![]()
Já nas bancas
![]()

Desafios da economia solidária
Resenha | Comprar
Alternativas ao aquecimento global
Resenha | Comprar
Reflexões sobre o consumo responsável
Índice | Comprar
“Eu não compreendo! Se a IV Frota dos Estados Unidos pode vir para a América, por que não a frota russa [1]?” A pergunta não veio do presidente Hugo Chávez, que planeja para breve manobras navais conjuntas russo-venezuelanas, mas de seu homólogo equatoriano, rafael Correa. Anunciada em 25 de abril, a reativação da IV Frota americana para dirigir e coordenar as marinhas da América Central e do Sul contra o “tráfico de drogas e o terrorismo” não provocou nenhum entusiasmo no subcontinente, longe disso!
Ao mesmo tempo, aquele que é apresentado freqüentemente como o “anti-Chávez”, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, declarou: “Acabou a época do “mercado pode tudo”, em que nós, as economias emergentes, dependíamos do Fundo Monetário Internacional (FMI). Acabou a época de uma América Latina sem voz própria [2]”.
Com um simbolismo inegável, em 11 de setembro de 2008, exatos 35 anos após a derrubada do socialista chileno Salvador Allende, a Bolívia e a venezuela expulsaram de seus respectivos países o embaixador americano, avaliando que Washington conspirava contra seus governos. no dia seguinte e sem tantos holofotes, o chefe de estado hondurenho Manuel Zelaya, adiou a recepção das credenciais do novo embaixador americano em Tegucigalpa, em sinal de solidariedade aos bolivianos. Nesses últimos anos, somente a Colômbia e el Salvador elegeram presidentes abertamente pró-Estados Unidos. Mesmo países da América Central, tradicional “quintal americano”, deram um grande salto. Após pedir em vão ajuda a Washington e ao Banco Mundial, Honduras aderiu à Alternativa Bolivariana para as Américas (Alba), projeto geopolítico “radical” que, sob a direção de Hugo Chávez, já reunia Bolívia, Cuba, nicarágua e venezuela. Da mesma forma, a Costa rica foi o 19° membro do acordo Petrocaribe, por meio do qual Caracas vende petróleo a um preço inferior ao do mercado.
Embora Chávez tenha comprado caças Sukhoi e fuzis Kalashnikov da rússia, e acolhido em seu solo dois bombardeiros estratégicos TU-160 vindos de Moscou, a intenção não era atacar a Flórida, mas dinamizar uma “nova geopolítica mundial”. Menos espetacular, o Brasil não fez diferente ao anunciar que construirá helicópteros militares e quatro submarinos convencionais, além de um de propulsão nuclear, graças à transferência de tecnologia francesa. Diante de Washington, Brasília marca seu território. Outros aspectos também saltam aos olhos, como o desenvolvimento das relações Sul-Sul pelo Brasil; a consolidação de relações com a China, Irã e Rússia pela Venezuela e Bolívia [3]; e a multiplicação dos acordos bilaterais entre Argentina, Brasil, Bolívia, Cuba, nicarágua, venezuela, Paraguai e equador. este último com uma nova constituição, recém-aprovada em referendo popular de 28 de setembro, e cujo objeto principal é encerrar a experiência neoliberal vivenciada até então pelo país.
As diferenças entre os países latino-americanos permanecem. Entretanto, em uma hora decisiva com esta eles estão alinhados. Testemunho disso, a tentativa de desestabilização conduzida pelos governadores dos departamentos ditos “autonomistas” contra evo Morales, em setembro, na Bolívia. Foi nessa ocasião a expulsão do embaixador americano Philip Goldberg, presente na Bósnia de 1994 a 1996, no Kosovo, entre 2004 e 2006, e considerado um especialista em “separatismo”. Consciente de que “a batalha da Bolívia” seria decisiva para o futuro da esquerda latino-americana, e mesmo para sua soberania, a venezuela, seguida pelo Brasil, organizou uma reunião da União das nações Sul-Americanas (Unasul), organização até então mais simbólica que efetiva, em Santiago do Chile. Sem a presença dos estados Unidos, os países da região apoiaram firmemente evo Morales e mostraram que não tolerarão nenhuma “ruptura institucional” no seu vizinho. Evoca-se agora a criação de um Conselho Sul-Americano de Defesa, para prevenir e resolver conflitos. A idéia, lançada em 2003 por Hugo Chávez, foi retomada por Lula, mas ainda sofre a hostilidade da Colômbia.
Por fim, o grande projeto dos estados Unidos, a criação de uma Área de Livre Comércio das Américas (Alca), não conseguiu se impor. O subcontinente aproveitou os preços excepcionais de seus produtos primários para comercializá-los nos mercados emergentes, como Índia e China. Porém, com o vento contrário que sopra de Wall Street a situação mudou. “Enquanto, inicialmente, se esperava que a América Latina pudesse ficar fora da crise, fortes sinais anunciam, com certeza, impactos no futuro.
Pode-se não apenas esperar uma deterioração prolongada do comércio exterior, mas também um choque financeiro muito violento em um prazo muito curto. Quanto mais internacionalizado for o sistema bancário e a bolsa de valores, maior a fragilidade”, apontou a declaração final da conferência internacional “resposta do Sul em face da crise econômica mundial” [4].
Para terminar com a dependência do Fundo Monetário Internacional (FMI), por meio das reservas existentes na América do Sul, financiar o desenvolvimento dos países membros e reduzir a exclusão social, surge a proposta do Banco do Sul, elaborada pelo presidente venezuelano em 2006. Favoráveis a uma integração que beneficiasse seu domínio sobre o resto da região, Brasil e Argentina hesitavam. no entanto, diante da ameaça vinda do norte, num encontro em Manaus em 1º de outubro, Lula acabou se unindo a Hugo Chávez, rafael Correa e Evo Morales e aceitando, finalmente, a criação da nova instituição.
[1] El Nuevo Herald, Miami, 16 de outubro de 2008.
[2] El Pais, Madri, 14 de outubro de 2008.
[3] Entre 20 e 22 de novembro, o presidente Rafael Correa faz uma visita oficial a Teerã.
[4] Conferência internacional “Resposta do Sul em face da crise econômica mundial”, declaração final, Caracas, 11 de outubro de 2008.