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dezembro 2006

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BRILHO FUGAZ

"Que o último apague a luz"

A dolarização da economia equatoriana, que encanta certos economistas, tem uma face oculta: aumento da pobreza, desorganização da pequena agricultura e... quatro milhões de emigrados, provenientes de todas as camadas sociais

Maurice Lemoine

“É uma verdadeira tragédia nacional”, deixa escapar Rafael Correa, candidato de esquerda ao segundo turno na eleição para presidente. Não se sabe mais quantos equatorianos vivem no Equador! Nos últimos vinte anos, aproximadamente 4 milhões deles tiveram que deixar o país [1]. E com razão... Perto de 50% da população vegeta na pobreza. As condições de vida foram devastadas pela dolarização implantada em 2000. Ao aumentar os custos de produção locais, agora maiores que os das nações vizinhas, tanto a agricultura como a indústria foram arrasadas.

Acrescente-se a este quadro uma dívida externa de 18 bilhões de dólares, enquanto que, salienta Correa, em um país que é o quarto produtor de petróleo da região, “a cada cinco barris de petróleo produzidos, as multinacionais levam quatro e deixam um no país; é a taxa de participação mais baixa de toda a América Latina”. Não é de se surpreender, se revoltas populares derrubaram três presidentes em dez anos. E uma onda de emigração sangrou o país.

A hemorragia começou nos anos 1980, quando o presidente León Febres Cordero impôs o modelo neoliberal. Até 2002, 80% dos que deixavam o país pertenciam aos setores indígena e camponês. A partir de 2003, começam a partir, principalmente para a Europa, os profissionais, os engenheiros, os professores, os médicos. Essa gente ainda dispõe de salários. Os mais pobres, não. Ora, a partida aventurosa custa caro. Todos se endividam. Traficantes de carne humana, os coyotes pediam 4 mil dólares em 2000, 8 mil dólares em 2003, e hoje entre 10 mil e 12.500 dólares para organizar o périplo que vai do Equador aos Estados Unidos [2]. Desde o início de 2006, a nova política de migração de Washington e a vigilância da fronteira aumentaram consideravelmente os custos. Diante de tal demanda, surgiram os chulqueros: no âmbito de um sistema financeiro ilegal, são eles que emprestam dinheiro: a 30% ou 40% de juros!

Entre Estados Unidos e Europa

Os coyotes fazem os candidatos ao American Way of Life saírem pelo mar até as selvas da América Central, de onde atravessaram clandestinamente a fronteira do México e, se tudo der certo, a dos Estados Unidos. Menos perigosa e menos cara, a travessia para a Europa só necessita de uma falsificação de papeis e documentos. Na Espanha vivem atualmente 800 mil equatorianos, dos quais 64% têm entre 15 e 40 anos [3]. Muitos fazem jornadas estafantes de quinze horas de trabalho na colheita de frutas e legumes. Além da sobrevivência com salários miseráveis e do envio de dinheiro a suas famílias, é preciso pagar os chulqueros. A tragédia nunca está longe. “Uma máfia”, testemunha Freddy Cabrera, um professor envolvido com o ensino alternativo em Riobamba. “No momento do empréstimo, eles pedem a escritura de propriedade da casa, do terreno. Se você não começar a pagar, eles confiscam. E pior ainda se você morrer. A família fica na rua”, diz.

Vinte por cento da população equatoriana recebe dinheiro – 1,7 bilhões de dólares [4] - vindo do exterior. Mas a que preço... Separação de casais, desestruturação das famílias, diminuição da presença dos homens, as mulheres fazendo os trabalhos mais penosos. Perda de valores, Cabrera acrescenta. "As pessoas que conseguiram partir, têm filhos que não têm nenhuma consciência do valor das coisas. Eles gastam as remesas em roupas, bugigangas eletrônicas, brinquedos, qualquer coisa". Há um forte consumo sem haver um desenvolvimento produtivo. O que acontecerá amanhã?

“O último que sair, que apague a luz”, pode ser lido em um muro da terceira maior cidade do país, Cuenca.

Tradução: Patrick Arnault
patrick.arnault@bol.com.br



[1] Estima-se a população em 13,5 milhões de habitantes.

[2] El Universo, Quito, 25 junho 2006.

[3] El País, Madri, 13 agosto 2006.

[4] Segunda fonte de renda financeira do país, após o petróleo (1,9 bilhões de dólares).


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