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outubro 2006

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IDENTIDADES E ENCONTROS

Não há fronteira que não se ultrapasse

"Só existe fronteira para essa plenitude de, enfim, ultrapassá-la e através dela compartilhar plenamente as diferenças. A obrigação de ter de invadir qualquer fronteira, sob o impulso da miséria, é tão escandalosa quanto os fundamentos da miséria em questão"

Edouard Glissant

Convivemos com as fronteiras não como símbolos e elementos do impossível, mas como lugares de passagem e de transformação. Na Relação, a influência mútua das identidades, individuais e coletivas, requer uma autonomia real de cada uma dessas identidades. A Relação não é confusão ou diluição. Posso mudar me transformando com o outro, sem me perder nem me desnaturalizar. Por isso temos necessidade de fronteiras, não mais para nos deter, mas para exercermos essa livre passagem para o outro, para salientar a maravilha do aqui-lá.

*

A faculdade de transformar em espaços de esperança nossos espaços de sofrimentos ou de fracassos, mesmo que seja extremamente fácil nos colocarmos no lugar daqueles que sofrem realmente o fracasso e a tristeza, nos permite transpor a fronteira dos lugares onde outros seres humanos sofrem e perduram; e de conceber esses lugares na apologia e nos esplendores.

No que diz respeito às fronteiras legais entre as comunidades, observamos como é agradável ultrapassá-las sem coerção, sem ponderação, continuar naturalmente da atmosfera do Marrocos à atmosfera da Argélia, desse viver na França ao viver na Espanha, do ar que se respira na Savóia ao ar que se respira na Toscana ("C’est encore loin la Toscane?") ["A Toscana ainda é longe?"], dos desertos azuis do Peru aos desertos ocres do Chile. Você se sente leve com uma roupa desconhecida e com um enorme e velho apetite para o que vai acontecer. A fronteira é o convite para desfrutar das diferenças e do prazer de variar, mas nos lembramos em seguida de todos aqueles que não dispõem desse lazer, os imigrantes ilegais, e imaginamos o terrível peso dessa proibição. Ultrapassar a fronteira é um privilégio do qual ninguém deveria ser privado, por nenhum motivo. Só existe fronteira para essa plenitude de, enfim, ultrapassá-la e através dela compartilhar plenamente as diferenças. A obrigação de ter de invadir qualquer fronteira, sob o impulso da miséria, é tão escandalosa quanto os fundamentos da miséria em questão.

*

Após a longuíssima peripécia da caça aos imigrantes clandestinos na Europa, no Reino Unido, na França, na Espanha, na Itália e nos menores principados mobilizados, uma das cadeias de tevê mostrou no início de 2006 alguns desses clandestinos retirados a força para o Mali, onde um deles cria uma instalação destinada às crianças do local, em pleno deserto e em pleno terreno vazio, para lhes ensinar o que é uma tentativa de passagem através de uma barreira de fronteira. Trata-se de uma cerca plantada ali, toda degringolada, dessas que servem mais para assinalar do que para proteger um jardim, pontuadas por silhuetas assim como por bocas, diríamos, devoradas pela cerca, e todas essas minúsculas feridas rasgadas que tentam escalar o infinito, enquanto a câmera faz acrobacias, da areia ao redor da vista das crianças, com a gesticulação tranqüila do operador.

Eu gostaria de ver mais de perto e por bastante tempo essa obra, de arte e de rigorosa história, mas essa câmera divaga, vacila, as câmeras nem sempre são equipadas para captar o rastro magnético, tampouco a força elementar e a conivência. Uma instalação que não o é, a cerca barulhenta no vento quente, sem dúvida, não constituem literalmente uma arte, que na verdade abre esse espaço ao redor e que se dá efemeramente e com a desordem racional de todos os sangues sob o sol. E o artista confirma calmamente, não mais para as crianças que já sabem tudo isso, mas diretamente para a câmera, que ele vai recomeçar, e que não pode voltar para sua cidade com as mãos vazias, e que ainda vai tentar, e que jamais terá medo de morrer e, finalmente, que essas cercas de arame farpado picadas por carnes humanas não são invencíveis.

*

É por que os Portos, negreiros ou não, nos emocionam tanto: e também as grutas e cavernas, as celas, as distâncias e os doentes incuráveis, os lugares em que você sofre e os lugares que você ignora, os incalculáveis e os excepcionais, Auschwitz e o incomunicável, Gorée, Robben, o Forte de Joux e a gruta de Tjibaou, Saint-Pierre da Martinica e todos os vulcões das Américas, Rapa Nui [Ilha de Páscoa] no centro do inconcebível, Matouba em cinzas, a plantation encouraçada de cana-de-açúcar, Cartago e o sal negro, o ventre dos navios negreiros, os tributos e o sal vermelho, Hiroshima e Nagasaki, a tribo de Abd El Kader, a Grande Muralha tão grande para se atingir e para acabar, a cela de Sócrates, a biblioteca de Tombouctou, Nova Orleans e seus Katrinas de água desde sempre, os pesticidas que contaminam as bananas, o vulcão de Empedocle, as favelas que se amontoam umas sobre as outras em todo o mundo, o caminho no fogo do Saara e dos desertos do Leste, o garrote de Ataualpa, Circe no abismo tenebroso do esquecimento, Lisboa e São Francisco e seus tremores, a Atlântida, Bagdá, o Styx, e para mim a agonia do rio Lézarde.

Mas você dirá muito bem, jamais irá ao final da pista. De qualquer maneira, um Porto é uma caverna, com seu fundo e sua goela. Não há nenhum lugar tão perto nem tão longe de você como um Porto, seja um rochedo ou um rastro de rochas no mar, ou um gulag no final de um campo de neve, em continente intransponível, ou uma mina de ouro a céu aberto no Brasil. E, então, por que quer forçar a memória dos que esqueceram, se você mesmo não tem o impulso de entrar na gruta que nos é comum e percorrê-la, ou a bondade inocente de abraçar ao longe? É preciso lembrarmos juntos, e as memórias se compartilham como um rizoma. Os portos são as fronteiras abertas do imaginário.

*

Esses portos, essas fronteiras, os istmos, as passagens, os canais, os deltas, nós os consideramos guardados por gigantes, nas lendas e na geografia do sonho, porque o gigante vê dos dois lados da linha de passagem, ele concebe ao mesmo tempo a identidade daqui e de lá, ele concebe sua necessária aliança ao mesmo tempo em que preserva e defende sua necessária particularidade. Na maior parte das mitologias populares, o gigante é bom porque tudo pode compreender dos dois lados da fronteira. Assim são personagens aumentados por Annabel Guerrero. Tecem e tateiam o detalhe de sua vida cotidiana, e observam ao longe, por cima da barreira ou da cerca ou do bloqueio da fronteira. Não são os símbolos que marcam uma imensidão, mas os condutores da Relação.

Tradução: Wanda Caldeira Brant
wbrant@globo.com




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