Jornalismo Crítico | Equipe | Copyleft | Contato | Escreva | Edição Impressa | Assinaturas
Uma iniciativa


Já nas bancas



Desafios da economia solidária
Resenha | Comprar

Edições anteriores

Alternativas ao aquecimento global
Resenha | Comprar

Reflexões sobre o consumo responsável
Índice | Comprar

Caminhos para uma comunicação democrática
Índice | Comprar

A disputa pelo ouro azul
Índice | Comprar

dezembro 2007

imprima
ORIENTE MÉDIO

Paquistão: o novo elo fraco da geopolítica norte-americana

Num contexto geopolítico instável, marcado pelos atropelos da “guerra contra o terror”, um dos mais sólidos pontos de apoio do presidente Bush acaba de ceder. A proclamação do estado de sítio pelo general Pervez Musharraf é uma grave confissão de fraqueza da parte do ditador paquistanês

Ignacio Ramonet

As ondas de instabilidade provocadas no Oriente Médio após os atentados do 11 de Setembro devido à “guerra contra o terrorismo internacional” não param de convulsionar novos países. O mais recente: Paquistão.

Cinqüenta meses após a tomada de Bagdá, o panorama geopolítico regional parece desolador. Ao impasse militar se somou uma enxurrada de desastres diplomáticos. Sem que o risco terrorista, contrariamente ao objetivo definido por Washington, tenha diminuído. Nenhum dos conflitos – Israel-Palestina, Líbano, Somália – foi resolvido. No Iraque, apesar da presença de quase 165 mil militares norte-americanos, as perspectivas ainda parecem igualmente incertas. A vida diária para os civis permanece um inferno. Os atentados assassinos se sucedem. Além disso, surgiu uma nova tensão na fronteira entre o Curdistão iraquiano e a Turquia, onde poderiam se enfrentar dois aliados dos Estados Unidos.

Outro paradoxo, as intervenções norte-americanas tiveram o efeito de livrar o Irã – “pior inimigo dos Estados Unidos” – de dois grandes adversários: o regime do partido BAAS no Iraque e o dos talibãs no Afeganistão. Assim, raramente um rival terá proporcionado tantos benefícios a seu principal inimigo. Isso permitiu a Teerã concentrar-se em seu programa nuclear. Suscitando os piores temores. Os Estados Unidos e Israel agora ameaçam bombardear as instalações atômicas iranianas. O que acrescentaria mais caos ao caos regional e acarretaria altas dos preços do petróleo insuportáveis para numerosas economias.

No Afeganistão, as forças da Otan estão na defensiva. Com mais de 15 mil homens no país, os Estados Unidos exigem de seus aliados, entre os quais a França, o envio de tropas suplementares. Pois os talibãs retomaram a iniciativa, os atentados suicidas se multiplicam, a cultura da papoula e a exportação de ópio explodem. A reconstrução se faz em marcha lenta e as instituições “democráticas” se enfraquecem. Controladas por “senhores da guerra”, as províncias se afastam cada vez mais do governo de Cabul. “Se nós partirmos”, admite um diplomata ocidental, “Hamid Karzai [presidente do Afeganistão] não sobrevive dez dias.” [1]

É nesse contexto geopolítico tão instável que um dos mais sólidos apoios do presidente George W. Bush na região acaba de ceder no Paquistão. A proclamação do estado de sítio em Islamabad, em 3 de novembro último, pelo general Pervez Musharraf é, de fato, uma grave confissão de fraqueza da parte deste, o que disparou o alerta vermelho em Washington.

Tendo sido já autor de um golpe de Estado em 1999, o general Musharraf fora recrutado a toda pressa pelos Estados Unidos, no final de 2001 – e sob a ameaça, como ele mesmo contou, de ver seu país aniquilado por um ataque nuclear maciço –, na guerra contra o regime dos talibãs e contra as bases afegãs da Al-Qaeda. O governo Bush pareceu não perceber a contradição no fato de se aliar a um ditador para “instaurar a democracia” no Afeganistão.

Com essa aliança, Musharraf obteve um certificado de respeitabilidade internacional, bem como cerca de 11 bilhões de dólares para equipar melhor seu exército e suas forças de repressão. O Paquistão, país com cerca de 167 milhões de habitantes, é o único Estado muçulmano que possui a bomba atômica e pode lançá-la a 2.500 quilômetros, graças a mísseis de longo alcance. Esses dados lhe conferem uma importância estratégica tanto maior pelo fato de o país estar situado em pleno “foco perturbador” do mundo e na orla das crises afegã, iraniana e do Oriente Médio.

O grande pavor, em Washington e em outras chancelarias, é que os muçulmanos paquistaneses, aliados aos talibãs, acabem por se apoderar do controle do Estado e ponham as mãos na bomba atômica. Detestado pelo poder judiciário, o general Musharraf acaba de amordaçar os principais meios de comunicação e reprimir os dois principais partidos da oposição, o de Nawaz Sharif e o de Benazir Bhutto. Sua impopularidade faz dele, apesar das aparências, o elo frágil do sistema político. O objetivo da diplomacia norte-americana é, portanto, a curto ou médio prazo, substituí-lo. Não por Bhutto ou por Sharif, os quais, no melhor dos casos, servirão para fazer a mudança “democrática”. Mas por um outro homem forte, talvez o general Ashfaq Kyani, mantido na rédea curta pelos norte-americanos.



[1] El País, 25 de outubro de 2007.


Fórum

Leia os comentários sobre este texto / Comente você também

BIBLIOTECA LMD

» por tema
» por país
» por autor

BOLETIM


digite seu endereço internet e receba nosso boletim

Leia mais sobre

» Afeganistão
» Estados Unidos
» Iraque
» Irã
» Geopolítica do Oriente Médio
» Paquistão
» Confrontos contra o “Outro”
» Guerra contra o Iraque
» Oriente Médio
» Ocupação do Afeganistão

Caderno Brasil

» Com Licença, sim?
» Crise mundial: as garantias de direitos sociais e o capitalismo
» Movimentos sociais conectados: o MST e o Exército Zapatista
» Salários invioláveis: uma questão de liberdade
» Palavra 57
» Ciência e democracia na Amazônia
» A máquina do Estado e as desigualdades cidadãs
» Mirar Battisti, acertar a multidão
» É de baque-solto
» O estuprador e o algoz
» Deusas do cotidiano
» Plano de duas feministas
» Marchinhas para um carnaval francês
» Europa brasileira 4
» Os economistas e a crise
» E por falar em saudade
» Palavra 56
» A grande oportunidade de Obama
» Ouvir o silencio
» Carta Capital e o país de Pinocchio
Mais textos


Blog da redação

» As condições da Raposa Serra do Sol
» Nazismo ao vivo e a cores
» Os insurretos do século 21: a I Insurreição Pirata
» Crise do software proprietário e o crescimento do Pinguim
» Apenas na velocidade dos dedos

Nesta edição

» Os desafios do pós-Kyoto
» O fantasma do apartheid genético
» As duas faces de Putin
» O peso da política externa
» Principais formações políticas
» Os escritores malditos do Vietnã
» Washington diante do desafio latino-americano
» México, polícia dos Estados Unidos
» A “Iniciativa Mérida”
» Cristina e a transição democrática Argentina
» A estratégia cinematográfica que sustenta Bush
» A Europa das empresas "recuperadas"
» O Tratado de Lisboa, à revelia dos povos
» A fraude do conceito de “capital humano”
» Santa María de Iquique

Veja também

» Outras edições