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julho 2007

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GENOCÍDIOS

Vinte anos de guerra sem fim

Entre os ingredientes do conflito que aterroriza Uganda, uma milícia que recruta à força para impor a Bíblia e as velhas disputas tribais atiçadas pela colonização

André-Michel Essoungou

Cinco, vinte ou cem mil mortes? Em mais de vinte anos, não se tem estimativa confiável do número de vítimas da guerra do norte de Uganda. Desde 1986, com o início da rebelião de Alice Lakwena, a região nunca mais teve paz. Derrotado às portas de Kampala, em novembro de 1987, o Movimento do Espírito Santo (Holy Spirit Movement) foi, rapidamente, substituído pelo Exército de Resistência do Senhor (ERS ou Lord’ s Resistance Army, LRA), dirigido por Joseph Kony, sobrinho de Lakwena. Ambos acreditam que são dirigidos pelo espírito santo e propõem a imposição de um poder baseado nos Dez Mandamentos [1].

O conflito reflete, também, a profunda rivalidade entre o sul do país, detentor do poder, e o norte, que se considera excluído. Essas tensões remontam à colonização britânica, que as intensificou por meio de um jogo de poder regional. O ERS beneficia-se do apoio do povo acholi (norte do Uganda), que se opõe ao presidente Yoweri Museveni, procedente da tribo dos bayankolés (sudoeste do país). Em 1986, o chefe de Estado tomou o poder e derrubou um conselho militar acholi. Até há pouco, o ERS recebia favores do vizinho Sudão. Kartum servia-se da milícia em seu próprio conflito contra os rebeldes sulistas.

Em 1996, frente ao terror promovido pelo ERS no norte de Uganda, o governo decidiu criar “campos protegidos” para a população. Procurou, também, privar os rebeldes de suas fontes de abastecimento. Mas fracassou. Os massacres de civis prosseguem, e certos atos de mutilação lembram os praticados na guerra de Serra Leoa. Entre 25 e 60 mil crianças foram raptadas e transformadas em soldados do ERS. Milhares de pessoas foram obrigadas a deixar os campos à noite para se esconder dos “recrutadores” nas ruas de Gulu e outras cidades do norte do país. Haveria 1,5 milhão de pessoas deslocadas na região acholi — local mais deavstado pelo conflito. O ugandense Michael Odongior, conselheiro jurídico de uma associação local, faz uma constatação desiludida: “aqui as pessoas sobrevivem graças à ajuda humanitária internacional. A presença do governo resume-se ao exército e a algumas estradas construídas há muito tempo”.

Tradução: Marcelo de Valécio
marlivre@gmail.com



[1] Ler Michel Arseneault, “La folle guerre de l’Armée de résistance du Seigneur”, Le Monde diplomatique, edição francesa, fevereiro de 1998.


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