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outubro 2008

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RELAÇÕES INTERAMERICANAS

América Latina reduz dependência dos EUA

Sem alarde, o antigo “quintal” dos Estados Unidos deixa para trás sua histórica subordinação a Washington, buscando novos parceiros fora do continente e fortalecendo a capacidade de ação estatal. A Doutrina Monroe (“a América para os americanos”... do Norte) está se desvanecendo, lentamente

Juan Gabriel TokaTlian

“A América Latina não quer nem tem por que ser um fantoche desprovido de livre-arbítrio.” Gabriel García Márquez. Discurso de aceitação do Prêmio Nobel de Literatura, Estocolmo, 1982.

O avanço comercial da China na América Latina é cada vez mais eloqüente. A Rússia parece decidida a retomar sua presença militar na região, desta vez por meio da Venezuela [1]. O Irã se projeta diplomaticamente na América do Sul e América Central. A África do Sul incrementa sua vinculação política com os sul-americanos. A Índia volta-se para a América Latina. os cinco – Pequim, Moscou, Teerã, Pretória e Nova Delhi – procuram como fornecedores em alguns casos, e como consumidores em outros, reforçar os laços em matéria energética, em um contexto global de revalorização dos hidrocarbonetos e de maior disputa sobre seu controle. A Europa, retraída e extraviada, não parece inclinada a fortalecer os contatos bilaterais, apesar de ter incrementado a venda de ar- mas para o Brasil e o Chile, convertendo-se, no período 2003-2007, no principal fornece- dor de armamento para ambos [2] O recente acordo entre a Argentina e o Brasil (fevereiro de 2008) em matéria nuclear permitiria à Europa (por exemplo, à França) associar-se nesta frente com os dois países do Cone Sul. Por seu lado, um Japão mais confiante, após superar anos de recessão, volta aos poucos a olhar para a América Latina, segundo recentes pronunciamentos oficiais.

A esses atores estatais deve-se acrescentar a variedade e intensidade de laços de atores não governamentais (partidos políticos, organizações civis de diversos matizes, movimentos antiglobalização, comunidades religiosas, grupos criminosos transnacionais, entre outros) com a América Latina. Diante de tudo isso, Washington não conseguiu fazer muito para impedir, neutralizar ou reverter a versátil articulação de múltiplos atores extra-hemisféricos [3].

Paralelamente, ocorrem fenômenos interessantes. No plano econômico, por exemplo. Apesar de ter sido definido o dia 1º de janeiro de 2005 como a data do início da Área de Livre Comércio da América (Alca), essa iniciativa americana fracassou devido a um conjunto de fatores de alcance mundial (expectativa original de bons resultados comerciais com a rodada de Doha); hemisféricos (falta de sintonia entre Washington e brasília); regionais (aumento da rejeição dos EUA por parte de diversos atores da sociedade civil latino-americana) e internos (crescente protecionismo e falta de vontade política dos EUA). A centralidade da Alca na agenda interamericana desvaneceu-se quase por completo.

Ao mesmo tempo, no terreno financeiro foram propostas novas iniciativas, como a criação do banco do Sul e o fortalecimento da Corporação Andina de Fomento, em contraste com a sensação de paralisia ou manipulação de entidades como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o banco Mundial. Além disso, no terreno da interconexão geográfica vem se desenvolvendo, desde o começo da década, a Iniciativa para a Integração da Infra-estrutura regional Sul-Americana (IIRSA).

No campo político, também foram produzidas novidades alentadoras. Em nenhuma das recentes crises institucionais na região, os Estados unidos exerceram um papel decisivo. os próprios países sul-americanos têm conseguido superar as dificuldades políticas, mediante uma articulação cautelosa e assertiva. Ninguém na América Latina deu seu aval ao golpe frustrado de 2002 na Venezuela, e perante a atitude do governo americano de legitimá-lo, a região se pronunciou coletivamente em contrário: enquanto Washington insinuava que se tratava de um “golpe benéfico” que se justificava pelo comportamento do presidente Hugo Chávez, a América Latina se pronunciou enfaticamente contra qualquer tentativa golpista na Venezuela. Mais tarde, todas as nações repudiaram a ação militar da Colômbia no território do Equador: Bogotá havia recorrido a um mecanismo ilegítimo ao atacar unilateralmente um objetivo em um país vizinho não inimigo [4]. Essa decidida atitude comum conseguiu frear, ao menos temporariamente, a “latino-americanização” da “guerra contra o terrorismo”.

No âmbito militar, houve um fato sugestivo. No momento em que o Comando Sul adquire crescente influência na política latino-americana dos Estados unidos, e que o Pentágono decide reativar a IV Frota - desativada em 1950 [5]-, surge a decisão consensual de criar o Conselho Sul-Americano de Defesa, um esquema inédito na região que demonstra, de maneira moderada e sem retórica de confrontação, que é possível conciliar interesses nacionais e regionais em matéria de segurança.

Na esfera diplomática acontecem fenômenos surpreendentes. o Equador, que tem uma economia dolarizada e exporta quase todo seu petróleo para os Estados Unidos, tomou uma decisão de impacto: o presidente Rafael Correa determinou não renovar o uso da base militar de Manta por parte dos Estados Unidos e, em conseqüência, as tropas desse país deverão abandonar o Equador em 2009. Dois países centro-americanos - Honduras e Nicarágua, que em 2003 participaram junto com os EUA da “coalizão de voluntários” que invadiu o Iraque, e que subscreveram (2004) e ratificaram (2005) o CAFTA (Tratado de Livre Comércio entre os EUA, América Central e república Dominicana), mostram sinais de distanciamento e crítica em relação a Washington.

Justamente no momento em que o Pentágono resolve reativar a Quarta Frota, os governos da região criam o Conselho Sul-Americano de Defesa, numa decisão consensual

A Bolívia e a Venezuela, por razões distintas, decidiram em setembro expulsar de La Paz e de Caracas os embaixadores dos EUA. Essas decisões categóricas e graves, ainda que tenham suscitado polêmica sobre sua necessidade e oportunidade, constituíram um solavanco inesperado, uma vez que nas regiões mais quentes do sistema (Oriente Médio, Ásia Central e Sudeste Asiático) não existem governos contrários aos EUA que procedam assim. Mas na América Latina, a região mais segura para Washington, dois países que outrora eram aliados assumiram o risco de tensionar criticamente as relações bilaterais. Pelo menos em curto prazo, Washington não dispõe ou não deseja promover ações de retaliação.

Finalmente, e mesmo com variações e especificidades particulares, um fio condutor entrelaça hoje toda a América Latina: a revalorização do Estado e a reorganização da sociedade, tendendo a moderar e disciplinar o poder do mercado. Nesse sentido há renovado interesse em plano nacional, mais empenho pela questão social e maior sensibilidade pelo desenvolvimento. Isto, por sua vez, se coaduna com a política externa dos governos. Para todos os países, independentemente da orientação ideológica, torna-se fundamental ampliar as opções estratégicas, o que implica elevar a capacidade de autonomia.

Todos esses acontecimentos e rearranjos econômicos, comerciais, financeiros, energéticos, políticos, militares, diplomáticos e internos indicam algumas das mudanças que a região está vivendo. Há também sinais preocupantes e perigosos, mas o balanço não é desalentador. os desafios são formidáveis. um deles – a relação com os EUA – será colocado à prova depois da eleição do novo presidente norte-americano.

Além do resultado eleitoral de novembro nos EUA, existe uma situação excepcional nas relações interamericanas – um conjunto de condições que, bem aproveitadas, poderiam reduzir a dependência em relação aos EUA e incrementar a autonomia relativa da América do Sul.

Uma série de tendências estruturais e de fenômenos contingentes parece facilitar um processo que poderia culminar em um sereno distanciamento de Washington, no avanço de vínculos hemisféricos mais equilibrados e em um maior poder negociador da região na política mundial. Em suma, é possível que não apenas a Doutrina Monroe se debilite, como também se torne obsoleta. Mais do que se preocupar por não estar na zona de atenção dos EUA ou debater se a região é ou não irrelevante para Washington, seria proveitoso entender quais alternativas estratégicas ensejam as transformações que estão acontecendo no mundo e na região [6].

No marco global mais amplo, o epicentro do sistema move-se cada vez mais rapidamente em direção ao Pacífico, com um crescente peso dos países da Ásia. A demografia, a economia e a geopolítica vão se concentrando nessa parte do mundo. A ascensão pacífica da China, a Índia convertida em potência emergente, o ressurgimento de uma Rússia assertiva, a gravitação de nações como o Japão, Austrália e Indonésia, e a importante dinâmica econômica dos países do Sudeste Asiático são fenômenos produzidos no contexto de uma notável desorientação estratégica da união Européia e de fracassos da política de supremacia dos Estados Unidos. Assiste-se a um declínio relativo do ocidente e a um ressurgimento do oriente.

Paralelamente, uma combinação de recursos, circunstâncias e vontade parece impulsionar a América do Sul no caminho da eventual diminuição de sua proverbial subordinação em relação aos EUA. Por um lado, a região ingressa no século21 como uma superpotência ambiental - dada sua esplêndida biodiversidade -, como uma potência em matéria de alimentos – pela variedade, quantidade e qualidade de seus bens primários – e a capacidade de influência no campo energético. Às reservas de hidrocarbonetos nos países andinos soma-se agora a riqueza petrolífera do brasil, a grande capacidade do Cone Sul quanto aos biocombustíveis e o recente acordo nuclear entre Brasília e Buenos Aires. A demanda internacional de produtos da região, os altos preços das mercadorias disponíveis na área e a relativa condição de estabilidade (em comparação com outras regiões) para sua produção e abastecimento convertem a América do Sul em um protagonista potencialmente desta- cado da economia política atual.

Por outro lado, a preponderante atenção dos EUA em relação ao oriente Médio e à Ásia Central a partir de 2001, sua notável perda de prestígio a partir do ataque ao Iraque e das dificuldades que enfrenta no Afeganistão, a evidente inépcia perante os principais problemas globais (não-proliferação nuclear, meio ambiente, pobreza, entre outros) e a envergadura de sua crise econômica oferecem à região um espaço de manobra inédito. A combinação de fundamentalismo, descrédito e inépcia por parte de Washington facilita que a América do Sul insinue e explore novas iniciativas sem a ingerência dos EUA.

Quem precisa de quem?

Tudo isso se produz em um contexto regional de múltiplos governos com vocação transformadora e alguns países com visão estratégica. Quase todos os governos atuais na América do Sul se orientam rumo a mudanças importantes, independentemente da visão ideológica particular. Coexistem em paz nessa região uma potência emergente de projeção global – brasil –, potências regionais com novas ambições - Argentina e Venezuela –, países médios com capacidade de influência – Colômbia e Peru-, atores pequenos muito oscilantes – Chile–, e “estados tampões” que desejam incrementar sua voz na região: Bolívia, Paraguai, Equador e Uruguai. A maioria dos governos mostra um particular interesse pelos assuntos internacionais e, com modelos diferentes, busca diversificar e melhorar suas relações exteriores. Essa conjunção de vontades poderia aplainar o caminho para aproveitar as oportunidades oferecidas pelos cenários global e continental.

Por último, os EUA necessitam hoje mais da América Latina do que esta de Washington: a importância do eleitorado “hispânico” cresce; os temas como o narcotráfico, a imigração e o meio ambiente, que entrelaçam os americanos ao continente não podem ser resolvidos seriamente com políticas punitivas e agressivas; a energia procedente da área segue sendo a mais segura; na região não existem ameaças provenientes do terrorismo transnacional de alcance global nem atores com armas de destruição em massa, e assim por diante. Embora hoje pareça exagerado, no futuro será Washington que deverá ajustar melhor suas políticas em relação à região: não fazê-lo incrementará a propensão a desprezar suas prescrições e deslegitimar suas ações.

Não se trata de desconhecer o peso global, bilateral e unilateral de Washington, e sim de entender que se apresenta uma conjuntura propícia para que os laços sejam menos assimétricos e o horizonte vital latino-americano seja o mundo e não somente os EUA. Mas três condições indispensáveis devem existir: a capacidade de assumir e resolver os graves problemas regionais existentes (em particular os conflitos que sacodem o arco andino), a preservação democrática e a melhora da vida institucional.

A Doutrina Monroe está se desvanecendo, porém muitos atores políticos e dirigentes nos EUA não aceitam sua extinção e, por isso, os atores-chave da América do Sul deverão mostrar-se ao mesmo tempo ousados, discretos e eficazes no manejo pragmático de algumas questões cruciais com seu grande vizinho do Norte.

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Adeus, mister Monroe

No dia 2 de dezembro de 1823, o presidente dos Estados Unidos, James Monroe, em sua mensagem anual ao Congresso, tornou pública a doutrina que leva seu nome e que se transformaria na base da política externa americana até a atualidade: “A América para os americanos”. Este foi o lema que sintetizou o repúdio à intervenção européia no solo americano. Todavia a Doutrina Monroe, com o passar do tempo, foi se aproximando mais da versão “A América para os norte-americanos” (que, obviamente, denominam-se a si mesmos “americanos”). A mudança fez-se evidente no Primeiro Congresso Pan-Americano realizado no Panamá em junho de 1826, convocado por Simón Bolívar e cujo fim era reunir todas as nações do continente. Porém a delegação de Washington vislumbrou o perigo que a integração hispano-americana poderia ocasionar a seus planos expansionistas e retirou-se, afirmando a política de isolamento americana.



[1] Oscar Raúl Cardoso, Algo más que juegos de guerra, Clarín, Buenos Aires, 9/9/2008. Uma semana antes, o governo venezuelano havia anunciado exercícios marítimos de guerra, conjuntos com a Rússia, no mar do Caribe.

[2] No período de 2003 a 2007 havia três países da América do Sul entre os maiores compradores de armas convencionais no mundo: Chile (12º), Venezuela (24º) e Brasil (32º). Ver Paul Holtom, Mark Bromley y Pieter D. Wezeman, “International Arms Transfers”, em Stockholm International Peace Research Institute, SIPRI Yearbook 2008: Armaments, Disarmament and International Security, Oxford University Press, 2008.

[3] Em 2005 realizou-se em Brasília a primeira Cúpula América do Sul – Países Árabes e, em 2006, realizou-se em Abuja a primeira Cúpula América do Sul – África.

[4] Ver dossiê “Guerra por la Amazonia”, vários autores, Le Monde diplomatique, edição Cone Sul, Buenos Aires, abril de 2008.

[5] Ver dossiê “Estados Unidos vuelve a patrullar”, vários autores, Le Monde diplomatique, edição Cone Sul, Buenos Aires, junho de 2008.

[6] “É preciso recusar a tese, hoje em voga, da irrelevância crescente da América Latina para os EUA. Essa idéia traz dentro de si duas concepções errôneas e contém, além disso, dois problemas fundamentais. O primeiro pressuposto errado é a crença que os Estados Unidos carecem de políticas ativas em relação à América Latina. Outro erro é o de enfatizar quase exclusivamente a dimensão interestatal, deixando de lado o plano transnacional. Por fim, e mais importante ainda, essa tese tem dois problemas fundamentais: a confusão entre prioridade e importância, e a falta de especificidade.” Roberto Russell e Juan Gabriel Tokatlian, “Resistência e Cooperação: opções estratégicas da América Latina frente aos Estados Unidos”, em Ricardo Lagos (comp.), América Latina: Integração ou Fragmentação?, Edhasa, Buenos Aires, 2008.


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