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É tudo mentira

Para nós, aqueles que limitam sua existência a meia dúzia de livros, a literatura — para total espanto — não é capaz de salvar.

Renata Miloni

(26/02/2009)

Sabemos identificar as mais variadas ficções, reconhecemos e aceitamos detalhes de outras culturas reproduzidos nelas. Mas a forma como lidamos com a literatura quando a ficção está desligada, digamos, poderia mudar o leitor que somos? Tenho minhas dúvidas. Não falo só em leitor de livros mas da compreensão de mundo. A literatura nem sempre traduz quem realmente somos, a força está na tradução exata de como reagimos.

Levamos nossas reações enquanto leitores e comentadores literários, no meu humilde caso, a extremos. Reagimos à vida como se a ficção fosse a realidade e, daí, nascem as categorias de caráter (os tipos que nos rodeiam), texto (divisão do cotidiano em três ou quatro partes) e trama (o controle, ou falta de, que temos dessa junção).

Munidos de descrições precisas e julgamentos que somente nós validamos, pisamos em cada frase não para descobrir o que acontecerá, mas para confirmarmos que estávamos certos desde o início. É assim com um livro que não surpreende, de fácil leitura e cujo final já estava ali desde o começo, escancarado.

Usamos a literatura para basear opiniões, para seguir exemplos pessoais e, freqüentemente, enganar o inconsciente e analisar fatos que nós mesmos construímos. E ainda chamamos, num tom abaixo, tais feitos de geniais. Na ficção, eles sempre são. Arrancamos cada pedaço de onde repousamos nossas mãos para, depois, exibirmos como troféu de nossas aventuras. Assim fazem os personagens de nossos livros preferidos. Não de maneira tão clara, como é o jeito sábio.

Raramente paramos para pensar em outras hipóteses porque, como bem sabemos, já está tudo escrito nos livros. Ou eles pensam por nós ou não há o que mudar, pois o caminho já está traçado e deve ser seguido com restrita fidelidade. Ou seja, para nós, aqueles que limitam sua existência a meia dúzia de livros, a literatura — para total espanto — não é capaz de salvar. Se achássemos um lugar perfeito nela, um lugar para livrarmos nossas reais opiniões, ela seria nossa aliada. Mas, por enquanto, ela apenas nos esconde sem pretensões. Ou melhor, é assim que a temos. A verdade é que nos escondemos nela e em tudo o que ela criou, desde épicos amores até achismos virtuais.

Textos previsíveis, rascunhos descartados

Mais do que esconder, aliás, nos aprisionamos ao que dela nasce e no que nela pode crescer. Tudo termina num livro, tudo faz parte do que colocaríamos nos livros se já não estivéssemos tão prontos para decidir que não precisa, que é suficiente. O que desconhecemos não é bem-vindo agora. O que provoca instantânea discordância, porque não somos capazes de tal resultado, deve ir direto ao lixo — o rascunho amassado, mais uma decepção diária.

Dizem nossos livros preferidos que há padrões, regras, duas ou três piadas, várias doses de bebida e, no máximo, dez chances de ter a vida que queremos. Eles dizem também que a literatura confere às pessoas um título de amizade que elas não são capazes de honrar, pois estaria fora da trama.

Nossos textos são previsíveis e as mudanças que poderiam ser feitas estão nos rascunhos descartados. E a própria literatura declara (sim, a personagem), ainda assim, que a leitura é individual. Mas só podemos perceber isso se dissermos: "é tudo mentira, a realidade é outra". Mas é tudo mentira mesmo, a realidade é só uma preferência. Não de qualquer um e, muito menos, da literatura.



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