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LITERATURA

O passado dói

“O passado”, de Alan Pauls, é uma viagem, uma vertigem cortazariana ao fundo do coração de um homem dilacerado, feito em pedacinhos como os bilhetes e papelotes que consome sem nem mesmo saber ao certo por quê

Fábio Fernandes

(01/12/2008)

Hell hath no fury like a woman scorned. A frase, que poderíamos traduzir como “nem o inferno tem mais fúria que uma mulher desprezada”, é muitas vezes atribuída a William Shakespeare, mas na verdade é de autoria de outro dramaturgo inglês, William Congreve, que viveu entre os séculos dezessete e dezoito, em sua peça The Mourning Bride.

Mas, às vezes, a tragédia mora nos pequenos detalhes. Como bilhetes, pedacinhos de papel minúsculos em que se escrevem mensagens cotidianas, tudo aquilo que o amor não consegue dizer, como diz Sofia, uma das protagonistas de O passado, de Alan Pauls (Editora Cosac Naify).

Esse romance argentino conta a história da separação de Rímini e Sofía, depois de doze anos de um casamento feliz mas conturbado (e qual casamento não é assim?), e da vida depois do fim do amor. Ou não depois do fim do amor, mas da relação.

E mesmo isso é intrincado e confuso na cabeça de Rímini, que se pega ora exasperado, ora apaixonado pela esposa com quem o convívio se fazia tanto no nível do corpo quanto no nível do logos, da palavra, mais precisamente através do papel como interface entre os dois amantes tão complicados.

Na vida de Rímini, talvez mais do que na de Sofía, o papel é fundamental, desde o papel que ele usa para traduzir livros (a história se passa entre 1978 e 1989, portanto antes da popularização do computador pessoal – Rímini usa máquina de escrever), passando pelos papeizinhos dos bilhetes de Sofía, até os papelotes de cocaína que ele passa a usar desabaladamente depois da separação. Seus vícios começam no papel em um nível de pele, de mucosa, até penetrar no cérebro, no coração e na alma.

Com o tempo, ele se acostuma com a separação, mas da mesma maneira como nos acostumamos com uma roupa depois de muito usá-la. Serve-nos bem e ainda está em boas condições, então continuamos a usá-la – mesmo que já não esteja tão na moda assim ou que nós mesmos percebamos que é chegada a hora de nos desfazer dela. Ou de trocá-la por outra.

O amor que nunca deixou de sentir?

Mas o que é uma troca? Desejo, necessidade ou vontade? Rímini acaba conseguindo deixar a droga (e mesmo assim não sabemos se é definitivo ou um arroubo temporário) quando se envolve com Vera, com quem passa a viver depois de um ano e meio de separação de Sofía (que no entanto continua presente em sua vida, ainda que tangencialmente). De Vera, entretanto, que o atormenta com ciúmes mas por quem ele sente o desejo quase avassalador de se entregar por inteiro (talvez mais por desespero que por amor), Rímini passa à ex-colega de faculdade, a intérprete Carmen, por quem se apaixona.

Mas essa troca é válida ou apenas uma tentativa de voltar ao começo de algum jeito? De voltar ao amor que ele tinha por Sofía, o amor que nunca deixou de sentir no fundo, no fundo?

O passado é uma viagem, uma vertigem cortazariana ao fundo do coração de um homem dilacerado, feito em pedacinhos como os bilhetes e papelotes que consome sem nem mesmo saber ao certo por quê. A guia dessa viagem em português, Josely Vianna Baptista, traduz belamente o fluxo narrativo que envolve o leitor como os pedacinhos de papel deixados ao longo do caminho torto de Rímini.

O genial escritor chileno Roberto Bolaño declarou que Pauls era o maior escritor latino-americano vivo. Há controvérsias, porque Ricardo Piglia está aí, firme e fortíssimo, no páreo. Mas é um páreo duro, uma luta de foice no escuro, porque Alan Pauls não nega a tradição da terra que gerou Arlt, Borges, Cortázar. E lembra, ainda que de leve, o nosso Osman Lins, pelo cuidado com a palavra, e pela criação de labirintos do logos. Labirintos que é preciso percorrer, sem pressa de encontrar a saída. Por mais doloroso que seja.



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