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Do Período Especial à ascensão de Raul
Todos os abusos cometidos por Castro e seu séquito são notórios. Desde questões políticas a arbitrariedades. Porém, as conquistas sociais logradas pelo regime são dignas de ressalva.
Creio que tal abertura, progressiva e progressista, é essencial e benigna; tomara que possa levar Cuba a um revigoramento e maior dignidade humana. O que se espera é que as conquistas positivas e a própria memória da revolução sejam mantidas, pelo bem do patrimônio cultural da humanidade.
Samuel Decresci
2008-10-07 21:58:40
Do Período Especial à ascensão de Raul
Em 92 estive em Havana. Verdade que não vi crianças com sinais de desnutrição farinácea ou protéica. Presenciei música clássica e popular em uma escola, andando pela cidade. Com o bloqueio americano, criativamente, os cubanos aprenderam a repor as peças dos antigos carros, mas não conseguiram manter as condições das construções. No céu, percebia-se fumaça provocada pela combustão de carvão. Cubanos não podiam entrar comigo no Hotel Nacional, mas lá dentro havia um gigolô negociando com estrangeiros (negociantes, diplomatas etc.) mulheres cubanas, vestido a caráter, tipo gigolô carioca década de 30, com aquele chapéu Panamá charmoso. Escrevi: "Um dia ainda escrevo sobre a mulatinha que chegou no hotel Nacional nas mãos de um gigolô de terno areia e chapéu panamá. Vendida a um italiano que não alcançava os seios dela. Subiram de elevador. Aproximei-me do sujeito. Conversamos sobre futilidades. O italiano é um diplomata, confessou-me o negociador de vaginas ao se sentir à vontade. Aos cubanos bastava o casamento com as mulheres do partido, ou a masturbação... Não tinham escolha." Não acreditei, também fotografei a região onde ocorria o trotoar. À época, empresários espanhóis estavam presentes para ouvir o discurso que Fidel Castro faria. Os espanhóis faziam a política americana para manter afastados concorrentes, estavam interessadíssimos na abertura. Comi o "pi", era o que todo cubano comia - arroz, lentilha e uma porção de carne), cerveja e gasolina só para os estrangeiros. Não sei se os do poder comiam o "pi", a ver pela história, não, com certeza. Passar as férias na praia exigia um comportamento exemplar na comuna. Jovens de todas as áreas estavam sendo preparados para trabalhar com turismo. Havia garçom geólogo, economista etc. Aliás, o cubano, em tudo muito semelhante ao carioca, não sabia o que fazer com os seios à mostra das alemãs. Livros eram vendidos a 1 dólar nas livrarias. Intelectual cubano olhava turista obliquamente. Quisesse, havia festa à noite ao modo bem burguês e ocidental - com tudo que pode existir nessas festas -, um passeio fora do roteiro, de barco, era possível com algum por fora. Em translado, havia lojas com produtos clandestinos em determinados locais na estrada, que o cubano comprava com dólar do turismo, irregularmente. Na rua, um sujeito que me oferecia charuto cubano implorou que eu o protegesse quando apareceu o caminhão da Polícia Nacional - nem me ouviriam, levaram o jovem. Muito interessante a dificuldade do cidadão cubano lidar com a questão "empresa": como contratar um irmão cubano? O Estado havia investido no sujeito, como, agora, atuar com o capital? Sem utopias, não importa o regime, o governo, a época, o homem, em sua essência é o mesmo que há 4000 anos. Está havendo abertura? O que isso quer dizer? Entrar na ditadura tecno-democrática do consumo? Se pelo menos conseguirem manter as conquistas sociais... Mas, pensando na natureza humana, não acredito.
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Havana 92
Carlos Pessoa Rosa
2008-09-20 17:13:27