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LITERATURA

Sobre literatura e outros defeitos

Nenhum romance ou conto, nem a soma do que li, me humanizou ou me induziu a ser uma pessoa melhor

André Resende

(14/11/2008)

Diante da audiência que se organizou para recepcioná-lo na entrega do prêmio Nobel de literatura de 1986, o poeta e ensaísta russo, radicado nos Estados Unidos, Joseph Brodsky (1940-1996), alertara a todos, em seu discurso, que a literatura melhora as pessoas. Em resumo, o leitor de literatura é beneficiado com um tipo de imanência que se desloca das estórias e dá uma compreensão especial ou particular da realidade. Não importa o teor das estórias, porque prevalece como essência um tônico que melhora a humanidade das pessoas e, assim, elas se tornam melhores.

Antes de qualquer coisa, se não aconselharei esse remédio sempre, devo dizer que o uso com freqüência.

Brodsky se esforçou para convencer que sua tese estava certa, provavelmente querendo ver que, pelo menos com ele, ser um leitor pleno de literatura melhorou-o como ser humano, mantendo-o atento e sensível para a vida.

Mesmo que não seja verdade para todos, que maravilha. Se se conhece alguém que se impregna de literatura sempre, mas é capaz de atos ilícitos e degradantes, rancorosos e ressentidos, odiosos, ainda assim, deve-se encorajar a interpretação de Brodski.

Em outro momento, quando disse que os livros de auto-ajuda não me faziam mal porque prometiam ajudar as pessoas a serem pessoas do bem, alguém me confidenciou rancores e ressentimentos que um escritor, ocupado com seus fantasmas pessoais, havia destilado contra mim, acreditando que, assim, estaria salvando a literatura.

Nenhum romance ou conto, nem a soma do que li, me humanizou ou me induziu a ser uma pessoa melhor. Ser uma pessoa melhor significaria olhar o mundo e as pessoas com uma delicadeza de quem viveu intensamente experiências de vida. Quantos livros de ficção nos levam até aí? É verdade que, depois de uma estória intensa, fechamos o livro e, se não nos tocar a ansiedade, um silêncio de paz se fecha e nos remete a pensar na vida.

Hoje, vejo que nem há unanimidade, nem franco favorito entre as pessoas leitoras que conheço. Se me pergunto qual livro marcou minha vida, não vou sair atado a esse ou aquele de Machado de Assis, nem Os meninos da Rua Paulo, nem O Apanhador no Campo de Centeio, entre outros, e para não citar os mestres do lugar-comum. Poderia dizer Vidas Secas, de Graciliano Ramos ou Cem anos de solidão, de Gabriel Garcia Marquez.

Não faria sentido dizer por dizer. Alguns escritores ganharam dimensão para mim depois, bem depois. Não sei dizer se me melhoraram como pessoa. Em alguns momentos, atiçaram a soberba e a arrogância, que consegui abandonar, graças à psicanálise – essa sim me ajudou a tentar ser uma pessoa em paz comigo, em paz com as pessoas, em paz com o mundo, em paz com quem sou, em paz com o que sou.

Com a literatura me guardo e me envolvo até bem longe em mim, sorrindo e de mim só reapareço quando pareço ser outro, coisa que não percebo ou me determino. De tanto viver, me recrio, aos poucos.



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