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setembro 2006

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EDITORIAL

Amanhã, Cuba...

Mais do que nos Estados Unidos, que querem re-transformar a ilha em colônia, ou na Europa, que dá a Cuba lições ou lhe torce o nariz, é nas relações com a América Latina e nas suas próprias forças vivas que Havana encontrará exemplos e apoio para evoluir

Maurice Lemoine

Um personagem apenas sai de cena e tudo deve explodir! Ao mesmo tempo em que milhares de cubanos em exílio festejavam, em Miami, a doença e até a morte do "tirano", o mundo prendeu a respiração no dia 31 de julho, quando o presidente cubano Fidel Castro cedeu "provisoriamente" suas responsabilidades a uma equipe de sete pessoas, dentre as quais seu irmão Raul, em razão de uma intervenção cirúrgica, e conforme prevê a Constituição.

Na Flórida, a Fundação Nacional Cubano Americana (FNCA), já mobilizada em abril de 2003 em favor do ataque contra Bagdá sob o slogan "Hoje o Iraque, amanhã Cuba!", convocou imediatamente a um "levante militar ou civil" para derrubar o regime de Havana. No dia 2 de agosto, o presidente George W. Bush disse, em intenção aos habitantes da ilha: "Nós os apoiaremos em seus esforços para estabelecer em Cuba um governo de transição comprometido com a democracia", ameaçando "tomar nota" da atitude daqueles que, adeptos do regime atual, se opusessem a uma "Cuba livre" [1]. Um acontecimento fenomenal se preparava, centenas de milhares de cubanos iriam sair nas ruas em busca de liberdade, uma grande instabilidade reinaria.

Os dias passam. Nada parece indicar que o país saia da normalidade. Certamente, Fidel Castro retomando ou não o comando, o debate sobre "o dia seguinte" – sucessão ou transição – está lançado. E existem, depois de 47 anos de poder sem partilha, descontentes, oposicionistas, uma parcela da população que não adere ou não adere mais à revolução. Penúria, rigidez burocrática, sérios atentados a algumas liberdades – de expressão, de associação, de reunião –, encarceramento de oposicionistas (condenados a rigorosas penas) são uma realidade.

Isso tudo acarreta uma condenação geral irrevogável. Alguns questionam que, desde 1959, os Estados Unidos tenham multiplicado as tentativas de invasão, os atentados, as sabotagens e reforçado a asfixia econômica por um embargo que perdura... Pretexto, retrucam, como se pudéssemos cortar a história em fatias e não nos darmos conta da interferência do passado no presente.

Em 2005, Washington nomeou um coordenador para a transição em Cuba, Caleb McCarry (que antes ocupava um posto no Afeganistão). No dia 10 de julho de 2006, um relatório da Comissão de Ajuda à Cuba Livre, co-presidida pela secretária de Estado Condoleezza Rice e pelo secretário do Comércio Carlos Gutiérrez, alegou que tudo vinha sendo feito "para que a estratégia de sucessão do regime de Castro não fosse coroada de sucesso".

Fixando a ajuda dos Estados Unidos a Cuba em 62,8 milhões de euros, o documento esclarece que estes recursos serão direcionados diretamente aos "dissidentes", que serão treinados e receberão equipamentos e materiais. Ingerência deslavada e... verdadeiro "beijo da morte" nos opositores. Até porque, para Ricardo Alarcón, presidente do parlamento cubano, "enquanto existir esta política, haverá pessoas implicadas que conspiram com os americanos e que aceitarão seu dinheiro. Não conheço nenhum país que não qualifique tal atividade de delito" [2].

No anexo secreto, provável preparação da guerra

Enfim, e sobretudo, o relatório destaca que "o plano" comporta um anexo secreto "por razões de segurança nacional" e a fim de assegurar "sua realização efetiva". Em matéria de "medidas secretas", a história do continente, desde o Chile de Salvador Allende até a Nicarágua sandinista, não permite ingenuidade. Trata-se de uma guerra e não de outra coisa. Ora, eternamente esquecida pelos "transitólogos" auto-proclamados, uma parte mais do que significativa do povo cubano, ligada aos avanços em matéria de educação, de saúde e de serviços sociais, respeita Fidel e aqueles que – "históricos" ou dirigentes das jovens gerações – serão levados a liderar a continuidade.

Estes cubanos são tão isolados quanto se pensa? Não é o caso nem na África, nem na Ásia. Também no continente latino-americano, as reviravoltas políticas permitiram o acesso ao poder de chefes de estado melhor informados sobre a realidade da ilha e sobre o contexto que determina seu sistema atípico – partido único e políticas sociais avançadas. Os presidentes Hugo Chávez (Venezuela) e Evo Morales (Bolívia) já tinham tirado o país de seu isolamento. Vedete do recente encontro do Mercado Comum do Sul (Mercosul), em Córdoba (Argentina), Fidel Castro assinou, em 21 de julho, um importante acordo comercial com os países membros desta união, dentre os quais Brasil e Argentina. Seus governos ousaram lançar um franco desafio ao embargo norte-americano e se propuseram a estender a mão ao pequeno país que se recusa a se dobrar diante da primeira potência mundial.

Mais do que nos Estados Unidos, que querem re-transformar a ilha em colônia, ou na Europa, que dá a Cuba lições ou lhe torce o nariz, é nas relações com esta parte do mundo onde se fala bastante em "socialismo do século XXI" – democrático e soberano –, e nas suas próprias forças vivas que Cuba encontrará exemplos e apoio para evoluir.

Tradução: Sílvia Pedrosa silvia@zeapinc.com



[1] AFP, 3 de agosto de 2006.

[2] BBC Mundo, Londres, 13 de julho de 2006.


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