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LITERATURA

Seis

Para boa parte dos seguidores de Pitágoras, o divino Um era a manifestação inteligível do universo, o Dois colocava diante do homem a presença dos opostos, o Três escancarava os portais do múltiplo

Diego Viana

(06/06/2008)

Um algarismo enorme atrai meu olhar. Salta do canto inferior da página ímpar do jornal gratuito, desses distribuídos na goela do metrô por gente jovem, afoita e uniformizada. Nada mais fácil, enquanto a composição vai sacolejando e arranhando os trilhos, do que passar os olhos pelos títulos das matérias, sem guardar nenhuma informação. Mas do número, não se escapa. Ele esperneia, ulula, berra a quantidade em sua voz aguda insuportável. O quadro cor-de-abóbora, dominado pelas curvas anti-horárias de um "seis", parece feito para hipnotizar o leitor, pobre coitado, que só queria aliviar o tempo da viagem.

Caí na armadilha. Quando consegui sair do transe, fui conferir a que correspondia aquele número. Nos esquecemos, às vezes, de que um número isolado não é nada, não diz nada, não mente, não confirma, não prova coisa alguma. Um seis largado na página seria um desenho e só. Li o que vinha abaixo, em letra miúda, redigido para não ser olhado por ninguém. O tal seis era, afinal de contas, o número de combatentes da Primeira Grande Guerra que ainda vive, agora que faleceu um centenário senhor austríaco.

Meu primeiro impulso seria dizer que perdi meu tempo, a informação é irrelevante, alguém que lutou na Primeira Guerra tem pelo menos 107 anos. Desde quando isso é notícia? Mas percebi que, se o dado não tem importância, o episódio tem.

Muito tempo atrás, houve seitas e filosofias que acreditaram na divindade do número. Dos números, aliás. Para boa parte dos seguidores de Pitágoras, o divino Um era a manifestação inteligível do universo, o Dois colocava diante do homem a presença dos opostos, o Três escancarava os portais do múltiplo.

Iluminados, desenvolvidos, modernizados, deixamos de lado esse conceito de divindade. Mas foi por um bom motivo: não precisamos mais dele. Guardamos apenas o número, senhor da situação, imperador das páginas de jornal. Tudo deve se submeter ao número, até os fatos. Trinta mil são as toneladas de trigo que se consomem a cada dia na França. Quarenta e dois passes errados deu a Seleção Brasileira no jogo contra o Canadá. Seis combatentes da Primeira Guerra Mundial ainda não bateram as botas.

Que maldição para esses bravos homens, viver tanto tempo! Tivessem morrido com setenta ou oitenta anos, como todo mundo, e sua família não estaria submetida a telefonemas diários de repórteres, perguntando se tudo vai bem. Quanto tempo terão de ficar à espera, os profissionais, até poder estampar em alguma página ímpar um magnífico cinco branco sobre fundo cor-de-abóbora? Vai depender da saúde desses senhores e do zelo das enfermeiras.

Que a imprensa se apraz em explorar o lado mais macabro dos leitores, não é novidade para ninguém. Há muito a vida é não é nada diante da manchete. Nem a vida, nem qualquer coisa que haja nela. Notável, isso sim, é constatar que o número paira ainda mais alto. Quando muito jovens, esses seis homens velhos foram combatentes por imposição de seus governos. Eram patriotas? Alistaram-se espontaneamente? Talvez tenham realizado feitos de bravura, mas tampouco é impossível que algum tenha fugido ao confronto, com a cabeça escondida no barranco da trincheira, enquanto os companheiros recebiam o fogo inimigo. Pela idade, o mais provável é que o Tratado de Versalhes tenha sido assinado enquanto algum deles ainda seguia de trem para o front.

Pouco importa. É certo que, findo o conflito, voltaram a suas casas, arrumaram empregos e vestiram o paletó do anonimato. Como todo mundo. Na guerra seguinte, não tinham mais idade para o combate direto. Alguns talvez tenham sido pacifistas, outros nazistas, colaboradores ou espiões, correspondentes de guerra ou emigrados. O mesmo destino de todos os rapazes que sobreviveram às batalhas do Marne, do Somme ou de Gallipoli.

Ao longo do século 20, tiveram filhos e netos, trabalharam, depois se aposentaram e foram viver no interior. Quando enviuvaram, ainda ninguém se lembrava deles além de seus círculos de amizade e família. Vidas perfeitamente normais, como a dos antigos colegas que iam falecendo aos poucos, com setenta, oitenta, noventa anos. Esses seis remanescentes foram salvos do esquecimento pelo número e nada mais. Como na fila de espera de uma repartição pública, vão-lhes sendo atribuídas senhas à medida que deixam este mundo, numa contagem regressiva cujo maior propósito parece ser lembrá-los de que seu tempo passou.

Mas não é nada disso. Só o que querem os jornalistas é estampar o número, enorme, mágico, misterioso. E quando restar apenas um, não haverá quem lhe entregue um troféu em seu leito de hospital, ele que será a única barreira entre o papel e o zero, o mais transcendente de todos os algarismos. Temo pelo dia em que abrirei o jornal para ser confrontado com o fundo cor-de-abóbora e o círculo branco, provavelmente no alto da página, em plena apoteose.

Nesse dia, não haverá mais ex-combatentes da Primeira Guerra Mundial sobre a Terra. Toca a perseguir os velhinhos da Segunda!



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