de mais nada, compreender até que ponto o conceito de globalização é ideológico, ver que esse processo nada tem de fatal, que é apenas fruto de opção e de interesses humanos

André Bellon

Lutar contra o universo de injustiça e de opressão, que se chama globalização, deve começar pela rejeição das novas verdades reveladas, pela revitalização do espírito crítico, pelo uso da razão

“A palavra heresia... envolve uma escolha (haereo em grego significa escolher). O homem pode desviar da retidão da fé cristã de duas maneiras: por um lado, porque não quer aderir a Cristo; por outro, porque não escolhe o que foi verdadeiramente transmitido, mas o que seu próprio espírito lhe sugere. A heresia é uma espécie de infidelidade” 1. Há oito séculos, São Tomás de Aquino definiu assim a recta ratio, o pensamento “justo”, conforme o dogma, aquele que fornece a verdade e a legítima ordem existente; ele agrupava o espírito crítico e simplemente a razão humana na bagagem dos hereges.

As declarações sobre a construção européia permitem descobrir suas heranças; eles não analisam, eles impõem, eles lançam anátemas: assim, toda pessoa que rejeita o projeto de Constituição seria, para Michel Rocard “desonesta” 2, para Daniel Cohn Bendit “organizador de complô” 3. Tentam assim impedir qualquer reflexão sobre o sentido da União Européia, particularmente, sobre suas relações com a globalização liberal.

Lutar contra o universo de injustiça e de opressão, que se chama globalização, deve começar pela rejeição das novas verdades reveladas, pela revitalização do espírito crítico, pelo uso da razão individual. Trata-se de um combate em que não se pode, como dizia Bossuet, “afligir-se com as conseqüências, acomodando-se ao mesmo tempo com as causas”. Recusar o mundo tal como ele é, demanda, antes de mais nada, compreender até que ponto o conceito de globalização é ideológico, ver que ela nada tem de fatal, que é fruto de opção e de interesses humanos.

As cores de nossa ilusões

Uma ideologia, qualquer que seja ela, apresenta-se como o real; uma ideologia que ganhou se impõe à grande maioria das pessoas como uma evidência

Uma ideologia, qualquer que seja ela, apresenta-se como o real; uma ideologia que ganhou se impõe à grande maioria das pessoas como uma evidência. Isso é ainda mais exato quando se pensa na globalização porque o combate contra o conceito é apresentado como arcaico e perdido por antecipação. Conseqüentemente, assim como os adoráveis “beijinhos” que, na televisão, constroem um mundo de amor e de felicidade, é possível pensar que se pode pintar a globalização com as cores de nossas ilusões. A questão não é nova na história. As grandes construções dogmáticas permitem sempre, em sua fase de emergência, diferentes interpretações – que ainda não são qualificadas de heresias –, quando essas legitimam os conceitos fundamentais prestes a se impor. Mas, em seguida, as disputas de poder cortam muito rapidamente as questões suspensas e acabam com as ilusões e ao mesmo tempo com os desvios.

A globalização não é fatal. Foram seus próprios turiferários que a batizaram de mundialização ou globalização e a impuseram, principalmente à esquerda, servindo-se dessa velha aspiração humana à cidadania mundial. Foram os jornais conformistas que matracaram a idéia de que ela era inevitável. Foram os pseudofilósofos da modernidade que legitimaram seu caráter pretensamente positivo4.

A globalização é geralmente apresentada como a conseqüência natural da evolução tecnológica e da finitude do mundo. Trata-se de esquecer que, no curso da história humana, outras revoluções tecnológicas, outras descobertas dos limites de nosso espaço não levaram a uma visão dogmática do futuro. Muito pelo contrário, o extraordinário acontecimento que se denominou Renascença conjugou uma revolução científica considerável, uma corrente de trocas internacionais impressionante e a emergência de uma filosofia da razão, do espírito crítico e da liberdade individual. Lembremos que esse acontecimento foi a conseqüência de um choque, choque sempre presente no Ocidente, entre a cultura judaica cristã e a cultura greco-romana, tendo o século das Luzes sido apenas um instante desse choque.

Pela antiglobalização

O internacionalismo, ao contrário da globalização, mesmo de uma outra, é um instrumento de coesão entre nações democráticas e continua a ser uma ferramenta pertinente da luta social

Hoje, a crítica da razão humana por filosofias ditas pós-modernas, o abandono da vontade política pela redescoberta de pretensas fatalidades, tudo se conjuga para deixar o tempo livre para as forças dominantes, principalmente o dinheiro e o mercado; a globalização neoliberal que pretende ser a expressão de um novo interesse geral, sem dúvida, da humanidade, na verdade é apenas o resultado das relações de forças mais brutais.

Querer um outro mundo, uma outra relação de forças sociais é, portanto, um combate necessário, mas não obrigatoriamente na perspectiva de uma outra globalização; por isso a evolução semântica que levou a substituir o termo antiglobalização por alterglobalização não é anódina. A crítica de uma globalidade deve desembocar em outra globalidade, geradora de alienações?

É preciso promover a antiglobalização e ignorar as acusações infundadas de recuo ou de fronteiras arcaicas. Pois o internacionalismo, ao contrário da globalização, mesmo de uma outra, é um instrumento de coesão entre nações democráticas e continua a ser uma ferramenta pertinente da luta social. E o verdadeiro arcaísmo está nessas visões globalizadas que rejeitam os humanos, seus combates e seus direitos no “grande corpo compacto que indiferencia os indivíduos, que os une, que, teoricamente, sacrifica alguns para o bem da maioria!” 5

Crítica a Negri e Hard

Negri e Hardt não consideram a realidade contraditória que representa um povo. Ao identificar o Estado com uma simples máquina repressiva, se colocam fora de qualquer realidade social

A globalização, destruindo os Estados, suprime os povos enquanto corpo político soberano; ela quer suprimir os enfrentamentos políticos; eliminado a nação enquanto corpo social, ela apaga, sem substituí-lo por outro plausível, o único quadro pertinente no qual pudemos e podem se manifestar os enfrentamentos sociais: a globalização visa a suprimir a luta de classes.

Toda concepção de qualquer globalização chega a desejar a emergência de uma espécie de direito internacional sem Estado, de qualquer maneira fora dos territórios, ou seja, dominador uma vez que se situa fora de qualquer pregnância social. Aliás, os mais determinados defensores da globalização são justamente os mais implacáveis acusadores do Estado, apresentado através de sua única função repressiva, velha linha ideológica destinada a contestar qualquer legitimidade à soberania popular.

Se, de fato, é normal analisar o Estado por meio da dominação que ele exerce, é absurdo querer se limitar a essa função; as teses desenvolvidas, por exemplo, por Antonio Negri e Michael Hardt6 não consideram a realidade contraditória que representa um povo. Ao identificar o Estado com uma simples máquina repressiva, eles se colocam fora de qualquer realidade social. Eles o vêem somente totalitário e negam a via democrática. Sua concepção de que “os conceitos de nação, de povo e de raça jamais são muito distantes” 7, afinal de contas muito próxima da de extrema direita, não representa sequer uma caricatura da concepção simplesmente democrática da nação. Bem pior, ao eliminar a definição republicana da nação-corpo político, ela redefine o povo a partir do direito do sangue. Mas essa definição tem a vantagem de não atrapalhar a globalização; ao retirar dos povos todos os direitos políticos, limitando as culturas a seu aspecto folclórico, ela impõe a submissão política a uma ordem quase imanente.

Estado e a soberania popular

O Estado não é apenas uma ferramenta de dominação, ele é também um instrumento da organização das solidariedades, de redistribuição de riquezas, de regulação

Não, o Estado não é apenas uma ferramenta de dominação, ele é também um instrumento da organização das solidariedades, de redistribuição de riquezas, de regulação. Ele deve, sobretudo, construir-se como a expressão da soberania popular, da democracia que reconhece o cidadão como elemento básico do corpo político.

Qualquer visão globalizada, ao pretender, por natureza, ser a expressão do interesse da humanidade, destrói essa legitimidade pois, na verdade, ela vai tratar somente de uma humanidade desencarnada e despolitizada; ao substituir a soberania popular e o internacionalismo por órgãos políticos distanciados dos povos, ao substituir os enfrentamentos democráticos por verdades imanentes, ela impõe seus dogmas em detrimento da razão. Os dramas do século XX explicam amplamente essa derrapagem; mas a história continua também a ser escrita por uma esquerda que, a partir da morte de Jean Jaurès, esqueceu a vontade que tinha esse grande humanista de sintetizar o combate pela liberdade individual e as lutas para o progresso social; a separação desses dois objetivos pode levar apenas a becos sem saída. Não é na ilusão que será construído o progresso social, mas na afirmação prática do livre-arbítrio e da liberdade humana.

(Trad.: Wanda Caldeira Brant)

1 - Saint Thomas d’Aquin La Somme de théologie, Editions du Cerf, Paris, 1998
2 - Le Parisien, 21 de setembro de 2004.
3 - Le Journal du dimanche, 19 de setembro de 2004.
4 - Alain Minc, La mondialisation heureuse, Le Monde, 17 de agosto de 2001.
5 - Geneviève Azam, Libéralisme économique et communautarisme, Politis, n° 776, 20 de novembro de 2003.
6 - Toni Negri et Michael Hardt, Empire, Exils, coll. Essais, 2000.
7 - Toni Negri et Michael Hardt, ib.




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