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março 2005

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DOSSIÊ ÁGUA

Os nomes da água

Em latim, aqua não era a única palavra para esta substância. Havia também a palavra unda. Unda ameaçada, aqua privada de suas virtudes, o drama da água é universal: a guerra da água – milênios depois da guerra do fogo – se passa sobre o cenário da guerra contra a vida

Alan Rey

Entre aqua e unda, duas grandes diferenças: a primeira palavra fazia da água um princípio, um ser ativo, um deus; a segunda via ali uma coisa, um meio percebido, provado, sensível

Por um fenômeno de condensação digno de um sonho freudiano, mas coletivo e secular, a palavra água reúne os principais aspectos desta substância vital e assume outros valores “líquidos”. Água, a coisa é conhecida, embora estranha, pronunciada em francês como uma vogal única – ô – é o resultado da palavra latina aqua, gasta pelas preguiçosas pronúncias galo-romanas, enquanto outras línguas romanas conservavam a consoante, até abrandando-a (o espanhol agua, o português água, ao lado do modelo antigo que o italiano guarda: aqua – sic). Os estágios intermediários para a palavra francesa, que deviam pronunciar-se awa, éwè, no norte da França, eram quase homônimos da palavra germânica de mesma origem ahwa (“rio”, na língua dos godos). Apenas as três letras vocálicas da palavra francesa lembram esta origem: e para o a inicial, a para o “we”, que não passa de um abrandamento do qw original e finalmente u para vogal final. Em um bonito e zombeteiro livro sobre a ortografia francesa, Jacques Laurent sugeria “depenar o pássaro” para a expressão francesa “plumer l’oiseau”, esta palavra em que nenhuma das letras e, a e u é pronunciada, já que é dita “uazô”; é a mesma coisa para esta eau reduzida a uma vogal sem suas três letras.

Água e unda

Se a poluição da água é um tema sentido tão violentamente, na sensibilidade da natureza, é porque a água (unda) deve ser também purificadora e lustral. Nenhum rito a dispensa

Em latim, aqua não era a única palavra para esta substância, um dos quatro elementos formadores do mundo: aqua, ignis, o fogo, aer e terra. Rica em derivados e compostos, aqua sofria a concorrência de unda que designava o elemento móvel, que o francês parou de chamar “onde1” e que correspondia, no plural aquae, a “flots” 2. Entre aqua e unda, duas grandes diferenças : a primeira palavra fazia da água um princípio, um ser ativo, um deus; a segunda via ali uma coisa, um meio percebido, provado, sensível, em suas diversas manifestações, do oceano ao regato, do lago ao conteúdo da jarra, da água que sustenta os navios àquela que faz crescer as plantas e mata a sede. Estas realidades vitais tinham nomes aparentados em todo o domínio indo-europeu; ao contrário, aqua, o princípio, pertencia, nas poucas línguas em questão ao “gênero animado” e tinha apenas “uma pequena extensão dialetal” (Ernest e Meillet, Dictionnaire étymologique de la langue latine). Tratando-se de uma realidade geográfica e humana mundial como a água, não é indiferente que as palavras que a exprimem estejam espalhadas por uma zona linguística e cultural mais ou menos extensa. Neste terreno, unda, a água material, é uma das metamorfoses de um radical indo-europeu (w-t, w-d) que se encontra particularmente em hitita, em sânscrito (udn’ah), em grego (hudor, hudatos, donde nosso hidro-), em germânico (resultando em water e wasser), em eslavo (russo voda), este w-d era nasalisado nas línguas bálticas (vandi, vandeas) assim como em latim (unda).

As mitologias marinhas, lacustres, fluviais, pluviais, que surgem das religiões e poéticas têm sua “fonte” em uma luta multissecular pela sobrevivência

A sensibilidade cultural ao elemento é evidentemente função das representações pela linguagem – o vocabulário da água é de uma extrema riqueza –, sendo essas representações função da situação concreta das sociedades: as do deserto, do oásis, da nascente reagem de modo diferente daquelas dos climas temperados ou ainda das zonas da monção, das zonas das chuvas equatoriais, etc. Sartre, a respeito de Veneza, tira da água de laguna em contato com a cidade admirável a idéia de uma “eternidade irrequieta e que atrai para ela própria todos os contornos para negá-los”. Esta água é óptica e filosófica: é mais a aqua latina, princípio e divindade, que a unda que se esperaria.

Sobrevivência em jogo

Mas o que está em jogo em relação à água é antes de mais nada o mesmo que para a sobrevivência: a sobrevivência da própria Terra, em várias cosmogonias, sobrevivência da matéria, em certas teologias, como a do alemão Johann Albert Fabricius (Théologie de l’eau, 1741 em francês). Mas se a água pode alimentar o sonho (Bachelard, L’eau et les rêves), deve ter alimentado a vida, contribuindo também para lavar a sujeira. Se a poluição da água é um tema sentido tão violentamente, na sensibilidade da natureza, é porque a água (unda) deve ser também purificadora e lustral. Nenhum rito religioso a dispensa.

E eis que nos séculos XX e XXI este combate tende, destruindo as virtudes da água, apoderando-se de seus dons comprometidos, a arruinar a própria humanidade

A revolução científica dos séculos XVIII e XIX exprime-se amplamente através desta “substância-elemento”, sem que a descoberta de sua natureza material (H2O) destrua seu simbolismo. A geografia e a geologia devem recorrer a uma hidrologia geral, e em seguida, a política internacional, a geopolítica. As mitologias marinhas, lacustres, fluviais, pluviais, que surgem das religiões e poéticas têm sua “fonte” em uma luta multissecular pela sobrevivência. Repartir a água, combater a seca desértica e o fluxo destruidor (dilúvios, tufões), manter os povos entre a torrente – palavra paradoxal, que evoca o fogo devastador – e o deserto, foi a tarefa secular da humanidade em sua luta contra a “natureza madrasta”. E eis que nos terríveis séculos XX e XXI este combate tende, destruindo as virtudes da água, apoderando-se de seus dons comprometidos, poluindo os oceanos, as nuvens, as chuvas e veios de água (ciclo mortal, ciclo vital), a arruinar a própria humanidade, a aumentar as injustiças naturais, a assedentar e a envenenar ao mesmo tempo, carregando, de passagem, os símbolos e as imagens necessárias à esperança. Unda ameaçada, aqua privada de suas virtudes, o drama da água é universal: a guerra da água – milênios depois da guerra do fogo – se passa sobre o cenário da guerra contra a água, contra a vida.

(Trad.: Betty Almeida)

1 - O português ainda chama "onda" (N.T.).
2 - Em português torrentes, vagas (N.T.).




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