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maio 2007

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CORPORAÇÕES

Quando a imprensa silencia

Há uma interessante coincidência entre a postura da mídia diante das demissões na Airbus e a composição acionária de certos jornais, rádios e TVs...

François Ruffin

“Trata-se de um plano clássico de reestruturação, mas a confusão reina porque os candidatos se apossaram dele”, diz Jean-Marie Colombani num programa da rádio France Culture chamado “La rumeur du monde” (Os rumores do mundo). Professor de economia e editorialista associado ao Le Monde, Jean-Claude Casanova continua exaltado: “É um problema de competitividade que precisamos compreender e esta é uma dificuldade especificamente francesa, porque se você está nos Estados Unidos ou na Inglaterra, ou se você está no mundo financeiro e alguém lhe diz ‘Preciso me reestruturar, porque o mercado não corresponde ao meu posicionamento, às escolhas que fizemos ou a este ou aquele erro, então é necessário reestruturar e para isso se cortam empregos’. Nos Estados Unidos, os sindicatos até aplaudem, os mercados financeiros aprovam, todo mundo acha isto normal, é a prova do dinamismo da empresa.” O jornalista Eric Le Boucher completa a análise: “Um dos temas desta reestruturação é partir para a subcontratação em zonas de dólar, para fazer baixar os custos de fabricação no longo prazo…”. O último convidado do programa, Philippe Camus, ex-diretor da EADS, apenas conclui: “É isto que visa o plano Power 8. Ele deveria ter sido colocado em prática há muito tempo”. Por que ter demorado tanto para suprimir 10% da mão de obra? Esta seria a “verdadeira questão”.

No banco dos réus, os “candidatos”, os “Estados”, a “opinião pública”, as “feudalidades nacionais [1]”. Lagardère e Daimler-Chrysler não são citadas nem como responsáveis, nem como culpadas. Camus, ator do desastre, é convidado como testemunha, jamais questionado sobre a “desonestidade” ou a “incompetência” dos dirigentes. Durante o “caso Airbus”, os principais veículos da mídia foram porta-vozes do Grupo Lagardère, e às colocações dos críticos não foi dada atenção. Nem foi, em compensação, necessário bloquear as posições de Lionel Jospin e Dominique Strauss-Kahn. Em “Verdade sobre a EADS”, eles conseguiram o feito de não mencionar nem o pai, Jean-Luc Lagardère, nem seu filho, Arnaud, e ainda menos os meios que usaram para multiplicar suas próprias fortunas [2].

Por sua vez, Nicolas Sarkozy, evocou, sem maior precisão, “um problema acionário”. Mesmo o L’Humanité evitou atacá-lo na capa. Apesar de seus lucros cem vezes inferiores, Noël Forgeard e seu pára-quedas dourado de 8 milhões tiveram direito a menos clemência: voaram penas sobre o símbolo detestável do “dinheiro insano”, uma “provocação”, um “prêmio à incompetência”. De norte a sul, e até nos poleiros do patronato, todos se declararam “estupefatos”.

Silêncio para um, vergonha para outro. Que grande analista evocaria aqui a “auto-censura”? O Grupo Lagardère garantiu participações no Le Parisien, i-télé, Le Monde, L’Humanité, Paris-Match, Canal Sat, e em dezenas de jornais regionais, tudo isso sem ferir, claro, a liberdade dos jornalistas. Jean-Pierre Elkabach, diretor da Europe 1, rádio do Grupo Lagardère, assegurou: “A eficácia e a honestidade são as melhores garantias do profissionalismo e da independência. (...) Felizmente alguns grandes grupos ajudam a imprensa a se desenvolver, a se manter e a sobreviver com toda a independência num momento em que ela está em crise profunda [3].” Sim, felizmente.

Tradução: Sílvia Pedrosa silvia@zeapinc.com

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[1] L’Expansion, abril de 2007.

[2] Le Monde, 8 de março de 2007.

[3] Comunicado da AFP, 5 de setembro de 2006.


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