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E Paris mudou de cara

Estrangeiro em tudo e todos. O autor incursiona pelo encanto sombrio da Cidade Luz, onde seus sentimentos mesclam-se de forma sinestésica e paradoxal entre o medo e o fascínio diante da outra face de Paris

Diego Viana

(19/10/2007)

Foi assim: um dia, tomei um avião, atravessei o oceano e desembarquei em Paris. Meados de setembro, ponderei, e me carreguei de casacos. Um fardo desnecessário, conforme eles se revelaram ao causar transtorno nas escadas do metrô. Mas eu não podia saber como estaria o tempo, nem como me afetaria o clima. Mudar-se de país, logo descobri, sempre envolve estorvos; os casacos, afinal, foram apenas um preâmbulo que demorei a identificar.

Vão muito além do deslocamento físico, os estorvos, ainda que se ignore o universo prático, por desprovido de charme. Expatriar-se corresponde a declarar uma guerra entre memórias, expectativas e experiências. Algo dentro de nós reluta em aceitar as formas, os rostos, as palavras. A vontade, essa intrépida, se irrita com o inconsciente. Não há escapatória. A única solução é concentrar-se no que há de positivo.

O impacto emocional de ver-se em Paris como novo morador é lembrança tão viva que parece presente. Custo a admitir que aqueles dias de nervosismo ainda produzem seus ecos. Já estivera aqui em outras ocasiões, mas com o carimbo de turista ou estudante de verão. Assim, foi como espectador mudo que confrontei com os estilhaços da lembrança o ambiente que se constituía, maciço e indecifrável, diante de mim.

Acionou-se um dispositivo de conforto, em alguma parte do espírito, quando captei o odor pastoso do primeiro vestíbulo em que pisei, fatigado de carregar as malas pelos subterrâneos. Esse cheiro, que talvez não chame a atenção de mais ninguém, para mim é uma espécie de assinatura das antigas construções que fazem a fama da cidade. Percebi-o desde a primeira visita, e voltar a senti-lo produz uma sensação de reconhecimento e segurança. Um de meus sentidos, ao menos, sabe bem onde estou.

Os monumentos, os bulevares, as marolas do Sena, atravessaram a maior parte de minha vida como ilustrações de um álbum de viagem. Por um tempo, repercutindo a expectativa da travessia, mudaram-se em mistério. Mas bastaram os solavancos do avião que aterra para que se configurassem, enfim, como geografia concreta, verdadeira. A geografia que, doravante, eu deveria me esforçar por aprender.

Nada em particular. São buzinas, motoqueiros, horários apertados e aluguéis exorbitantes. A malha das ruas, confusa e ilógica como todas as demais, haveria de se construir em meu cérebro com a clareza de um mapa. Imperfeito, é verdade, como haviam sido, até então, os rabiscos aleatórios de São Paulo. Nessa nova Paris que se reconstruía em mim, uma Paris de carne dura e sangue quente, quanto antes acabasse o idílio, melhor.

Acontece que nasci com um estranho defeito. Sou desprovido da agilidade dos eficientes. Minha constituição parece incapaz do pensamento objetivo de quem precisa adaptar-se a um novo mundo. Não sufoquei o famigerado idílio, que me mantinha maravilhado diante das folhas mortas, amarelas e vermelhas, a forrar o calçamento de outono. Antes, alimentei-o. Em longos passeios a pé, em cartadas de poesia, em crônicas rabiscadas no moleskine que reside em meu bolso.

É Paris, ora. A fraqueza sentimental é perdoável. O ceticismo que buscaria cultivar jamais terá o poder de desviar meus olhos das fileiras de fachadas cinzentas. Se a infinidade de mansardas já desconcertou Baudelaire, inspirou Merleau-Ponty e encantou Cortázar, não serei eu a passar indiferente. Pobre de mim, estudante latino-americano. São essas impressões de recém-chegado, deslumbrado, abismado, que venho repetindo nos escritos.

Relendo-os, posso ver como o tempo, o clima em que as quatro estações ousam bem dizer seus nomes, agem sobre meu coração e minhas retinas. Discorri acerca do inverno, do verão, do outono. E principalmente, diga-se, da primavera. É minha preferida, embora, para alcançá-la, seja preciso atravessar o frio e a escuridão. A presença de um ciclo carrega a saudade, e não raro o medo, dos demais. Mas isso é tema para outra crônica. A próxima, talvez. Até lá.



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