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maio 2008

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Um eixo de desenvolvimento econômico

Johanna Levy

“O governo de Evo Morales sabe que, para reabilitar a folha de coca junto à opinião pública mundial, é preciso primeiro demonstrar que pode lutar eficazmente contra o narcotráfico”, analisa Jorge Alvarado, responsável pela missão diplomática boliviana na Venezuela. Encarregado de rever a campanha internacional de sensibilização à coca, ele conta com a ajuda do país vizinho para convencer o Comitê de especialistas em tóxico-dependência da Organização Mundial da Saúde (OMS) a solicitar uma revisão do estatuto do arbusto em sua próxima reunião.

“Nosso objetivo é simples: queremos produzir o que consumimos tradicionalmente e também o que precisarmos para a indústria, para a fabricação de alimentos e de medicamentos à base de coca”, explica. Contrariamente à política dos governos precedentes, cuja meta final fora reduzir a superfície de coca cultivada no país em até 12 mil hectares, o governo de Morales lançou-se em um desafio maior: fazer dessa cultura um meio de desenvolvimento econômico, visando os mercados local e internacional. Mesmo considerando excessivos os 27500 hectares cultivados hoje, o governo boliviano prevê manter a superfície legal de produção em 20 mil hectares.

Outra mudança radical foi na estratégia da luta contra o narcotráfico: não se trata mais de restringir os espaços cultivados, mas de buscar neutralizar a produção de cloridrato de cocaína. Assim, além dos 12 mil hectares reservados ao consumo tradicional, deve-se destinar 8 mil hectares para a transformação produtiva das folhas em infusões, farinhas, produtos cosméticos (dentifrícios, xampus), biomedicamentos (xaropes, pomadas, mates), fertilizantes ou ainda em nutrimentos para a criação de animais. Mercadorias suscetíveis a abrir novas oportunidades econômicas aos produtores, desviando-os do narcotráfico.

Solidária à política boliviana, a Venezuela anunciou que seu país comprará todos os produtos industrializados a partir da coca caso eles não sejam absorvidos pelo mercado nacional, garantindo assim seu escoamento [1]. O governo boliviano conta também com a colaboração das organizações cocaleras para garantir a “redução voluntária” das superfícies agrícolas excedentes. A concertação da qual Evo Morales foi dos principais artífices revelou-se um sucesso incontestável. “Em um ano chegou-se à diminuição inédita de 8 mil hectares da superfície cultivada. As organizações sindicais sabem perfeitamente que esta é a única via para garantir a produção da coca”, lembra Jorge Alvarado.

Para o governo, é no controle social exercido pelas organizações sindicais que reside a chave-mestra da luta contra o narcotráfico. Combinando os embargos da cocaína [2] a uma intensificação do combate a entrada dos precursores químicos em território nacional, essa eliminação pacífica das culturas excedentes deveria, segundo ele, contribuir para interromper e estancar as atividades ilícitas. Uma lógica matemática.



[1] “Em diciembre comienza industrialización de la coca y Venezuela comprará toda la producción”, ABI, La Paz, 8 outubro 2006.

[2] Entre 1º de janeiro e 3 de agosto de 2006, a Bolívia apreendeu 8343 quilos de cocaína, contra 6312 no mesmo período em 2005. Além disso, 4070 laboratórios de pasta de coca e de cocaína foram destruídos em 2006, mais de 50%, se comparado a 2005.


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