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O dilema da literatura de gênero brasileira

Lendo o artigo, reconheci na afirmação de que no Brasil falta "literatura de gênero como um todo" um eco da realidade exibida pelas histórias em quadrinhos brasileiras. Não há uma real produção de mercado (distante da marginal – seja em termos de qualidade, quantidade ou em aspectos de distribuição) de hqs "de gênero" como ficção científica, policial, super-heróis etc. Dois álbuns no gênero "histórico", para termos a exceção que confirme a regra, foram realizados recentemente pelo ilustrador paulista Spacca (ambos para a Cia das Letras) únicamente por ocasião do centenário de Santos Dumont e do bicentenário da chegada da Família Real ao Brasil. Outras duas situações tendem a ’suavizar’ a idéia de que não há ’literatura em hqs de gênero’: primeiro, algumas editoras realmente mexem-se na direção de adaptações de clássicos da literatura brasileira para quadrinhos, mas aí o "texto" já está pronto (e testado), ou quase. Segundo, profissionais brasileiros atuam com destaque no mercado estrangeiro de hqs de super-heróis desenhando personagens de primeiro escalão como Homem-Aranha, X-Men e Superman, mas está longe de ser uma literatura ’nacional’. De fato, vê-se "apenas" a produção de hqs em que o humor dá o tom, ou é o tom. Além dos infantis (e, tecendo o paralelo, a literatura infantil vai muito bem, obrigado, se vista em relação aos "outros" gêneros), o panorama brasileiro se vale quase que exclusivamente de nomes como Angeli, Laerte, Adão Iturrusgarai, Fernando Gonzales, Allan Sieber, André Dahmer etc fazendo uso do humor (em doses e vertentes diferentes) para contar suas histórias. Daí me lembrei de dois momentos em que a literatura policial no Brasil deu as mãos para o humor, em situações que a ética não parecia ser sinônimo de "bom-mocismo". As crônicas do investigador Ed Mort, de Luis Fernando Veríssimo (que ganhou fracas adaptações para tiras, por Miguel Paiva, e cinema, com Paulo Betti) eram rápidos (como as short stories de Raymond Chandler) e quase chanchada, mas eram de cunho policial. Recentemente, o humorista Beto Silva escreveu Júlio Sumiu (Objetiva) em que a realidade da sociedade brasileira (err...carioca) contemporânea era utilizada como cenário para um pseudo-sequestro (uma comédia de erros) que envolvia uma polícia corrupta e/ou preguiçosa e traficantes, e está longe de ser um livro de gargalhadas fáceis, como seria de se esperar de um projeto do Casseta&Planeta. E tanto Veríssimo como Silva (longes de serem nomes desconhecidos, embora o segundo deva, e o faz, agregar a grife Casseta&Planeta) possuem uma preocupação com a linguagem usada, mas de uma maneira que esta não se torne inacessível, pernóstica, e sim entretenimento.
Bruno Porto
2008-04-13 13:34:31

O dilema da literatura de gênero brasileira

Muito bom o seu texto, Lucas.

Acho que você tem razão quando diz que os detetives contemporâneos não são éticos como antigamente. Tomemos como exemplo os detetives de Lehane e Pelecanos.

(Sabemos que há um número tão grande de autores e detetives que qualquer tentativa de sistematizar o romance policial soa vã. Mas consideremos que esses autores são representativos do que se faz hoje).

Enfim: Patrick Kenzie e Derek Strange estão longe de serem modelos de conduta, e ambos consideram a possibilidade de serem juízes e carrascos. Nesses livros, não há lugar para maniqueísmos (embora alguns vilões de Lehane sejam a própria encarnação do Mal), e um traficante de armas pode ser o personagem mais carismático, enquanto o detetive pode cometer um assassinato a sangue frio.

Mas, ainda assim, nesses livros, a questão ética está sempre presente. Em Gone, baby, gone, principalmente, e talvez por isso seja seu melhor livro. Há uma decisão ética (dentre muitas) que é fundamental.

É isso. Grande abraço, Gregório


Site: http://www.gdantas.blogspot.com/
Gregório Dantas
2008-04-13 00:12:42

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