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dezembro 2007

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O peso da política externa

Jean Radvanyi

A política exterior é um elemento fundamental da virada estratégica empreendida pelo presidente Vladimir Putin desde sua primeira eleição, em março de 2000. E não por acaso: os dirigentes russos, como a opinião pública, são extremamente sensíveis ao lugar de seu país no mundo. As reviravoltas acarretadas pelo esfacelamento da União Soviética, com efeito, multiplicaram os fatores de inquietação: redução brutal do território e perda de numerosas regiões consideradas como “russas” há séculos; status incerto dos russos do “exterior próximo” (as ex-repúblicas da URSS), entre os quais inúmeros cidadãos da Federação têm parentes ou amigos; migrações em massa desses territórios rumo à Rússia etc.

Esses elementos internos, somando-se à dolorosa experiência da potência perdida, criaram um terreno favorável, na opinião pública, para uma mobilização dos sentimentos nacionais, com os quais a maioria dos partidos políticos, mas também o governo de Putin, têm jogado. Quase todas as grandes decisões recentes de reformas institucionais, econômicas e sociais se inscrevem nessa retórica patriótica que pretende devolver ao país a potência e o papel que se considera que ele deva desempenhar na globalização.

Outro elemento decisivo para compreender a evolução da política russa em matéria internacional: a impressão, amplamente difundida na classe política, para além da administração presidencial, de terem sido ludibriados pelos ocidentais. As razões da aproximação espetacular com Washington, impulsionada pelo presidente russo no dia seguinte aos atentados do 11 de Setembro, evidentemente não eram todas desinteressadas: o Kremlin desejava, ao mesmo tempo, ganhar tempo a fim de consolidar a situação econômica interna e estabelecer um paralelo entre o terrorismo mundial e a resistência chechena. Mas a atitude do presidente Putin – que suscitou muitas reservas entre as elites russas – poderia ter marcado uma virada significativa nas relações entre seu país e os principais membros da Otan. Ora, os Estados Unidos a interpretaram, bem mais, como um sinal de fraqueza permanente da Rússia e, desde então, têm desenvolvido em todas as direções uma estratégia de rechaço da influência russa, inclusive no espaço onde os interesses estratégicos russos estão realmente em causa: da Ucrânia ao Cáucaso e à Ásia Central.

Sem dúvida, Moscou ainda não conseguiu redefinir de modo sereno a natureza de suas relações com os vizinhos mais próximos. Suas decisões brutais, mesmo quando não são ilegítimas (como a elevação do preço do gás aos índices mundiais), e suas ingerências (como durante a campanha eleitoral ucraniana de 2004) só fizeram trazer argumentos de peso a seus adversários. Mas será possível, com isso, eludir o papel das ingerências norte-americanas ou européias nas “revoluções coloridas” [1]? Diante dos descontroles ocidentais em matéria de ações militares e de respeito aos direitos humanos que se multiplicaram no Iraque e em outros conflitos recentes, os russos suportam cada vez menos a prática freqüente do “dois pesos, duas medidas” no que lhes diz respeito. O alerta lançado pelo presidente russo, em fevereiro, em sua intervenção em Munique [2], teve o mérito de levantar com franqueza todas essas questões. Embora considerado brutal pela imprensa ocidental, ele porém não fechava as portas, mas, ao contrário, chamava à retomada das discussões sobre todos os temas sensíveis: ampliação da Otan a outras repúblicas da ex-URSS como a Geórgia, escudo antimíssil, Kossovo e poder nuclear iraniano, para citar apenas os mais evidentes.

Para o Kremlin, essas discussões devem viabilizar uma modificação importante das relações: o modelo político dos anos 1990, que relegava a Rússia à categoria de parceiro inferior do Ocidente, está ultrapassado. Moscou não permitirá mais que lhe imponham acordos considerados desequilibrados, como a Carta Européia da Energia. Decerto esse discurso político vigoroso tem uma dimensão eleitoral, mas exprime mudanças de direção geopolíticas fundamentais: a Europa e os Estados Unidos terão de levar em conta a ascensão poderosa dos “BRIC” (Brasil, Rússia, Índia e China). Putin, aliás, não deixa escapar nenhuma ocasião de lembrar que seu país não é apenas um Estado europeu: a Rússia desenvolverá cada vez mais sua vertente asiática, a exemplo de sua parceria com Pequim no seio do Grupo de Xangai [3].

O sentimento de que seu país volta a ser um ator principal no cenário internacional seguramente contribui muito para a manutenção da popularidade do presidente russo entre seus compatriotas.

Leia mais:

As duas faces de Putin
A mídia ocidental insiste em enxergar apenas autoritarismo no presidente russo. Mas as verdadeiras fontes de sua imensa popularidade são o recoesionamento do país e a recuperação da auto-estima nacional — duas conquistas reais, que tornam extremamente improvável um retorno à era Yeltsin

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[1] Régis Genté e Laurent Rouy, “Dans l’ombre des ‘révolutions spontanées’”, e Vicken Cheterian, “Révolutions en trompe-l’œil à l’Est”, Le Monde Diplomatique, respectivamente, janeiro e outubro de 2005.

[2] La gouvernance unipolaire est illégitime et immorale, 10 de fevereiro de 2007. Texto integral.

[3] A Organização de Cooperação de Xangai (OCS) foi criada em 1996 com o nome de “Grupo de Xangai” e compreende atualmente seis Estados membros (China, Cazaquistão, Quirguistão, Uzbequistão, Rússia, Tadjiquistão) e quatro observadores (Índia, Irã, Mongólia, Paquistão). O status de observador foi recusado aos Estados Unidos.


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