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outubro 2007

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CULTURA / OUTROS CIRCUITOS

Uma África truculenta e fantástica

Em “Memórias de Porco-Espinho”, Alain Mabanckou parodia a lenda de que cada Homem tem seu respectivo duplo animal. Um Porco-Espinho protagoniza como uma espécie de alter ego do jovem Kibandi, que concretiza seu prazer mórbido por meio da pungência desse duplo

Claude Wauthier

Todo homem tem seu duplo, mas há dois tipos de “duplos”, os “pacíficos” e os “nocivos”. O porco-espinho, que tem função de narrador neste romance, é um duplo nocivo. Ele tem um mestre, o jovem Kibandi, sob ordem de quem o animalzinho pode lançar seus espinhos e matar aqueles ou aquelas que o jovem, tomado por espécie de uma loucura sanguinária, designe. O pequeno vilarejo do Congo que o porco-espinho assola perdeu, assim, 99 de seus habitantes. Mas, pior do que esses 99 crimes, o porco-espinho quase comete o crime mais abominável, de atacar os gêmeos, infringindo assim um temível tabu. O jovem será punido de maneira atroz. Seu outro eu, seu duplo, se transformará numa criatura assustadora, sem boca, sem orelha e sem nariz. Os gêmeos, de sua parte, sairão ilesos por milagre dessa aventura, e virão provocar o jovem Kibandi diante de sua palhoça.

O porco-espinho desfia essas atrocidades em tom indiferente, com uma espécie de humor negro e uma verve que chega a lembrar as Histórias extraordinárias, de Edgar Allan Poe. Além disso, a obra de Poe é o livro de cabeceira de um personagem secundário desse romance desregrado, o jovem e sedutor Amédée, que fascina as jovens do vilarejo contando-lhes suas aventuras parisienses.

Alain Mabanckou (que é congolês) recria com vivacidade a atmosfera de um vilarejo africano, com personagens truculentos, como o velho feiticeiro orgulhoso de seu poder, a famosa Biscuni, viúva de formas murchas que desvirginou o jovem Kibandi, a jovem e bela Kiminu (uma das 99 vítimas do porco-espinho, “que por ela teve uma ereção”, ao vê-la seminua antes de matá-la) e, por fim, a trupe de etnólogos brancos que vieram assistir aos funerais. Não falta nada a esta evocação irônica dos usos e costumes da sociedade rústica observada pelo porco-espinho, nem mesmo a história de um crime ritual, cuja vítima é uma outra jovem, encontrada morta por afogamento. Papa Kibandi é acusado injustamente desse afogamento. O enigma será desvendado por um feiticeiro tão sensato quanto surpreendente.

Este romance fantástico – uma espécie de versão africana de Dr. Jekyll e Mr. Hyde – valeu ao autor o prêmio Renaudot. Os jurados foram, sem dúvida, seduzidos pela truculência sem afetação de uma narrativa que despoja a África de seus supostos mistérios e pela verve sarcástica que impregna sua obra, desde o primeiro livro, Bleu, blanc, rouge, e os demais, dentre eles o surpreendente Verre cassé. Alain Mabanckou, 41 anos, ensina literatura francófona em uma universidade norte-americana, após ter estudado Direito a pedido da mãe (http://www.alainmabanckou.net). Tendo passado pela poesia, ele tem o olhar atento e a facilidade de escrever, que conferem à sua obra um atrativo isento de qualquer exotismo barato.




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