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setembro 2007

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CULTURA / OUTROS CIRCUITOS

Últimos dias da Argélia francesa

O ano de 1962, quando a Argélia viveu uma carnificina, é retratado ou contado pelo olhar de crianças. Cartouches gauloises, um filme de Mehdi Charef, ultrapassa a esfera local da tragédia. Amplia as reflexões para a tragédia mundial e humana

Tahar Ben Jelloun

Toda ferida é uma espécie de coração apertado, que permite à beleza se impor como evidência. A ferida de Mehdi Charef não é única nem solitária, já que foi escavada pela história de um país destruído pela guerra – uma guerra tão horrível quanto incompreensível.

É preciso o olhar de uma criança, em sua amizade e em seus conflitos com outras crianças, para que essa tragédia possa ser contada. E o cinema tem essa magia de reconstituir os fluxos da história sem nada perder da complexidade do tempo e dos homens.

Uma criança argelina que se recorda, uma a criança que permanece cativa no adulto, conta sua amizade com o filho dos vizinhos franceses. Mas a história se passa numa época e num contexto em que os homens travam uma guerra clássica e artesanal. Destinos são destruídos e separados, a cada dia os mortos se transformam em argila nas vielas da Casbah, e olhos límpidos da lucidez vêem aquilo que a memória gravará para sempre.

Até as crianças tomam partido — partido dos pais, da fatalidade, que, com freqüência, é mais forte que a vontade e a razão. As duas crianças, Ali e Nico, são jogadas nessa roda-viva cotidiana, que vem perturbar suas brincadeiras e seus projetos. Há, em especial, uma cabana a ser construída no bosque, onde cada um depositou sua parcela de esperança. Mas o ódio se torna contagioso. Uma simples bandeirinha argelina sobre a cabana vai provocar a ruptura e a incompreensão. A força do símbolo.

O olhar das crianças é privilegiado pelo cineasta. Seu filme não é um acerto de contas nem uma compilação de lembranças melodramáticas. É simplesmente uma obra de arte, que fala de medo, traição, morte e resistência. São temas universais, porque o talento de Mehdi Charef faz com que sua tragédia pessoal remeta o espectador a outras tragédias, que não pouparam a humanidade nos últimos 50 anos.

O cineasta se restringe ao ano decisivo de 1962, quando a Argélia terá amputada uma parte de sua população, quando tomará seu destino nas mãos, mas com as mãos armadas. Ele só nos fala de coisas que viveu e das quais se lembra como uma ferida no coração, uma ferida na alma. Suas imagens são simples e precisas. Seus diálogos são diretos e essenciais. E ele partilha conosco essa infância perdida, que lhe foi confiscada por um tempo em que, em vez de mimar as crianças, se marchava sobre elas.

É importante ressaltar que esse filme tenha sido produzido por uma francesa, Michèle Ray-Gavras, militante de um cinema capaz de restabelecer o real. Pois, entre o imaginário da França e o da Argélia existe um véu, pesado, espesso, quase um muro de concreto. E poucos políticos têm a coragem de erguer esse véu. Mas, enquanto essa lembrança comum não for compreendida, permanecerão os mal-entendidos entre os dois povos. E são sempre os mais desvalidos, os mais humildes, imigrantes ou transitórios, que pagam a dívida das lembranças dolorosas.

O cinema ajuda a reunir os seres humanos. E o filme de Mehdi Charef tem o dom de comover franceses e argelinos. Ele não toma partido. Não difunde ideologias. Trata da beleza dos sentimentos nascentes de crianças que foram interrompidas em suas brincadeiras por uma guerra pavorosa. Poderia estar ambientado em Sarajevo, em Kossovo, na Palestina e em tantos outros lugares onde homens distribuem a morte como bombons em uma manhã amena.

Por todas essas razões, é preciso ver o filme de Mehdi Charef. E, principalmente, mostrá-lo nas escolas e colégios da França e de outros países. Pois, há algum tempo, no momento de ascensão eleitoral da Frente Nacional, direitista e xenófoba, uma pesquisa revelou que mais de 40% dos jovens de 20 anos ignoram que houve uma guerra entre a França e a Argélia!




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