Bom senso e bom gosto
Segundo fórum regional de debates sobre o Plano Nacional de Cultura volta a atrair — agora em Fortaleza — centenas de produtores. Participantes sugerem reduzir o peso do eixo Rio-São Paulo, expressam posições divergentes sobre direitos autorais e questionam sentidos da Lei Rouanet
Marília Arantes
Palavra 41
Notas sobre contos machadianos
Nem tudo da farta produção de Machado de Assis, quase uma centena e meia de narrativas breves, merece ser lido
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A traição da pátria e outras suposições literárias
Os escritores estrangeiros são recebidos aqui — e não há diferença se bem ou mal: eles são sempre mais importantes — com um tipo de sorriso bastante comum
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Um portal de papel
Solaris é uma revista-portal que não pode ser encontrada em livrarias ou nas bancas – porque ela é mais uma ação viral que uma publicação
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As histórias da história de Biafra
“Meio sol amarelo”, de Chimamanda Ngozi Adichie, põe a história da tragédia de Biafra no mapa da geração Google
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Rodrigo Gurgel
Memórias do Subdesenvolvimento, arte e revoluções
Edmundo Desnoes, romancista e inspirador de um filme que marcou o cinema cubano, conversa sobre seu processo criativo, as encruzilhadas da Ilha, política e literatura na América Latina, a banalidade do consumo e a importância do ato de narrar, como sentido da própria existência humana
Iana Cossoy Paro, Javier Cencig, Moara Passoni, Thiago Mendonça
Palavra 40
Ficção e ensaio
Em Philip Roth, como em J. M. Coetzee, a arte não redime nem consola
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Jornada antiépica
Na saga de Serapião Filogônio encontramos ecos de aventureiros arquetípicos, como Odisseu e Enéas
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Jean Grosjean, dois poemas
Enquanto a paisagem se reduz ao essencial, estes poemas nos falam dos movimentos interiores do “eu”, de suas hesitações
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Aquém do enigma
Pela terceira vez, teria de construir uma existência nova a partir de uma que já era inteira. Não que rejeitasse o desígnio. A esse ponto, já fervilhava o desejo de demolir noção atrás de noção, invadir uma a uma as camadas da outra vida, superar as definições reduzidas em nome da interminável descoberta
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Rodrigo Gurgel
Sene-Sene-Senegal
— Táxi?
— Não, obrigado.
— Tem certeza?
— Tenho.
— Mas alguém vem te buscar?
Daniel Cariello
Gilberto Gil: LadoA e LadoB
Único artista a dirigir o ministério da Cultura até hoje, ele foi também o primeiro ministro a traçar políticas públicas efetivas para a produção simbólica. Valorizou a diversidade e a autonomia. Faltou assegurar recursos condizentes, e evitar que fossem canalizados para o marketing empresarial
Eleilson Leite
O que é pedagógico?
A revolução que a internet promove nas relações sociais afetará radicalmente as trocas de informações e conhecimentos. Como a pegadogia está lidando com estas mudanças? De que modo se dispõe a lidar com modos de aprender e ferramentas que estão se tornando universais?
Hernani Dimantas
Imitar a "realidade" — e questionar seu valor...
Em Waltz With Bashir, Ari Folman usa animação para narrar episódio da história de Israel. Mas não retrata fatos, e sim memórias e sonhos — até o surpreendente final. Artifício traz à tona questões instigantes. Há documentário "objetivo"? Pode-se enxergar o mundo sem as lentes do que somos?
Bruno Carmelo
Consumidores, uni-vos!
Há um truque banal no recém-lançado "manifesto" dos publicitários. Ao apresentar a propaganda como base da liberdade de expressão, ele despreza público e sociedade. Mas ignora os movimentos pela radicalização da democracia — que exigem, inclusive, um novo padrão de propaganda
Ivana Bentes
Palavra 39
Vice-Verse 4
No quarto número de nossa seção Vice-Verse, coordenada pela jornalista e tradutora Marina Della Valle e dedicada a traduções de poesia e prosa em língua inglesa, apresentamos poemas de Ezra Pound, do livro Lustra.
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A Defesa Lujin – ou a precisão literária
Vladimir Nabokov escrevia um texto como quem tece uma estrutura delicada, respeitando a etimologia do texto como tessitura, como tecido, algo que é mais tramado e costurado do que criado do nada.
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Os limites da doença literária
Jaboc, de Otto Leopoldo Winck, é um livro em homenagem às palavras, para que elas se guardem até na desgraça por vezes incompreensível que é escrever a qualquer custo.
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Portas e vãos
Qual seria a desse cara? Por um instante imaginei que talvez sua preferência sexual fosse outra, e isso me deixou preocupado, ou talvez aquilo ainda fosse parte de algum plano macabro
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Rodrigo Gurgel
A alma do negócio
A publicidade não pode espelhar a realidade – e este talvez seja seu grande malefício sócio-cultural. Toda propaganda é enganosa e, quanto mais enganosa, melhor. Não importa que a harmonia doméstica nada tenha a ver com o uso de um creme dental ou com a margarina Qualy
Guilherme Scalzilli
Fernando Solanas: entre a Terra e as Nuvens, o Sonho
Em entrevista especial para Le Monde Diplomatique Brasil, um dos grandes cineastas latino-americanos contemporâneos descreve sua formação política, explica como ela influenciou sua obra e defende uma estética que articule investigação profunda da realidade com invenção formal incessante
Moara Passoni, Javier Cencig
Incertezas e cobiça sobre o petróleo do Brasil
A descoberta das imensas jazidas do pré-sal convida a um debate, que a mídia insiste em omitir. Quem irá tirar proveito dos recursos de nosso subsolo? Por que manter uma legislação que favorece as transnacionais? Que alternativas permitiriam usar as reservas em favor das maiorias?
Sergio Ferolla, Paulo Metri
O Hip Hop nunca foi tão pop
Vinte e cinco anos depois de despontar no Brasil, a cultura hip-hop está bombando como nunca. Ligou-se ao showbizz, mas é capaz de manter, mesmo assim, seus princípios e essência. É claramente periférica. Dez eventos a celebram, a partir deste fim de semana, em São Paulo
Eleilson Leite
Palavra 38
Quase matei
Aperto a bolsa contra o peito, cerro as pálpebras e encosto-me à pia, esperando que a vertigem se dissipe. Ouço, então, com alguma clareza, meu nome. Chamado, como num lamento, repetidas vezes.
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Sobre a Flip 2008
Cees Nooteboom e Fernando Vallejo – estávamos diante de duas realidades completamente distintas: a latinidade tosca e furibunda do sul-americano em contraposição à placidez fleumática do norte-europeu puro-sangue.
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A nação e o baile
Como praticamente tudo neste início de século, o nacionalismo sobrevive transferido para a esfera das relações pessoais. Os dialetos, a música, o futebol, os ídolos, a cozinha, as paisagens.
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Em nome do pai
Para encontrar prazer na leitura de O conto do amor, o leitor precisa suspender suas crenças e se entregar à premissa de Contardo Calligaris – acredite ou não em reencarnação ou vidas passadas.
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Rodrigo Gurgel
Os Quatrocentos do Sarau da Cooperifa
Contra a vontade de muitos e pela vontade de muitos, centenas estavam comungando a palavra, resistindo à mediocridade, ao marasmo e a abulia que parece ter tomado conta dos corações da maioria. Quixotes! O melhor é que tudo isso não nos foi dado nem herdado, foi conquistado
Sérgio Vaz
Queer: política sexual do noise
Nem se trata de encontrar espaço para o ruído, mas de roer lentamente o sexo com partitura, o desejo como coreografia e os corpos com tonalidade fixa. E a parte mais excitante: tudo soa. Tudo é som. Cada ínfima parte do mundo tem seu próprio ruído. Isso é noise, isso é sexo. Democracia
Fabiane Borges, Hilan Bensusan
O universal e o latino-americano: diálogos entrecruzados
Jornalismo-cinema: numa mesa imaginária, colagem de falas reais, personagens presentes ao 3º Festival, em São Paulo, debatem tanto as condições de produção e distribuição do cinema latino-americano quanto a possibilidade de um projeto estético que expresse a identidade da região
Javier Cencig, Moara Passoni
Construir outro mundo, em meio à tempestade
O signo da próxima década pode ser a turbulência. O declínio do poder norte-americano, agora evidente, é bem-vindo — mas tende a provocar, no curto prazo, desordens e ameaças. Será preciso evitar abismos. Mas, como em toda a encruzilhada, haverá espaço para alternativas e escolhas
Immanuel Wallerstein
Palavra 37
Jorge Gaitán Durán: a poesia no alto de um instante
Uma impressionante fusão entre erotismo e morte, luz e sombra
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Lídia Jorge, esse amor exigente
O vento assobiando nas gruas, oitavo romance da autora portuguesa, exige tempo e dedicação, mas recompensa com uma obra única, que perdura na mente após o fim da leitura
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Nada de novo
Poema
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O vento a areia e o nada
Antônio Xerxenesky conduz o leitor ao inevitável clichê da montanha-russa de sentimentos: numa página, altíssimas gargalhadas; na seguinte, a torcida pelo casal; mais à frente, uma vontade descomunal de duelar. Ou então de saber para onde o vento leva a areia
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Rodrigo Gurgel
Escopeta não é chocalho
Ao reativarem a IV Frota, os EUA sugerem que têm força para, por exemplo, bloquear o comércio externo da América do Sul. Em teoria, a disposição de um estado mais poderoso a exercer violência só pode ser enfrentada por alianças entre parceiros que consigam superar suas próprias rivalidades
José Luís Fiori
Para ir além de minérios e agronegócio
O secretário que dirige a formulação do Plano Nacional de Cultura sustenta que os bens simbólicos serão a base da economia no século 21 e expõe o novo projeto de Gilberto Gil: uma estrutura permanente de apoio aos produtores culturais. Também em debate: Lei Rouanet, direitos autorais e periferias
Carolina Gutierrez, Marília Arantes
Em direção à luz?
Um coletivo britânico atuante na galáxia do altermundialismo examina uma questão intrigante: quais são as vitórias, nas lutas por outro mundo possível? Balanço, que inclui mudança climática, G8, América do Sul e periferias, sugere: as respostas costumam estar onde é menos fácil encontrá-las...
Coletivo Turbulence
Imagens de um continente em busca de si mesmo
Filmes, debates e oficinas expõem, em São Paulo, estado da produção cinematográfica na América Latina. Festival reflete momento em que tanto o continente quanto seu cinema buscam novos rumos — mas já não o fazem com as lentes e projetos que marcaram o século 20
Iana Cossoy Paro
"Meu bairro era pobre, mas ficava bem bonito metido num luar"
Mídia tradicional multiplica referências a Machado e a Rosa, rendendo-lhes homenagens previsíveis e banais. Coluna destaca outro centenário: o de Solano Trindade. Poeta, dramaturgo, ator e artista plástico, ele cantou a dignidade, as lutas, amores e dores dos negros e dos que vivem do trabalho
Eleilson Leite
Palavra 36
No Pequod - em busca de Moby Dick
Moby Dick conquistou admiradores nos mais diferentes quadrantes do planeta. Albert Camus, um deles, chamou seu autor de “o Homero do Pacífico”
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Um discurso quando o desejo é calar
Somos criados para aplaudir a mais dramática das desgraças; estamos acostumados a rir do sofrimento e derreter de comiseração pelas misérias. Mas a reação que temos diante de uma alegria pacata, digamos, de atirar pedrinhas no lago, é bem diferente. Bocejamos, viramos a página, mudamos de canal. A bonomia é coisa muito fastidiosa, sobretudo a dos outros
Aqui
Odradek e os personagens
Como lidar com o peso daquilo que é criação e que é inexistente, mas que ainda assim sobrevive ao tempo e nunca se desgasta?
Aqui
O dia da morte
Quando demoramos a morrer, logo entramos na lista dos que já morreram. É inevitável. Não temos o direito de não morrer
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Rodrigo Gurgel
Exército 3 x 0 Providência
Vamos fazer de conta que esses três jovens são brancos e da classe
média. Vamos abraçar a Lagoa Rodrigo de Freitas, usar fitinha branca. Chama a Hebe, a Ivete. Ué, cadê todo mundo, porra? Quando morre pobre ninguém quer... E o silêncio é mais covarde e violento do que bala de fuzil
Sérgio Vaz
Mil vezes favela
Tragicamente simbólicos, os assassinatos da Previdência põem a nu o que a República brasileira tem de pior. Os jovens mortos habitavam um morro que evoca Canudos, e do qual surgiu o próprio termo favela. O episódio revela a persistência do apartheid social — que a mídia se empenha em disfarçar...
Alexandre Machado Rosa
Em julgamento, a igualdade
Dois ativistas do movimento em favor das cotas contam como se articula a luta para que o STF as ratifique, sustentam que apenas uma minoria rejeita as políticas de inclusão racial e afirmam que está em jogo o próprio direito da sociedade a ir além da democracia institucional
Bruno Cava
Adoção, comércio e poesia
Ao retratar o assalariamento de famílias adotivas, Foster Child expõe abismo social e alienação nas Filipinas. Mas o faz sem esquecer os laços de ternura que unem os pais de aluguel a seus filhos temporários, num sinal de que pode persistir humanidade, em meio ao que é precário ao extremo
Bruno Carmelo
Josué de Castro, pensador indispensável
No momento em que a humanidade se depara com crises simultâneas de mudança climática e escassez de alimentos, vale a pena revisitar um pernambucano que dirigiu a FAO. Há meio século, ele já sugeria que só se pode combater a fome distribuindo renda e respeitando os limites da natureza
Marilza de Melo Foucher
Sapatos de pano contra o vazio de afetos
Como na antiga lenda, vieram as pomposas estratégias do marketing, em suas carruagens douradas de sedução, propondo-se a oferecer às crianças um mundo de maravilhas e tratando de atirar ao fogo as criações. Mas atenção: há meios de construir outra infância
Maria Helena Masquetti
Palavra 35
Os contos de Flannery O’Connor
Há quem tenha comparado Flannery O’Connor com Tchekhov, o que pode não dizer muito, já que se popularizou certa idéia, bastante redutora, de que qualquer conto de “atmosfera” seria tchekhoviano. Mas a comparação pode ser procedente, se considerarmos a objetividade da frase de Tchekhov, e a materialidade de suas descrições, muito ao gosto de O’Connor
Aqui
Gente como a gente — ou algo parecido
Diferente de muitos de sua geração, Miranda July não é dada a pirotecnias visuais ou malabarismos narrativos. Suas histórias são bem diretas, e os personagens densamente construídos
Aqui
Uma simples pergunta ou um profundo questionamento?
A literatura me atraiu porque nela encontrei histórias distintas, personagens mais humanos do que os reais, mundos que talvez eu nunca alcance
Aqui
O grande concerto
A mão ensangüentada não segurava mais a gilete, mas ela não devia estar longe. Os dedos semidobrados estavam pretos, e em volta do pulso a branquidão extrema da pele era realçada por uma pulseira de sangue seco
Aqui
Pequenos espaços, grandes problemas
— E aí escolheram a resposta mais criativa.
— Que pergunta?
— "Qual a diferença entre a mulher e a televisão?"
— E o que você respondeu?
— O controle remoto!
Daniel Cariello
Leres em tilt
— Sabe, adoro escutar essa língua.
— E você entende?
— Sim, claro. Sou brasileira.
— Ué. E por que não fala com a gente em português?
— Boa idéia! Sabe, j’aime beaucoup morar em Paris.
Daniel Cariello
Palavra 34
Pierre Jean Jouve, dois poemas
Murilo Mendes escreveu sobre Pierre Jean Jouve em duas oportunidades, para os "Retratos-relâmpago" e para os "Papiers", textos em francês reunidos na edição cuidadosa de Luciana Stegagno Picchio
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Sexo como missão
Em "Pantaleão e as visitadoras", de Vargas Llosa, a sofisticação do risível está justamente nas sutilezas que o cercam e produzem o humor no seu sentido mais elaborado: no lugar que ocupa entre o cômico e o trágico
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E quem os chineses não surpreendem?
Em coletânea de colunas publicadas no jornal inglês "The Guardian", Xinran se esforça para explicar as diferenças entre a China e o Ocidente – e acaba engrossando o coro dos atarantados pela complexidade e velocidade das mudanças naquele gigante asiático
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Um episódio em parte real
Cheguei a fantasiar que o catalisador de toda a história desapareceria de repente ou revelaria ser um demônio, um duende, qualquer ser sobrenatural. Mas qual, o velho continuou encalacrado, olhos nos joelhos, como se nada se passasse à sua volta
Aqui
Rodrigo Gurgel
Um passo à frente e você já não está mais no mesmo lugar
Escola Pernambucana de Circo organiza, em festa, seu centro de arte-educação. Ao invés de adotar postura "profissionalizante", iniciativa busca emancipar. Por isso, aposta na qualidade artística, técnica e cultural de seu trabalho, e foge do conceito de "arte para pobre”
Eleilson Leite
Arigatô, monsieur
. No bairro chinês tem um McDonalds com cardápio em chinês. Ou em japonês, sei lá.
. Apesar de ter sido criado por um japonês, o Miojo e seus derivados são chamados aqui de "macarrão chinês".
. O bairro chinês, na verdade, fica na Praça da Itália.
Daniel Cariello
Palavra 33
Um presidente negro que a história esqueceu
Se tivesse nascido uns trinta ou quarenta anos antes, Lobato provavelmente teria sido convidado para fazer parte da Fabian Society, que tinha entre seus membros H. G. Wells e Bernard Shaw, pregava o socialismo científico ou utópico e previa o progresso da humanidade por meio da ciência
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A lira múltipla de Lope de Vega
Lope Félix de Vega Carpio, chamado por Miguel de Cervantes de “monstro da natureza”, é um caso singular de fertilidade criativa
Aqui
A morte contemporânea
Em “Ruído branco”, tecnologia e consumo são citados em profusão, e não apenas como parte do modo de vida prático, mas como elementos com que os personagens também criam ligações íntimas de pavor ou fascínio
Aqui
A pequena e valiosa glória dos prêmios literários
No caso de Joanna Kavenna, apesar de ter 34 anos, foi preciso um amadurecimento de sete romances terminados e rejeitados pelas editoras para que finalmente tivesse um reconhecimento
Aqui
Rodrigo Gurgel
Um quadro, três histórias
Verdadeiros samurais modernos, munidos de máquinas fotográficas ao invés de espadas, os japoneses não se importaram com as dimensões da obra e nem com o aviso, e saíram clicando em uma velocidade digna de Guiness. Do livro dos recordes, claro, não da cerveja
Daniel Cariello
Plano Nacional de Cultura: realidade ou ficção?
Ministério lança documento ousado, que estabelece, pela primeira vez, política cultural para o país. Dúvida: a iniciativa será capaz de driblar a falta de recursos e a cegueira histórica do Estado em relação à produção simbólica? Coluna convida os leitores a debate e mobilização sobre o tema
Eleilson Leite
Palavra 32
Domingo
A voz do homem está mais baixa e rouca, como se ele fosse chorar. Aqui, ó, aqui! Os olhos parecem que vão saltar do rosto e rolar na sarjeta. Agarra a mão e guia para a virilha. Há ali uma coisa cega e sem nome
Aqui
Triste sina
Quem o visse, se o visse, de relance, nesse instante após a metamorfose, não sabia o que via, o que tinha visto, um vulto fugaz, um tiro veloz, um vasto susto, um engano da vista
Aqui
Pêlo amargo na narina
Ainda não havia feito a barba. Áspera. E, na narina, aquele pêlo. Pirata. Não, não era seu aquilo. Um pêlo que crescia de dentro pra fora, a incomodar-lhe, a roçar-lhe o buço, a lembrar-lhe a existência, minuto a minuto, a roubar-lhe tempo
Aqui
Seis
Para boa parte dos seguidores de Pitágoras, o divino Um era a manifestação inteligível do universo, o Dois colocava diante do homem a presença dos opostos, o Três escancarava os portais do múltiplo
Aqui
Rodrigo Gurgel
Realidade, mentira ou Jogo de Cena?
Nova obra de Eduardo Coutinho é um "filme-tese" complexo e surpreendente. Ao embaralhar verdade e ficção, em depoimentos de mulheres que falam de parto e morte, diretor parece interessado em questionar as barreiras entre a representação do real e a do imaginário
Bruno Carmelo
Diferentes platôs
Nossa sociedade vive em diferentes platôs. São muitas redes que se interconectam. Formam as redes de informação. O que é físico torna-se virtual e, catalisado, retorna ao físico gerando ações interligadas. O desafio é entender a rede como um movimento múltiplo
Hernani Dimantas
Salamaleque!
— Bra bra bra minha mulher bra bra bra bra.
— Eu sei, eu sei. Também acharia estranho o fato de a moto sumir.
— Bra bra bra bra bra loja... Gentil bra bra.
— Que isso... Precisando é só chamar.
Daniel Cariello
Semeando asas na quebrada paulistana
De como a trupe teatral Pombas Urbanas, criada por um peruano, chegou a mudar o nome do Brasil, trocou os palcos pelas ruas, sofreu a perda trágica de seu criador mas reviveu, animada pela gente forte da periferia — para onde regressou e de onde não pretende se afastar
Eleilson Leite
Futebol, tráfico de atletas e conivência do Estado
Dez anos após a aprovação da Lei Pelé, Executivo e Congresso finalmente estudam medidas para coibir a evasão clandestina de jogadores. Mas, influenciadas pela lógica de mercado e pelo desejo de satisfazer os clubes, as propostas em debate podem agravar o problema, ao invés de saná-lo
Alexandre Machado Rosa
A ópera, a guerra e a ressurreição russa
Como já fizera três vezes, desde o século 18, o país ressurge, superando o trauma da derrota soviética na Guerra Fria. Além de grande potência geopolítica, recompôs sua base econômica e cresce aceleradamente. O "espírito russo" parece saltar da obra de Prokofiev direto para a vida real
José Luís Fiori
Palavra 31
Quando escrever deixou de ser uma arte
Hoje, o jornal que passa por debaixo da minha porta, salvo honradas exceções, é ilegível. Já fiz pesquisas em jornais antigos na Biblioteca Nacional e cheguei a sentir os olhos marejados – de raiva – pela comparação com o jornal pelo qual pago hoje
Aqui
Dois poemas de Erín Moure
No terceiro número de nossa seção dedicada à tradução de poesia e prosa em língua inglesa, coordenada pela jornalista e tradutora Marina Della Valle, apresentamos dois poemas de Erín Moure
Aqui
Cinco aspectos da imagem na literatura
Creio que a insistência em tentar reconhecer (inutilmente) na literatura contemporânea a semelhança com roteiros de filmes parte apenas primeiramente do leitor, que não consegue mais diferenciar de forma clara as duas (ou mais) artes
Aqui
A casa no morro – Final
E eu não tinha uma droga de um par de algemas. Puxei o cadarço do meu
tênis e o usei para amarrar os pulsos de Joana. Apertei o nó com força.
Ela não resistiu. Pareceu-me que estava sorrindo
Aqui
Rodrigo Gurgel
Um tapinha não dói em quem se acostumou com a dor
Carinho é gostoso, tapa é ruim. De quantas pesquisas necessitamos para ter certeza disso? Lembrando Belchior em uma outra música, não precisamos que nos digam de que lado nasce o sol porque bate lá nosso coração — e a esperança de um futuro melhor para nossas crianças
Maria Helena Masquetti
Roteiro de viagem
— Essa, não.
— Não quer visitar a Torre Eiffel?
— Quero não.
— Mas todo mundo que vai a Paris visita.
— Pois eu vou ser o primeiro a não ir.
Daniel Cariello
Humildade, dignidade e proceder
Agenda da Periferia completa um ano de publicação. Como diria Sergio Vaz, não praticamos jornalismo — "jogamos futebol de várzea no papel". Fazê-la é exercício de persistência, crença e doação. O maior sinal de êxito é o respeito que o projeto adquriu no movimento cultural das quebradas
Eleilson Leite
Palavra 30
Na rua, outra rua
De manhã, domingo, o tapete cristalino sobre o chão denuncia a madrugada em que a rua, tão desimportante, pertenceu a pessoas que costumam só ter com ela uma relação de passagem ou compromisso. O bar, portas fechadas, recobriu-se de seu aspecto simplório, por trás da bandeira puída
Aqui
Clea
Histórias novas, e algumas reinterpretadas, vêm outra vez salvar o romance do pecado da falta de originalidade, tendo em vista a existência de seus antecessores. Passei por quase todas elas com o desdém de um connaisseur enfastiado
Aqui
A casa no morro – Parte 4
Iuri talvez se aborrecesse com minha afirmação. Ele preferia chegar
pelas bordas. Senti que me lançava um de seus olhares de censura, mas eu
estava prestando atenção na reação de Jônatas. O homem não se moveu. Não
havia como ficar mais branco. Porque havia desconfiado do que estava por
vir
Aqui
*
Um poema de Pablo Simpson
Aqui
Rodrigo Gurgel
Por uma nova resistência palestina
No 60º aniversário de Israel, Ignácio Ramonet entrevista Mustafá Barghouti, líder da Iniciativa Nacional Palestina. Ele vê o Estado judeu dominado pelo aparato industrial-militar e propõe, contra a ocupação de seu país, uma luta de massas e não-violenta. alternativa à Al Fatah e ao Hamás
Ignacio Ramonet
Mercenários brasileiros na Legião Estrangeira
Atraídos por salários, a chance de apagar o passado e aventuras, dezenas de brazucas alistam-se, todos os anos, no legendário exército de aluguel francês. Nossa repórter conseguiu deles revelações sobre a condição de soldados de um pátria alheia, em missões cujo sentido desconhecem
Maranúbia Barbosa
Carta aos conterrâneos, após a queda de Marina
Cadê a capacidade de indignação, diante de certos erros cometidos pelo governo? Se o próprio presidente reconhece a importância da sociedade civil, por que nos calarmos, diante de fatos que revelam a predominância, no Planalto, de um desenvolvimentismo que despreza a natureza?
Marilza de Melo Foucher
Em O ano 01, a força de 1968
Produzido no início dos anos 70, com múltiplas referências à estética HQ, filme de Jacques Doillon imagina uma greve geral contra o capitalismo. Contra-sistema, contracultura, contra-cinema. Deliciosa, absurda e irreverente anarquia, indispensável quando o sistema se pretende avassalador
Bruno Carmelo
Calendário de inverno
— No fim das contas, o que importa é que o verão está chegando. Quais são seus planos?
— Eu vou pro Brasil.
— Pro Brasil, pro inverno de lá? E vai fazer o quê?
— Como assim? Usar todos esses casacos que comprei, claro.
Daniel Cariello
A revolução cultural dos motoboys
Um evento em São Paulo, um site inusitado e dois filmes ajudam a revelar a vida e cultura destes personagens de nossas metrópoles. Sempre oprimidos, por vezes violentos, eles vivem quase todos na periferia, são a própria metáfora do caos urbano e estão construindo uma cultura peculiar
Eleilson Leite
Palavra 29
Ficção Científica no Brasil: grandes esperanças
A história está longe de terminar para a FC brasileira. Graças às comunidades de Web, novos autores, que não tinham a menor ligação com o CLFC nem com os autores citados anteriormente, foram surgindo e ocupando um lugar fundamental na literatura do gênero e em suas discussões críticas
Aqui
Joyce Carol Oates e sua ciranda de meninas más
Dona de uma visão extremamente singular do mundo, a autora demonstra maestria ao tecer enredos que, no melhor estilo do suspense norte-americano, muitas vezes dependem do elemento surpresa, do engenho ao manipular os elementos narrativos para causar sensações e sugestões
Aqui
A leitura como exercício da individualidade
Um dos momentos em que mais se pode reconhecer, reconquistar e exercer a individualidade é durante uma lenta leitura. A mim, a literatura vale muito mais, ou melhor, tem seu real valor quando a atenção despretensiosa mas inevitável é o que move a leitura
Aqui
A casa no morro – Parte 3
O cachorro tinha uma mancha de sangue na cabeça e estava próximo a uma porta que devia sair para o lado de fora. O chão me pareceu limpo. Ou sujo o suficiente para que o sangue sequer aparecesse. Inclinei-me por sobre o cachorro e olhei a porta. Dedos na maçaneta
Aqui
Rodrigo Gurgel
Por uma pornografia livre
Contra a mercantilização dos desejos e o patriarcado falocêntrico, queremos fazer uma pornografia com o odor de Walt Whitman. Oceano-sexual, via-láctea sexual, brisa-sexual, esperando-por-você-sexual. Uma pornografia livre como uma grafia do corpo livre, ou uma geografia da alma livre
Fabiane Borges, Hilan Bensusan
Manos e Minas no horário nobre
Estréia na TV Cultura programa que aborda cena cultural da periferia com criatividade, sem espetacularização e a partir do olhar dos artistas do subúrbio. Iniciativa lembra o histórico Fábrica do Som, mas revela que universo social da juventunde já não é dominado pelos brancos, nem pela classe média
Eleilson Leite
Palavra 28
Realismo na Roma Antiga
É possível imaginar que o sonho de Petrônio seria o de criar uma obra que não fosse uma imitação piorada do modelo, mas uma outra, capaz de expressar essa inadequação; para isso, optou por um gênero ainda pouco prestigiado, o romance, e de um estilo baixo, que não abrisse mão da paródia aos clássicos. O resultado é uma obra de caráter realista
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A casa no morro – Parte 2
Ao fim do percurso pude ver uma casa pequena – suja como tudo mais naquela região. Com o carro parado, Iuri abriu a porta e foi até um matagal amarelado na direção oposta da casa. Daquele lado o mato seguia até onde eu podia enxergar, mas por todos os outros era tudo uma terra seca e pálida. E a casa velha. Para trás dela era possível enxergar uma parte de um carro vermelho. O Escort.
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Poemas
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Uma fábula de paredes
Enquanto espia o chuvisco sobre a folhagem da rua, não percebe como a memória apagou os sofrimentos e fechou as feridas. Restam só as imagens de terras exóticas que o fascinaram, lugares não raro ausentes dos mapas
Aqui
Rodrigo Gurgel
Eu x Zidane
"Senti o peso e a responsabilidade. 160 milhões de brasileiros e 60 milhões de italianos esperavam ansiosos por alguma ação minha. Respirei fundo e, imitando o meio-campista francês, meti a testa no peito do cara, com mais força do que o previsto"
Daniel Cariello
Dengue: quando ninguém é responsável
Num lastimável jogo de omissões, até as belezas naturais e o clima invejável do Rio de Janeiro viram bodes expiatórios para a epidemia. Coluna também aborda atitude da sociedade diante do aquecimento, frente parlamentar "ambientalista", reciclador de cimento, energia do arroz e outros temas
Luiz André Ferreira
Uma vida absurda, aceita como natural
Cada novo aumento da produção automobilística é comemorado pela mídia. Compram-se automóveis em 99 prestações. Entupidas, as cidades param. Estaremos, como diz Paulo Mendes da Rocha, nos dedicando a aprimorar a máquina de produzir veneno que inventamos?
José Correa Leite
Zona do Crime, alienação e fascismo social
Três garotos favelados aproveitam-se de uma pane elétrica para vencer os muros de um condomínio de luxo. Em seu filme de estréia, o mexicano Rodrigo Plá vê a caçada movida contra eles como metáfora de uma sociedade que pratica a brutalidade permanentemente, quase sem enxergar que o faz
Bruno Carmelo
Pequenas revoluções
Em São Paulo, mais de cem projetos culturais passam a ter financiamento público, por meio do VAI. Quase sempre propostos por jovens, e a partir das quebradas, eles revelam as raízes e o amadurecimento rápido da arte nas periferias. Também indicam uma interessante preferência pela literatura
Eleilson Leite
Palavra 27
Ficção Científica: sobre nós e nossa condição
Lá fora, nos Estados Unidos e na Europa, a ficção científica já saiu da infância há muito tempo. A zona de sombra, a zona do crepúsculo, a Twilight Zone da incerteza aumenta cada vez mais. Os tons de cinza estão cada vez mais ricos. E é nessas frestas entre os tentáculos da besta que a ficção científica atual tem encontrado seu nicho
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O bestiário do Cristo
Sem a desconfiança dos primeiros homens da Igreja, ciosos em preservar o dogma cristão contra aquilo que identificavam como um vestígio das idolatrias pagãs, Charbonneau-Lassay vai buscar não só a interpretação religiosa, mas as numerosas fontes pagãs e o modo como os primeiros cristãos se apropriaram de antigos emblemas locais: a águia, o golfinho, a fênix, o íbis no Egito, o leão em Roma
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A casa no morro – Parte 1
Suponhamos um crime. O cenário: um bar na Zona Oeste de São Paulo, em alguma curva escura nos arredores da estação de trem da Lapa. Seria uma hora qualquer muito próxima das duas da manhã, hora em que a dona do bar costumava fechar a casa. Ela, na verdade, a filha do dono. Uma mocinha miúda de cabelos muito encaracolados. Ela os amarrava em um rabo-de-cavalo e os escondia sob uma boina
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Se fosse ficção
Talvez a palavra resolva seguir ao lado da literatura, mas também se mantém sozinha, também é seu próprio alicerce. Apenas ela pode se narrar
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Rodrigo Gurgel
Todas as mulheres do mundo
Como a condição feminina mudou ao longo da história. De primeira dama do paraíso, virgem santíssima e carolas a Madonas, Leilas Diniz e mulheres-maravilha — muitas vezes à beira de um ataque de nervos. Preconceitos, assédios, triplas jornadas de trabalho: a mulher do século 21
Cláudio César Dutra de Souza, Sílvia Ferabolli
Lia de Itamaracá não conta no PIB
O indicador que deveria medir a riqueza nacional ignora as relações culturais e afetivas estabelecidas num espetáculo artístico. Também não considera trabalho a criação dos filhos. Omissões como estas levam cada vez mais gente a indagar: para que serve um índice que só enxerga relações mercantis?
Marcos Aurélio Souza
Paris para crianças
— Você sabe o que é escargot?
— Não.
— É um caramujo.
— Eca.
— Os franceses comem.
— É por isso que eles fazem aquele biquinho?
Daniel Cariello
O desafio do pós-desenvolvimentismo
Ao ampliar a democracia, e promover distribuição de renda, o governo Lula enfrentou duas das três tendências malditas que marcaram o "desenvolvimento" brasileiro nos anos 1900. Mas ainda corre um risco: o de manter a tradição predatória, no século em que o grande desafio é a sustentabilidade
Hamilton Pereira
A periferia na Virada e a virada da periferia
Em São Paulo, a arte vibrante das quebradas dribla o preconceito e aparece com força num dos maiores eventos culturais do país. Roteiro para o hip-hop, rap, DJs, bambas, rodas de samba, rock, punk e festivais independentes. Idéias para que uma iniciativa inovadora perdure e supere limites
Eleilson Leite
A função racial da Universidade
Como já não é possível condenar as cotas sociais, os conservadores deciciram atacar a discriminação positiva em favor dos negros. Declaram-se republicanos e meritocratas. É como se vivessem num país onde não houve escravidão e não é preciso enfrentar agora a desigualdade racial
Bruno Cava
Palavra 26
José Watanabe: o guardião do gelo
A presença da cultura japonesa na obra de José Watanabe não se limita a elementos biográficos, mas está arraigada numa série de características que revelam um longo convívio com a tradição literária do haicai
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A mulher do tenente francês
John Fowles aproxima-se do modelo do romance vitoriano para negá-lo, ao final. Não sem antes lhe reservar um último golpe: o final em aberto. Não que o romance termine inconcluso; mas possui dois finais possíveis. Na verdade três
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Um conhecido entre os traços
Está claro, mas não nítido, por que o desgraçado é assim tão familiar. As paralelas que deveriam se encontrar no infinito podem sofrer desvios. Podem chocar-se ainda no tempo. Eventualmente, acontece
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Bala de fogo
(Poema singelo contra a morte)
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Rodrigo Gurgel
Sobre conversas e revoluções
Longe das baboseiras impostas como grandes verdades, estamos rompendo paradigmas, modificando a economia e o trabalho, mostrando que, fora do capitalismo selvagem, existe inteligência. Tem gente que acha isso utopia. A nossa utopia! Eu creio, tu crês ser realidade... só por prazer
Hernani Dimantas, Dalton Martins
Provavelmente, Deus não é africano
A economia do continente já cresce 5,5% ao ano, duas vezes mais que em 1990. Mas há algo grave por trás dos números: a África caminha para ser, pela terceira vez, o espaço privilegiado de uma grande competição imperialista, o palco em que as potências disputarão riquezas e posições militares
José Luís Fiori
O modelo Nollywood
Desponta na Nigéria novo modo de fazer cinema. Milhões de DVDs, pequenas salas, alternativas à propriedade intelectual. Qualidade precária, porém crescente — e bebendo na imensa diversidade cultural do país. O maior produtor de filmes do mundo. Um modelo para não copiar mas, sim, para refletir
Felipe Macedo
Software livre, pós-capitalismo e... negócios
Encontro da comunidade brasileira ligada ao GNU/Linux reúne público recorde, confirma papel destacado do país na luta pela liberdade de conhecimento e revela: é possível ganhar a vida, criar e empreender praticando uma lógica oposta à da propriedade privada e do interesse egoísta
Débora Pinheiro
"A democracia em que vivemos é hipocrisia"
João Pedro Stédile, um dos principais líderes do MST conta como iniciou sua militância, explica por que vê a reforma agrária bloqueada, fala sobre comunicação, esquerda e socialismo e sustenta: "os atuais modelos de representação exilam o povo da política"
Marcela Rocha
Os estupradores castos
Deliver Us From Evil, da norte-americana Amy Berg, examina de modo impiedoso e indigesto a pedofilia na Igreja Católica — e sua inacreditável impunidade. Uma das provocações: numa religião em que o sexo é pecado, molestar uma criança não seria equivalente a transar com uma pessoa qualquer?
Bruno Carmelo
Protesto!
Todo dia tem uma manifestação em Paris, pelos motivos mais diversos. Ontem, esbarrei em uma passeata pelo direito dos cães. Quando cheguei em casa, encucado, comecei a fazer uma lista de possíveis novas campanhas, organizações e movimentos, caso a inspiração dos parisienses acabe um dia
Daniel Cariello
Retratos da São Paulo indígena
Em torno de 1.500 guaranis, reunidos em quatro aldeias, habitam a maior cidade do país. A grande maioria dos que defendem os povos indígenas, na metrópole, jamais teve contato com eles. Estão na perferia, que vêem como lugar sagrado.
Eleilson Leite
Palavra 25
Mountolive
O que mais impressiona na engenhosa construção de “O Quarteto...” é a perícia com que Durrell, a partir de uma trama obscura, repleta de ambigüidades, racionaliza e vai contrapondo novos elementos para criar um universo perfeito que o leitor depois irá desvendar — e que irá surpreendê-lo
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Um final entediante
Ao extrair do inimigo sua força e sapiência, Pullman diminuiu o valor deste e, por conseqüência, o desfecho nada mais é do que uma vitória de Pirro, que não convence a ninguém
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Para apreender um significado
Carta a D. não é um livro que somente conta a história de um amor, é o registro de um significado. Um querer teorizar para si mesmo, ver de forma intelectualizada algo que o próprio autor percebeu que não poderia ser transformado em teoria
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Não sou anjo nenhum
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Rodrigo Gurgel
Olho grande sobre o urânio brasileiro
Um poderoso lobby age em silêncio, no Congresso e junto ao Executivo, para quebrar o monopólio estatal sobre o combustível. Interesse: exportá-lo em estado primário, num momento em que os preços internacionais não param de subir e o país desenvolveu tecnologia para processá-lo
Sergio Ferolla, Paulo Metri
Cultura, consciência e transformação
A cada dia fica mais claro que a produção simbólica articula comunidades, produz movimento, desperta rebeldias e inventa futuros. Mas a relação entre cultura e transformação social é muito mais profunda que a vã filosofia dos que se apressam a "politizar as rodas de samba"...
Eleilson Leite
Palavra 24
O dilema da literatura de gênero brasileira
A literatura policial brasileira contemporânea é quase inexistente, mas o mesmo pode ser dito da ficção científica, ou da literatura romântica, ou do romance histórico. Em outras palavras, o que falta no cenário literário nacional hoje não é apenas literatura policial, é literatura de gênero como um todo
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Uma revista com rumo firme e novos horizontes
Em 2008, com a publicação de sua 8ª edição, a ser lançada no próximo dia 17 de abril, a “Cadernos de Literatura em Tradução” introduz duas mudanças editoriais. Uma delas é a periodicidade, que passa de anual a semestral. A segunda é a introdução de edições temáticas, que serão alternadas com volumes de tema livre
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A faca sutil: pouca emoção
Lorde Asriel arregimenta um exército composto por homens que sofreram a intercisão, portanto não têm medo, nem imaginação, nem vontade própria
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April in Paris
Em Paris, a beleza brota como uma resposta à opressão do inverno, uma vitória daqueles que sobreviveram, uma ressurreição mitológica revivida a cada ano. A mística em torno do equinócio é profunda, ancestral, dionisíaca. O movimento é patente
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Rodrigo Gurgel
Como falar francês sem falar francês
Quanto boiar completamente, marque um ponto no horizonte e fixe o olhar. Se te perguntarem alguma coisa, arregale os olhos e repita a seguinte frase: "pardon, j’ai été inattentif". Em bom português, "desculpa, estava desatento". Mas nunca peça pra repetir
Daniel Cariello
A reinvenção do cinema e os jurássicos
A digitalização e a internet podem transformar todo o processo cinematográfico, democratizando a produção e multiplicando as platéias. Mas, agarrada a seu monopólio, a indústria do audiovisual quer manter as tecnologias superadas e a idéia de que arte é para quem pode pagar
Felipe Macedo
Esquizo versus trans?
Não escolhemos um projeto, não precisamos. Podemos jogar na coluna do meio: a de quem não terminou de atravessar a rua, de quem está em transição — a matéria-prima, tia e sobrinhos de toda política. Queremos abrir uma picada para quem queira fugir dos fascismos do momento
Fabiane Borges, Hilan Bensusan
Banheiro do Papa: engajamento agridoce
Comédia popular de beleza plástica e certos efeitos (como montagens aceleradas e enquadramentos acrobáticos), o filme de Fernandez e Charlone celebra a inventividade, o jeitinho brasileiro-latino, a recusa à melancolia. Falta-lhe a crítica política — aparentemente, sua intenção inicial
Bruno Carmelo
É tudo nosso!
Quase ausente em É tudo Verdade, audiovisual produzido nas periferias brasileiras reúne obras densas, criativas e inovadoras. Festival alternativo exibe, em São Paulo, parte destes filmes e vídeos, que já começam a ser recolhidos num acervo específico
Eleilson Leite
Palavra 23
Criando fama sem cama
É terrível e fascinante sujeitar-se à objetividade de si mesmo. Há volúpia e desânimo em sair de si e olhar-se como um objeto midiático, um produto, uma possibilidade. Posicionar-se em relação aos outros idiotas cheios de som e fúria.
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Ação de sobra – e poucas descrições
Agnóstico e influenciado por aventuras policiais, Philip Pullman sonega ao leitor informações sobre acontecimentos que se desenrolam em paralelo aos passos de Lyra, a protagonista de “A bússola de ouro”
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“Soneto a Satã”, de Sylvia Plath
No segundo número de nossa seção dedicada à tradução de poesia e prosa em língua inglesa, coordenada pela jornalista e tradutora Marina Della Valle, apresentamos um poema que se encontra entre os primeiros de Sylvia Plath
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Cinco aspectos do conto na era virtual
Na internet, a proximidade do escritor com as opiniões dos leitores é tão instantânea quanto a reação deles ao ler cada linha de suas próprias narrações.
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Rodrigo Gurgel
Personagens de todos nós
Por que a enorme riqueza cultural do Brasil não fez de nós, até hoje, um país de leitores? Retratos da noite memorável em que Chico Buarque, Caetano Veloso, Mia Couto e outros celebraram a obra de Jorge Amado, inspirando a busca de respostas para uma questão que permanece em aberto
Carolina Gutierrez, Marília Arantes
A política no banco dos réus
O novo mote dos conservadores brasileiros é instigar o Judiciário contra as políticas sociais, como se fossem "eleitoreiras". O importante debate teórico em torno do tema não pode ocultar que, hoje, é a potência dos novos sujeitos políticos (multidão) que produz os valores, direitos e afetos
Alexandre Mendes
Pinga ni mim
Eram eles de novo, acompanhados por três policiais. Entraram e pegaram nossos dados. Enquanto um escrevia, os oito restantes ollhavam pra parede. Tinha tanta gente admirando os pingos que tombavam, como se fosse uma instalação, que se eu abrisse umas cervejas pareceria um vernissage
Daniel Cariello
Sobre crises, hecatombes e ilusões
As teorias que falam na necessidade de uma grande potência econômica mundial — e, vêem, hoje, o "ocaso" dos EUA — não respondem a duas questões. Quem substituiria os norte-americanos? E como funcionaria o novo sistema monetário e financeiro internacional, depois do dólar?
José Luís Fiori
Palavra 22
Lêdo Ivo: sorriso aos 80
O que Lêdo Ivo realiza em versos – e também em alguns de seus ensaios – serve de motivação para a crítica, isto é, deve-se analisar a relação entre modernistas e parnasianos em suas contraposições, mas também em suas convergências.
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Mapeando a cidade invisível
Se a mitologia penetrante e luminosa da Paris de Hemingway não é mais reproduzível, Vila-Matas acaba por conceber um tipo de mitologia pessoal e específica sobre seu romance de estréia.
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Estranho objeto
De súbito, faltou fôlego. Cessou a confusão do batismo cego. Poderia decidir-se por qualquer daqueles nomes, ou qualquer outro; subsistiria o mais terrível dos atributos, sempre. O que trazia nas mãos, nelas teria de seguir.
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Do que disseram
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Rodrigo Gurgel
O paradoxo do real
Somados os percursos, teremos reconstituído uma pluralidade de mundos dentro de um mesmo e único mundo. Ou como escreveu Borges: "... sentia que o mundo é um labirinto, do qual era impossível fugir, pois todos os caminhos, ainda que fingissem ir ao norte ou ao sul, iam realmente a Roma"
Dalton Martins, Hernani Dimantas

Saudável heresia em São Paulo
No templo do capitalismo brasileiro, um movimento age para superar o desencanto com a política afirmando a autonomia da sociedade civil frente ao mercado e ao Estado. Seu primeiro desafio: questionar o automóvel, a mercadoria que melhor simboliza as relações sociais alienadas
Antonio Martins
Agora, também nas bancas
Pronta edição em papel do Le Monde Diplomatique Brasil. Jornal publicará livros e terá, na internet, caderno especial para debater temas brasileiros. Por trás das novidades, uma articulação editorial inédita entre entidades da sociedade civil
Antonio Martins
A possível Revolução Energética
Num relatório alternativo sobre mudança climática, o Greenpeace propõe mobilização mundial para salvar o planeta. E demonstra, com base num amplo estudo científico: as soluções técnicas para a sustentabilidade já existem, e conduzem a lógicas e paradigmas pós-capitalistas
Antonio Martins
Um choque entre dois modelos
A lógica dos combustíveis fósseis está emaranhada com os ideais da modernidade e do mercado. Pela primeira vez, está surgindo uma alternativa real a esse paradigma
(A possível Revolução Energética, parte 2)
Antonio Martins
Muito mais que novos combustíveis
A meta é ambiciosa: reduzir pela metade as emissões de CO2 e ainda assim transformar o acesso à energia num direito de todos. A humanidade precisa estar disposta a uma nova relação consigo mesma
(A possível Revolução Energética, parte 3)
Antonio Martins
De que revolução se trata
A ruptura necessária para salvar o planeta conduz a valores e lógicas sociais pós-capitalistas. Mas não se confunde com a "tomada" do poder
(A possível Revolução Energética, parte 4)
Antonio Martins
A revolução do Outro
Nossa contribuição ao 7º Fórum Social Mundial, que começa em 20 de janeiro, desta vez na África: num ensaio inédito, Gilberto Gil debate o papel da diversidade cultural, no esforço para repensar a emancipação social
Antonio Martins
Libertar os animais, reumanizar a vida
Enxergar nas outras espécies seres que sentem e sofrem é um enorme passo para que o ser humano se livre das brutalidades que comete contra si mesmo
Antonio Martins
Da barbárie e seus antídotos
Em nossa edição de agosto, mergulho nos dilemas de um planeta que se vê impotente diante da guerra, mas procura reinventar-se por meio das redes de solidariedade
Antonio Martins
Você tem olhos para quê?
Em julho, no Le Monde Diplomatique, novos prazeres para quem enxerga o mundo imaginando que ele pode ser diferente
Antonio Martins
Aconteceu em Haditha
Como foi cometido (e acobertado...) o massacre que pode mudar o destino da guerra no Iraque. O que ele revela sobre a ocupação, os EUA, a democracia e o controle do imaginário
Antonio Martins
Morrer na Indonésia
Não foi o tremor de terra – mas pobreza e desigualdade – o fator que determinou a morte de 5 mil pessoas, após o terremoto em Java. Para assegurar o direito à vida, em situações como esta, há uma alternativa muito concreta
Antonio Martins
Irã, hipocrisia e interesses
Por que a Casa Branca (e a mídia) querem transformar o Irã na “bola da vez”. Que medidas poderiam abrir caminho para um desarmamento nuclear completo
Antonio Martins